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O que aconteceria se a Venezuela voltasse a ser uma potência exportadora de petróleo?

Atualmente, o Brasil é o maior produtor de petróleo da América Latina

Internacional|Iván Pérez Sarmenti, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela gera incertezas na geopolítica, mas o impacto econômico global do petróleo ainda é marginal.
  • A produção de petróleo na América do Sul, especialmente no Brasil, Argentina e Guiana, é significativa, variando de 800 mil a 4 milhões de barris por dia.
  • Se a Venezuela aumentar sua produção, isso poderia ocasionar uma redução nos preços do petróleo, benéfico para os consumidores americanos, mas impactando a competitividade de outros produtores da região.
  • A Guiana se destaca no crescimento da produção petrolífera, contando com investimentos significativos que podem afetar o mercado global, dependendo das oscilações de preços e condições geopolíticas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Bomba de petróleo nos Estados Unidos Liz Hampton/REUTERS - 06.04.2023

A intervenção dos Estados Unidos contra a Venezuela e a captura de Nicolás Maduro trouxeram incerteza à geopolítica mundial, mas, até o momento, em termos econômicos e sobre os preços globais do petróleo, o efeito tem sido marginal, sustentam diferentes analistas consultados pela CNN.

No entanto, a questão que permanece é qual impacto terá na região o eventual aumento da hoje depreciada produção petrolífera venezuelana, impulsionada pelos Estados Unidos.


Além da Venezuela, “o restante da América Latina tem importância relativa no mundo: o Brasil está produzindo cerca de 3 milhões de barris por dia e, dependendo do cenário de preços, pode chegar a produzir até 4 milhões de barris por dia a partir do desenvolvimento que está realizando no [reservatório] do pré-sal [localizado no oceano Atlântico, em frente à costa brasileira]; a Argentina está produzindo uma média de 800 mil barris por dia e, também dependendo da evolução dos preços, pode produzir, ao final da década, 1,5 milhão; a Guiana é um desenvolvimento significativo e totalmente voltado à exportação, que superou os 900 mil barris por dia”, aponta Daniel Montamat, ex-presidente da petrolífera argentina YPF e ex-secretário de Energia da Argentina.

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“No mundo, consomem-se em média cerca de 105 milhões de barris por dia. A Venezuela produzia 3 milhões de barris por dia quando Hugo Chávez assumiu (em 1999) e agora está produzindo em torno de 1 milhão por dia. Vai depender do sucesso da intervenção americana na recapitalização da indústria venezuelana e do tempo de recuperação de sua produção, mas a produção da região pode chegar a representar de 8% a 10% da oferta mundial”, explica Montamat.


“Se somarmos a produção da América do Norte — Estados Unidos, Canadá e México —, o conjunto representaria 30% da oferta mundial. Em um mundo dominado pela geopolítica, no qual a segurança energética está no topo da agenda, essa massa crítica, em um paradigma ainda dominado pelos combustíveis fósseis, concede ao continente uma vantagem estratégica significativa”, acrescenta.

“Um dos fatores que impactam a inflação norte-americana é o preço da gasolina nos Estados Unidos”, sustenta o analista de comércio internacional Ezequiel Vega.


“Se a Venezuela produzir mais petróleo e exportar para os Estados Unidos os 30 ou 50 milhões de barris de petróleo que Donald Trump prometeu, o que veríamos seria um preço do barril de petróleo WTI próximo de US$ 50 (R$ 268,79) e do Brent mais perto de US$ 55 (R$ 295,66). Isso é positivo para os Estados Unidos e para o consumidor norte-americano porque significaria uma redução da inflação”, acrescenta.

Por outro lado, as ações das grandes petrolíferas, como Chevron e ConocoPhillips, “subiram mais de 12% na semana passada no mercado”, aponta Vega.


“O mercado se move por expectativas e certos investidores se inclinam por essas companhias norte-americanas, que podem vir a ter contratos futuros na Venezuela. Mas ainda não há nada concreto”, acrescenta.

Cenário distante

No entanto, ao menos por enquanto, esse cenário parece distante. Na sexta-feira (9), Trump tentou seduzir os principais executivos do setor petrolífero com a promessa de uma nova e ampla campanha de exploração na Venezuela. Mas não conseguiu nenhum compromisso importante das empresas.

“É impossível investir”, disse o CEO da ExxonMobil, Darren Woods, aos funcionários, em uma avaliação direta dos obstáculos para fazer negócios no país.

“Há vários marcos legais e comerciais que teriam de ser estabelecidos até mesmo para entender que tipo de retornos obteríamos do investimento.”

No mesmo sentido se manifestaram vários outros executivos, que advertiram que a indústria primeiro precisaria assegurar amplas garantias de segurança e financeiras antes de iniciar um esforço de vários anos para aumentar a produção de petróleo.

