Logo R7.com
RecordPlus

'Música é mensagem': maestro rege obras de campos de concentração

Evento, no dia 21 em SP, abre comemorações dos 75 anos da libertação dos campos e será regido por Francesco Lotoro, que pesquisa há mais de 30 anos

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

  • Google News
Maestro vem recuperando partituras feitas nos campos
Maestro vem recuperando partituras feitas nos campos

As comemorações dos 75 anos da libertação dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial terão início no dia 21 de novembro, em São Paulo, com a realização do concerto O Maestro - Em Busca da Última Música, conduzido pelo maestro italiano Francesco Lotoro.

Lotoro vai reger concerto em São Paulo
Lotoro vai reger concerto em São Paulo

Sob os acordes da Orquestra Jazz Sinfônica, fundada em 1989, serão apresentadas músicas compostas e recuperadas dos campos de concentração nazistas. O evento terá início às 20h30, no Auditório Simón Bolívar, do Memorial da América Latina. 


Em entrevista ao R7, Lotoro diz que, após anos de estudo de música e de apego ao judaísmo, definiu que essa será sua principal atividade para o resto da vida.

Ele afirma que sua vocação veio de forma natural, desde a infância em Barletta, cidade italiana em que nasceu, em 1964.


"Desde criança, meus pais me colocaram em contato com a música, me deram uma educação musical. Sou convertido judeu, fiquei oficialmente em 2004, mas já era apegado a esta religião desde os 15 anos", conta.

O trabalho é extenso e ele até criou uma fundação em sua cidade, para contemplar todas as pesquisas.


"Decidi ficar totalmente dedicado a esta tarefa. Há quase 40 anos de músicas a serem pesquisadas e analisadas, de 1919 a 1958" conta.

Poder sobre o sofrimento

(undefined)

Durante seu trabalho, ele percebeu que as composições tinham um poder que se elevava acima até do sofrimento dos prisioneiros. Muitas das obras foram escritas em milhares de manuscritos, em partituras e folhas despedaçadas e até por meio de rabiscos em papel higiênico ou em sacos de carvão.


"O sofrimento está presente dentro dos manuscritos, pode-se sentir o sofrimento, mas não se vê o sofrimento. Os compositores eram profissionais, até no campo, tinham problemas de logísticas, de instrumentos, mas a música natural fluía e eles anteviam até que tipo de músicos iriam interpretar as músicas", diz.

O primeiro campo libertado foi o de Auschwitz-Birkenau, um complexo de campos de extermínio localizado em território polonês, que, entre 1942 e 1945, foi um local onde pelo menos 1,3 milhão de pessoas foram assassinadas, a grande maioria judeus. No dia 27 de janeiro de 1945, tropas soviéticas tomaram a área, quando os prisioneiros foram libertados do jugo do governo alemão nazista.

Leia também

Lotoro está desvendando a intimidade deste período de terror, quando a música se tornou o único alento para muitos prisioneiros destes alojamentos da morte. Em meio à fome e à opressão, eles foram capazes de compor melodias que os ajudavam a expressar os sentimentos.

Mas que, segundo o maestro, não têm a missão primordial de passar alguma mensagem. Isso deve acontecer naturalmente, não de forma intencional.

"A música não precisa necessariamente conter mensagem, a própria música é a mensagem, pode despertar solidariedade, luta contra ocupação. Era feita com cuidado no escrever, autoridades controlavam, mas podiam até esconder uma mensagem usando determinadas linguagem, patrióticas por exemplo. Mas, no geral, se trata de uma música normal não excepcional no sentido de passar alguma mensagem incomum. A música se basta por si", diz.

No evento, idealizado pela organização ambiental KKL (Keren Kayemet LeIsrael) Brasil, parte da renda dos ingressos será revertida para o projeto "100 viagens”, de Lotoro, para que ele dê continuidade à pesquisa de novas partituras com os poucos sobreviventes do Holocausto ainda vivos.

Lotoro catalogou cerca de 1,6 mil compositores, tendo transcrito mais de 8 mil obras musicais. O acervo é conservado em sua casa em Barletta, no sul da Itália. Reúne de óperas, operetas, música sinfônica, lírica e jazz até canções populares, cantigas e paródias.

"Por trás de grande parte do acervo, há um monte de fatos e anedotas. Uma das composições, por exemplo, foi iniciada em um campo, de Westerbork, e terminada em outro, de Bergen-Belsen, porque o compositor foi transferido. Em outro caso, o compositor perdeu a partitura depois de uma operação dos soldados, mas depois ele recuperou de memória, após sair. Há também casos em que pessoas, anos após saírem do campo, se lembraram de melodias ouvidas lá, ao as escutarem novamente", destaca o maestro.

Último testamento

O regente italiano irá transformar todo o acervo na “Cittadella Della Musica Concentracionalle”, um Centro Cultural com teatro, cinema e biblioteca, que tratará apenas de músicas concentracionais (compostas em campos de concentração).

O trabalho de Lotoro inspirou o documentário “O Maestro”, de Alexandre Valenti, premiado no mundo todo e exibido em São Paulo durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema.

Grande parte dessas composições foi criada por judeus, mas há também obras feitas por prisioneiros políticos, comunistas, homossexuais, ciganos e pessoas de outras religiões.

“A música pode se tornar o último testamento de algumas pessoas e, em alguns casos, como na época do Holocausto, foi o que se perpetuou para as futuras gerações. Assumi a missão de fazer com que essas obras voltem à vida e que sejam ensinadas, tocadas, cantadas e assobiadas por todos de forma a perpetuar a vida onde havia morte”, destacou Lotoro.

Para o presidente do KKL Brasil, Eduardo El Kobbi, produtor do evento, a música também tem um importante papel histórico.

“Este projeto mostra o maior símbolo da resistência dos judeus sobre o Holocausto. As músicas compostas serão as futuras testemunhas dos horrores desse período da história. É importante fazermos uma ponte entre passado, presente e futuro, libertando essas músicas, e recuperando a relevância de cada músico presente nos campos, dignificando essas obras de resistência em meio ao caos. Trata-se de um legado para a humanidade e que merece todo o nosso apoio e respeito”, observou.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.