Internacional Netanyahu conversa com Putin sobre relações entre Rússia e Irã

Netanyahu conversa com Putin sobre relações entre Rússia e Irã

Embaixador no Irã disse que Moscou "não teria problema" em vender sistema de defesa aérea ao Irã, mas Putin tem dialogado com Israel

  • Internacional | Eugenio Goussinsky, do R7

Putin cresceu convivendo com comunidade judaica

Putin cresceu convivendo com comunidade judaica

Maxim Shemetov/EFE/30-01-20

A declaração do embaixador russo no Irã, Levan Dzhagaryan, afirmando, na semana passada, que Moscou "não teria problema" em vender seu sistema avançado de defesa aérea, o S-400, quando a proibição de venda de armas ao país expirar no final deste mês, colocou o governo israelense em alerta, mas não serviu para abalar as relações entre Israel e Rússia.

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Em mais uma das muitas conversas amistosas entre ambos, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, telefonou para o presidente russo, Vladimir Putin, para falar sobre esse assunto, entre outros. E parabenizar o russo por seu aniversário de 68 anos, ocorrido nesta quarta-feira (7).

“Durante a conversa, foram discutidos assuntos de segurança regional, a agressão iraniana e a situação na Síria”, disse o gabinete de Natanyahu em um comunicado.

Para André Lajst, especialista em política internacional e diretor executivo da ONG StandWithUs Brasil, a conversa é mais uma movimentação que demonstra o diálogo entre o governo russo e israelense, algo que tem servido para evitar um atrito maior na região e, de certa maneira, garantir a segurança de Israel.

"A Rússia também tem os seus interesses estratégicos, mas nunca estes são colocados de uma forma a prejudicar Israel diretamente, é claro que o Irã, tendo um sistema de defesa que evite o ataque de Israel, caso seja necessário, é algo ruim para Israel, mas, por outro lado, a Rússia não está vendendo o seu caça mais avançado para o Irã", diz.

A boa relação entre Israel e Rússia pode parecer estranha, já que o governo do presidente Vladimir Putin é um aliado estratégico de dois inimigos atuais de Israel: a Síria e o Irã.  Isso não impede que, por outro lado, Putin seja um dos maiores aliados de Israel, depois dos Estados Unidos, devido à sua forte ligação com a comunidade judaica, conforme ressalta Lajst.

Segundo ele, o atual relacionamento cordial entre Israel e Rússia se sobrepõe aos interesses estratégicos e se relacionam a fatores históricos e morais. Historicamente, neste sentido, a URSS apoiou a criação de Israel no começo, logo após sua fundação, colocando-se apenas anos depois contra os interesses israelenses.

Há ainda, uma disposição do governo russo em compensar toda a perseguição que os judeus sofreram no país desde o século 13, tanto na época imperial quanto nos tempos da URSS, principalmente sob o comando de Joseph Stálin. Desde criança, conta Lajst, Putin vivenciou com sofrimento o próprio sofrimento dos judeus, por manter uma relação afetiva com a comunidade.

"Putin cresceu pobre e, quando pequeno, não tinha dinheiro para comer à tarde. Os pais dele o deixavam com uma família judia que lhe dava almoço e com quem passava as tardes. Então ele cresceu com uma família judia, o que fez ele ter uma relação pessoal com a comunidade judaica, uma relação de afeto", lembra.

Lajst ressalta ainda que, além da relação pessoal, tanto a comunidade russa quanto a judaica em Israel mantêm um permanente intercâmbio cultural com os russos.

"Existem 1 milhão de russos em Israel, a cultura russa é muito forte, a lingua é muito falada em israel, o tráfego de pessoas é muito grande. E não há necessidade de visto para um israelense entrar na Rússia é uma exceção, já que a grande maioria dos cidadãos de outros países tem essa necessidade", observa.

Neste sentido, as questões estratégicas do Oriente Médio dificilmente levarão o governo de Netanyahu a se indispor com o de Putin. A declaração de Dzhagaryan, portanto, não trouxe intranquilidade ao governo de Netanyahu.

Lajst destaca que a política da Rússia, em relação a fronteiras externas, tem na Síria o lugar mais importante, já que o território sírio é o ponto final de um trajeto que liga o Irã, o Iraque até o Mediterrâneo, principalmente pelo transporte terrestre de gás e combustíveis. Isso, na opinião dele, faz o governo Putin manter um discurso político simpático às negociações com esses países. Mas que, em última instância, não afetariam Israel neste momento.

"A Rússia faz às vezes um papel politicamente correto com o Irã, prometendo vendas, mas em algumas ocasiões, sem concretizá-las. Existe aí um jogo duplo que a Rússia faz. Ao mesmo tempo, Israel faz a sua pressão, necessária para poder coordenar e conseguir fazer com que a Rússia atenda a necessidade de segurança mínima de Israel", completou.

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