“O surgimento da Venezuela como forte exportadora é um dado a ser acompanhado por todo país produtor de petróleo. Inclusive os Estados Unidos, hoje o principal produtor de petróleo do mundo, porque o petróleo não convencional que extrai requer investimentos contínuos para manter os níveis produtivos e é mais sensível do que o petróleo convencional à queda dos preços”, sustenta Montamat.

O fato é que “o petróleo Brent era negociado em torno de US$ 60,8 na manhã de 5 de janeiro, o mesmo nível que tinha antes da intervenção militar norte-americana na Venezuela”, sustenta uma análise da consultoria Oxford Economics. Uma semana depois, a cotação gira em torno de US$ 62.

Petróleo venezuelano e o mercado internacional

Embora o país tenha as maiores reservas provadas do mundo, o tipo de petróleo extraído na Venezuela é diferente do de outras regiões do continente. Trata-se de petróleo pesado, com maior teor de enxofre, que exige um tratamento especial, diferente do convencional produzido pelo Brasil e pela Guiana, ou do ‘shale’, ou não convencional, que representa grande parte das produções dos Estados Unidos e da Argentina.

“Eu não acredito que afete muito a concorrência com o Brasil ou a Argentina, porque cada um tem um tipo diferente de petróleo, em um mercado mundial cada vez mais demandante de petróleo, apesar de alguns países caminharem em direção a energias limpas”, sustenta Vega.

“Há um mercado internacional de petróleo com cotações que levam em conta as variedades de petróleo”, concorda Montamat, embora advirta: “quando cresce a oferta de petróleo, seja de que variedade for, como ocorreria no caso de a Venezuela aumentar sua produção, se não houver nova demanda para absorvê-la, todas as cotações do petróleo sofrem queda”.

Com o desenvolvimento do campo não convencional de Vaca Muerta, a Argentina aumentou sua produção e exportação de petróleo e já superou a Colômbia.

A grande esperança nacional é que, em um futuro não muito distante, contribua com tantos dólares ou mais do que os hoje obtidos graças à soja, a principal exportação argentina.

“Com um barril Brent a US$ 60, o desenvolvimento intensivo de Vaca Muerta vai muito bem”, sustenta Montamat.

No entanto, o cenário muda se o preço internacional cair. “Vaca Muerta é viável com um preço do barril acima de US$ 50. Abaixo disso, o investimento deixa de ser atrativo”, assinala Vega. Isso se deve ao fato de que ali é necessário empregar técnicas como a fraturação hidráulica (fracking) e a perfuração horizontal, que elevam os custos de extração.

“Se a Venezuela acabar adicionando maior oferta exportadora ao mercado mundial e provocar uma queda dos preços, ainda com um barril a US$ 50, Vaca Muerta mantém seu desenvolvimento intensivo na medida em que a indústria consiga ganhar competitividade em custos (financeiros, logísticos e de serviços)”, acrescenta Montamat.

Um cenário hipotético de queda do preço do petróleo forçaria a Argentina a se concentrar na extração de gás, presente em maior proporção do que o petróleo nesse campo.

“Vaca Muerta é 70% gás, e aí competimos com os preços aos quais os Estados Unidos podem desenvolver e comercializar seu gás”, explica, embora alerte: “se os preços do GNL (Gás Natural Liquefeito) caírem, o desenvolvimento intensivo pode desacelerar, dependendo da capacidade de fechar contratos de fornecimento de longo prazo. Nesse sentido, o acordo Mercosul–União Europeia abre oportunidades no mercado europeu”.

Brasil: o maior produtor de petróleo da América Latina

O maior país da América do Sul é hoje o principal produtor da América Latina e extrai petróleo convencional. “As perfurações em alto-mar são muito custosas, mas os rendimentos do pré-sal são muito significativos, e o Brasil quer ir além, tentando explorar na área adjacente à Guiana”, explica Montamat.

Mas, novamente, surge o fator preço. “É claro que, com o petróleo abaixo de US$ 50, todas as empresas começam a revisar números e orçamentos. Mas acredito que o que se discute no Brasil é o ritmo de crescimento da produção, e não sua paralisação ou queda. O Brasil é um ator importante no mercado internacional de petróleo”, sustenta o especialista.

Destino da Guiana

O destino desse pequeno país, vizinho da Venezuela, mudou em 2015, quando a Exxon descobriu quase 11 bilhões de barris de petróleo nas águas profundas de sua costa.

Em 2025, bombeava cerca de 650 mil barris de petróleo por dia, com planos de mais do que dobrar esse número para 1,3 milhão até 2027, e hoje apresenta o maior crescimento esperado de produção de petróleo do mundo até 2035.

“A Guiana é um ator no mercado mundial de petróleo porque quase toda a sua produção é destinada à exportação. Além disso, conta com o respaldo financeiro da Exxon para sustentar níveis crescentes de investimento. É claro que sua produção também será sensível se, como consequência de acontecimentos geopolíticos além dos fundamentos do mercado (oferta/demanda/estoques), ocorrer uma queda sustentada dos preços”, conclui Montamat.

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