Logo R7.com
RecordPlus

Os mais recentes viajantes do Canal do Panamá: peixes invasores de dois oceanos

Uma expansão multibilionária para acomodar navios de carga gigantescos pode ser ter gerado confusões ecológicas

Internacional|Do R7

  • Google News
Canal do Panamá é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo Charlie Cordero/The New York Times

Lago Gatún, Panamá – A noite caía enquanto os dois cientistas começavam seu trabalho, desenrolando redes longas na extremidade do barco. A selva dava início à sua sinfonia noturna: o chilreio doce dos insetos, o guincho distante dos macacos, o canto ocasional de um milhafre. Crocodilos repousavam nas águas rasas; seus olhos brilhavam quando as lanternas os iluminavam. Sobre a água, do outro lado, cargueiros desenhavam sombras escuras ao deslizar entre os oceanos.

Há mais de um século, o Canal do Panamá liga povos e economias distantes, o que faz dele uma artéria imprescindível para o comércio mundial – e, nas últimas semanas, um alvo dos planos expansionistas do presidente eleito Donald Trump. Mas, recentemente, o canal também passou a conectar outra coisa: os ecossistemas imensos do Atlântico e do Pacífico.


Os dois oceanos estiveram separados durante aproximadamente três milhões de anos, desde que o istmo do Panamá emergiu das águas e os dividiu. O canal abriu um caminho através do continente, mas, no decorrer de décadas, só algumas espécies de peixes marinhos conseguiram migrar pela via navegável e pelo reservatório de água doce, o Lago Gatún, que alimenta suas eclusas.

Mas em 2016, quando o país ampliou o canal para permitir a passagem de navios de grande porte, tudo começou a mudar. Em menos de uma década, peixes dos dois oceanos – o robalo-brancos, o xaréu, o vermelho-henrique e outros – substituíram quase completamente as espécies de água doce que viviam no sistema do canal, de acordo com cientistas do Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais, no Panamá. Os pescadores que dependem dessas espécies no Lago Gatún, sobretudo do tucunaré e da tilápia, afirmam que capturá-las está cada vez mais difícil.


Os pesquisadores temem que mais peixes possam começar a migrar de um oceano para o outro, e nenhum invasor potencial causa mais preocupação do que o peixe-leão, venenoso e com um padrão de listras e cores que lembra uma bala. É conhecido por habitar a costa caribenha do Panamá, mas não o Pacífico Oriental. Caso consiga atravessar o canal, poderá devastar os peixes locais indefesos, como já ocorreu no Golfo do México e no Caribe. Já é comum encontrar espécies marinhas no Lago Gatún, afirmou Phillip Sanchez, ecólogo de pescas do Instituto Smithsonian. “Estão se tornando a comunidade dominante, expulsando todas as outras.”

Em uma noite recente, Sanchez e Víctor Bravo, biólogo do Instituto Smithsonian, instalaram sete redes no lago. Cada uma tinha pelo menos 45 metros de comprimento e três de largura, com malhas de diferentes tamanhos para prender os peixes pelas brânquias. Os cientistas as posicionaram em locais variados e passaram a noite no barco para garantir que os crocodilos não devorassem suas capturas. Mais tarde, eles e outros pesquisadores analisariam no laboratório os peixes coletados para determinar de onde tinham vindo e como se encaixavam na cadeia alimentar do lago. Bravo amarrou uma extremidade da rede a um galho de árvore. “Vamos!”, gritou. O capitão colocou o barco em marcha a ré, esticando-a. Depois esperaram.


Adicionar mais água doce não necessariamente impediria que os invasores atravessassem as eclusas novas Charlie Cordero/The New York Times

O Canal do Panamá tem uma história longa de criaturas marinhas que o atravessam como clandestinas nos cascos dos navios ou em seus tanques de lastro: ostras do Indo-Pacífico, águas-vivas do Mar Negro, minhocas dos pântanos dos Países Baixos. Mas, de acordo com o que os cientistas sabem, os mais recentes invasores aquáticos não chegam de barco.

