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O que são órgãos multilaterais e por que eles estão sob ataque

Reações nacionalistas e conservadoras à ação de organizações internacionais resultam em crises diplomáticas, como a que envolveu a OMS recentemente

Internacional|Alvaro Gadelha*, do R7

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Organização das Nações Unidas foi fundada após Segunda Guerra
Organização das Nações Unidas foi fundada após Segunda Guerra

No dia 7 de julho, foi oficializadaa saída dos Estados Unidos da OMS(Organização Mundial da Saúde). Desde o começo da pandemia de covid-19, o presidente norte-americano, Donald Trump, mostrou-se combativo em relação às recomendações e atitudes da organização, a qual acusa de favorecer os chineses.

Uma situação semelhante aconteceu em 2017, quando os EUA anunciaram sua saída da UNESCO, a agência de cultura e educação da ONU (Organização das Nações Unidas), pelo seu viés anti-Israel.


Essa reação ao multilateralismo tem se feito presente em vários países do mundo, geralmente associada a grupo conservadores e de ultradireita. Ela é acompanhada de uma forte retórica nacionalista, que pode ser ilustrado por uma frase icônica do próprio Trump: "America First" ("Os EUA vêm primeiro").

Histórico

A ONU, principal representante da política globalizada, foi fundada oficialmente em 24 de Outubro de 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, justamente ao fim de uma longa batalha contra extremos nacionalistas, definindo como propósito em sua Carta Constitutiva a "manutenção da paz e segurança internacionais".


Logo, diplomatas desta organização sentiram a necessidade de uma divisão que supervisionasse problemas globais de saúde. Assim, criaram em 7 de Abril de 1948 a OMS, que compartilha propósitos e valores intimamente ligados à ONU, demonstrada pela definição de saúde como "bem-estar físico, mental e social".

E, com o tempo, outras foram surgindo, em formas de acordos econômicos, militares, humanitários, instituições comerciais ou financeiras, entre outros.


Funcionamento

A professora de Relações Internacionais da ESPM, Carolina Pavese, explica: "As organizações internacionais tem o propósito de fomentar a cooperação entre países, promover a governança global, uma gestão coletiva de problemas coletivos, atuando em áreas onde problemas não poderiam ser resolvidos individualmente ou seriam melhor resolvidos coletivamente, como as mudanças climáticas."

Carolina Pavese, professora de ESPM
Carolina Pavese, professora de ESPM

Porém, isso não é feito através de imposições. "As organizações servem como um centro de referência, coordenação e informação", explica. "Elas podem criar normas obrigatórias para os participantes, que são voluntários, ou regras que servem como baliza para a criação de políticas 'domésticas'." 


"Cada Estado tem a sua forma de se relacionar e reconhecer legalmente estes tratados", conclui. Algumas propostas específicas e raras, geralmente ligadas a direitos humanos, têm peso supranacional. Neste caso, elas são invioláveis e "valem mais que a Constituição", mas não são todas as organizações que tem este tipo de poder. 

Para isso, é necessário um mecanismo de financiamento para manter o órgão funcionando normalmentel, que considera o tamanho da economica de cada país-membro. "Existe, de modo geral, um coeficiente que leva em consideração o PIB, a renda per capita e, ás vezes, a área geográfica para definir a contribuição financeira de um país", diz Pavese.

"Portanto, as organizações são criadas voluntariamente pelos Estados, têm seu formato definido pelos Estados e as principais decisões tomadas pelos Estados. Portanto, elas democratizam a governância global", conclui.

Nacionalismo ou conservadorismo?

Segundo José Luiz Bueno, coordenador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP, existe um sentimento de insegurança em relação a esse tipo de política internacional, mais presente em vertentes grupos denominados de "conservadores".

“Este receio está associado a duas visões: a primeira, mais nacionalista, está ligada à proteção de uma ‘soberania nacional’; e a outra, mais cética, compreende esses órgãos como ‘agências moralizadoras’, isto é, que regulam o comportamento ideologicamente, e não técnicas, simplesmente”, explica.

Bueno diferencia o ceticismo conservador do nacionalismo
Bueno diferencia o ceticismo conservador do nacionalismo

Ele conclui: "Quando trazemos a discussão para a nossa realidade, no Brasil, vemos uma associação com a primeira linha de raciocínio citada, acompanhada de uma idealização do passado. Assim, ele deixa de ser conservadorismo, pois este simboliza apego ao presente, ao real, e passa a ser reacionarismo."

*Estagiário sob supervisão de Cristina Charão

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