Internacional No Chile, população convive com protestos e violência policial

No Chile, população convive com protestos e violência policial

Aumento da tarifa do metrô motivou manifestação de jovens, que logo se tornou movimento no país inteiro que pede renúncia de Piñera e melhorias

Protestos massivos pedem renúncia de Piñera e denunciam violência policial

Protestos massivos pedem renúncia de Piñera e denunciam violência policial

Mario Guzmán / EFE - 24.10.2019

A rotina dos moradores de Santiago mudou drasticamente desde que, há 11 dias, o Chile inteiro parou, tomado por protestos que pedem mudanças no governo e cercado por um forte aparato de repressão policial.

No dia 18, uma sexta-feira, milhares de jovens pararam os metrôs no horário de pico, protestando contra o aumento da passagem do transporte público.

As estações começaram rapidamente a fechar: eram pessoas demais impedindo a passagem dos passageiros, policiais correndo pelas estações para prender manifestantes, depredação das catracas, das estações e dos trilhos do trem.

Policiais na universidade para prender estudantes

Foi nesse cenário caótico em que Ammy Jara Soto, de 23 anos, se encontrou. A estudante de psicologia na Universidade do Chile conta que estava presa dentro da faculdade esperando notícias para poder sair.

“Eu estava na classe quando os policiais chegaram, e ficaram do lado de fora para prender os estudantes. Nós tivemos que sair correndo para entrar em algum ônibus e voltar para casa”, relembra.

Depois do fechamento das estações, o presidente Sebastián Piñera declarou estado de emergência no país e determinou um horário para o toque de recolher.

Policiais ocupavam as ruas durante o dia, e militares cuidavam da segurança e da ordem durante a noite. A ordem foi revogada no domingo (27).

Mesmo assim, as ruas foram tomadas por manifestantes todos os dias. Os protestos começaram contra o aumento das tarifas e logo se tornaram protestos contra o presidente e reivindicação de melhorias no país. Com o lema “nos roubaram tudo, até o medo”, os protestos se espalharam por todas as regiões do país.

“Mesmo com a repressão dos militares e policiais, que ficou clara em vários registros, as pessoas não deixam de sair para a rua, e inclusive os protestos atraem mais pessoas todos os dias”, explica a jornalista chilena Leyla Espinoza.

Violência e repressão policial

Pelas redes sociais, chilenos compartilharam vídeos e imagens de confrontos entre manifestantes e policiais. Segundo Leyla, os relatos das vítimas sempre falam sobre uma violência injustificada por parte dos policiais.

“Eles agem da mesma forma se há uma manifestação pacífica fora do toque de recolher, se uma pessoa está andando pela rua durante o toque e se uma pessoa, normalmente ligada a movimentos sociais, está dentro de sua casa durante o toque. Pelo menos 5 pessoas foram tiradas de casa por policiais durante esses horários”, conta.

Até agora, pelo menos 19 pessoas morreram, segundo dados divulgados pelo governo. Entre eles, um vizinho de Ammy, que estava na calçada da própria casa durante o toque de recolher.

“Ele estava fora de casa. Os policiais o viram e o espancaram, até que ele ficou gravemente ferido. Ele morreu durante a noite e não se pode fazer nada quando o levaram ao hospital”, diz.

A morte do homem está dentro do número de mortos reconhecidos pelo governo, e será investigada pela Comissão de Direitos Humanos do país. A ex-presidente, Michelle Bachelet, enviou comissários para investigar as mortes e denúncias de tortura durante os protestos.

Segundo dados do Instituto Nacional dos Direitos Humanos chileno, desde o começo dos protestos 997 pessoas foram feridas e estão em hospitais. Outras 3.162 foram presas.

Exército e policiais ocuparam as ruas em Santiago

Exército e policiais ocuparam as ruas em Santiago

Edgard Garrido / Reuters - 20.10.2019

'Não é por 30 pesos, é por 30 anos'

Outro lema das manifestações é “Não é por 30 pesos [referente ao aumento no valor da tarifa do transporte público], é por 30 anos”.

A frase lembra o lema das manifestações de São Paulo, em junho de 2016, quando o governo paulista aumentou o preço do transporte. De lá, os protestos se transformaram em reivindicações populares e culminaram nos protestos pedindo o impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

No Chile, o pedido é igual. Mesmo com Piñera pedindo desculpas e revogando o aumento da passagem, os manifestantes querem a sua renúncia. As placas nos protestos pedem a saída de Piñera e reivindicam por melhorias nos serviços públicos.

“Agora, os manifestantes reclamam também pela educação e saúde caríssimas e de péssima qualidade, empregos mal remunerados, contas de eletricidade, água e gás que seguem subindo e zonas de sacrifício (lugares com alto nível de contaminação por produtos vindos das indústrias, que grande parte dos moradores de casa próximas ficam doentes ou estão a beira da morte por intoxicação)”, conta Espinoza.