Como parte da recente ampliação do canal, o Panamá adicionou um acesso novo em cada entrada, com novas eclusas que conseguem elevar e baixar os gigantescos navios cargueiros modernos. Naturalmente, essas eclusas são maiores do que as antigas. Assim, a cada passagem de um navio, mais água doce é despejada no oceano e mais água do mar invade o canal – e, talvez, mais peixes costeiros também.


Toda essa água salobra adicional também tornou algumas partes do lago mais salgadas. Até agora, porém, o aumento da salinidade não foi suficiente para explicar a presença repentina de tantas espécies marinhas, disse Gustavo Castellanos-Galindo, pesquisador de pós-doutorado do Instituto Leibniz de Ecologia de Água Doce e Pesca Continental, em Berlim, que estuda o ecossistema do canal. Ele e outros cientistas acreditam que o efeito somado de maiores eclusas, navios e volumes de água é o que tem permitido que mais peixes nadem ou sejam levados até o canal. “Eles têm mais oportunidades para entrar”, afirmou Diana Sharpe, ecóloga de água doce da Universidade Harvard.

Os pescadores de Gatún, que conhecem o lago melhor do que ninguém, dizem que os efeitos têm sido devastadores. Partindo de onde mora, em Cuipo, vilarejo de casas coloridas como um arco-íris na margem ocidental do lago, Félix Martínez González percorre há décadas as águas em uma canoa azul-clara. Recentemente, pescou com arpão sete quilos de peixe em seis horas, mas disse que, antes da ampliação do canal, teria conseguido o dobro disso.

Ele culpa o sal. O aumento da salinidade pode estar acabando com a vegetação em que a tilápia e o tucunaré costumam viver. (Outro possível fator, segundo Sharpe, é que agora os peixes do lago precisam competir com os invasores marinhos por alimento.) Tomando um café na varanda de sua casa, Martínez González, que tem cerca de 60 anos, adota uma perspectiva em longo prazo: “Não estou preocupado comigo, mas com a próxima geração. Isso tudo a afeta também.”

O tucunaré do canal também é popular em competições de pesca. Mas, com a população desse peixe sob pressão, Oswaldo Alberto Robles, de 54 anos, guia de pesca, questiona se faz sentido que os torneios continuem oferecendo prêmios por ele. “Imagine 20, 30, 40 barcos procurando por uma única espécie. Vamos acabar com ela ainda mais depressa.”

Um robalo, uma espécie marinha que foi capturada no lago Charlie Cordero/The New York Times

O problema dos peixes é só um dos desafios que a expansão do canal criou para o Panamá. A intrusão de água salgada ameaça outra função importante do Lago Gatún: abastecer metade da população do país com água potável. A autoridade do canal está estudando métodos para dessalinizar partes do lago. Também planeja represar outro rio para criar um novo reservatório de água doce e, como consequência, deslocar cerca de duas mil pessoas, pobres em sua maioria.

Para os críticos, a situação reflete uma falta de planejamento das autoridades panamenhas: a ampliação cara e prejudicial do canal gerou problemas que só outro projeto igualmente custoso e desafiador poderia resolver. “A verdade é que ninguém discutia o problema da salinidade do lago antes da ampliação. Agora, os panamenhos estão preocupados com a água potável, mesmo vivendo em um dos países mais chuvosos do mundo”, disse Manuel Cheng Peñalba, membro da Assembleia Nacional do Panamá, órgão legislativo do país, e ex-funcionário do canal.

Ao ser questionado se deveria ter sido ampliado sem antes garantir um novo suprimento de água, Ricaurte Vásquez Morales, o administrador do canal, destacou a importância vital da ampliação para o Panamá. Os navios estavam superando as dimensões das eclusas originais do canal. O país tinha uma escolha: acompanhar o ritmo ou “ficar para trás”, afirmou ele.

Juan Carlos Navarro, ministro do Meio Ambiente do Panamá, usou uma expressão em espanhol para descrever como o governo resolveria os problemas ambientais do canal: “Eu me visto devagar porque estou com pressa.” Em outras palavras: com urgência, mas com cuidado. “Não vamos errar com o canal. O Panamá é o canal e o canal é o Panamá.”

No que diz respeito aos peixes, contudo, não está muito claro qual seria o procedimento correto. Adicionar mais água doce não necessariamente impediria que os invasores atravessassem as eclusas novas. Instalar barreiras elétricas ou cortinas de bolhas de ar poderia manter algumas espécies afastadas, mas outras não. Esses obstáculos também poderiam dificultar o tráfego de navios.

Com muitas espécies invasoras, não é possível prever se elas viverão tranquilamente em seu habitat novo ou se vão se propagar, disse Bella Galil, curadora emérita de crustáceos do Museu Steinhardt de História Natural de Tel Aviv. Durante décadas, ela estudou espécies invasoras não nativas que viajaram pelo Canal de Suez, como a água-viva, o mexilhão, o baiacu e o peixe-coelho-de-duas-faixas – centenas delas no total.

Vista panorâmica da Baía da Cidade do Panamá a partir do mirante Amador, uma das áreas mais visitadas da capital panamenha Charlie Cordero/The New York Times)

Segundo Galil, a água-viva não era conhecida por se aglomerar em massa em seu habitat antigo, no Mar Vermelho. Mas, no Mediterrâneo, a espécie forma enxames, queima crianças na praia, entope as redes de pescadores e bloqueia as entradas das usinas dessalinizadoras com seu corpo pegajoso. Ela acrescentou que, em algumas ocasiões, os reguladores levam a sério o controle desses invasores. Mesmo assim, o sucesso não é barato, rápido ou garantido. “Leva uma vida inteira. Mas, se não começar, o mar vai ser destruído.”

De volta ao barco dos cientistas no Lago Gatún. Era quase meia-noite: hora de Bravo e Sanchez verificarem as redes. Acordaram e começaram a refazer o trajeto pela água escura. Na primeira parada, cada um segurou uma ponta da rede, puxando-a para dentro do barco. A primeira captura da noite foi um bagre marinho do Pacífico. A segunda, um robalo, outra espécie costeira. Quando chegaram ao fim da rede, eles a levantaram e sacudiram. Pequenas anchovas e peixes-reis do Atlântico caíram sobre o convés. “Essas também são espécies marinhas. Agora esses peixinhos já estão no lago todo”, comentou Bravo.

Ele colocou os corpos prateados em um saco plástico com fecho hermético, que foi etiquetado e colocado em um isopor. Nas outras redes vieram combinações semelhantes de espécies e origens: um robalo do Caribe e outro do Pacífico; um peixe-dama esguio e elegante e um peixe-agulha de nariz longo, ambos do Caribe, e outros peixes forrageiros robustos, alguns nativos, outros não.

Os pesquisadores do Smithsonian coletam amostras de peixes de Gatún dessa maneira há mais de uma década. Analisam as lentes oculares, o tecido muscular e o conteúdo estomacal dos animais. Sanchez estuda seus otólitos, estruturas calcificadas no ouvido interno que, como os anéis das árvores, registram informações detalhadas sobre os ambientes em que estiveram.

Ao amanhecer, ele e Bravo puxaram as redes pela segunda vez. A luz do dia era suave e rosada. O barco dos cientistas parecia um brinquedo ao lado dos petroleiros que cruzavam o canal pela manhã. Bravo refletiu sobre o lago em transformação e as comunidades que dependem dele. “Sinto certa tristeza, porque muita gente que pescava para a subsistência e a alimentação não tinha outro tipo de trabalho. Precisava pescar.” Mas alguns dos invasores novos, como os xaréus, são mais difíceis de capturar do que as espécies que estão substituindo. Os peixes novos são mais rápidos, agressivos – menos “bobos”, disse Bravo.

Mesmo agora, é possível que o Gatún ainda esteja em processo de transformação. Os cientistas afirmam que toda essa mistura de espécies pode levar ao cruzamento de algumas delas entre si – com efeitos muito difíceis de prever, no lago e nos dois vastos oceanos que o cercam.

c. 2025 The New York Times Company

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.