Internacional País da moda, Portugal vive clima de ceticismo às vésperas de eleições

País da moda, Portugal vive clima de ceticismo às vésperas de eleições

Pesquisas indicam número massivo de abstenções no domingo (6). População reclama do interior sendo deixado de lado e crescimento das grandes cidades

Portugal viveu 'milagre' com socialista António Costa

Portugal viveu 'milagre' com socialista António Costa

Jon Nazca/ Reuters - 4.10.2019

"Os políticos falam muito bem, mas o interior só é bom para eles quando precisam", diz António por experiência própria. Em busca de um futuro melhor, ele se mudou para Lisboa e, aos 71 anos, não fecha as portas para a esperança, apesar do ceticismo: "Acho que estamos no caminho certo, mas não acredito muito..."

Como António, há muitos céticos que sentem que o chamado "milagre" que transformou Portugal no país europeu da moda sob o governo do presidente socialista António Costa tem mais eco fora das fronteiras lusitanas do que dentro.

Apoiado por uma aliança de esquerda, Costa reverteu parte da austeridade após o resgate do país, mas sem descumprir as regras orçamentárias da União Europeia (UE). Por isso, boa parte dos portugueses não sentem melhoras substanciais no dia a dia.

No entanto, embora exista a expectativa de vitória nas eleições, as pesquisas de intenção de voto não garantem uma maioria absoluta para Costa nas legislativas deste domingo. A previsão é de uma abstenção volumosa.

A poucos dias da votação, mais de 10,8 milhões de eleitores colocam na balança os resultados de uma legislatura que deixa bons dados macroeconômicos, mas a um alto custo.

Um exemplo é o crescimento das grandes cidades enquanto o interior se torna cada vez mais deserto. Além disso, o "boom" turístico nacional levou milhares de pessoas para as periferias.

Esses dois êxodos são determinantes para a compreensão do clima eleitoral em um país que, segundo especialistas, não se esquece dos anos difíceis e permanece desconfiado diante dos eufóricos que garantem que Portugal "está na moda".

Legislatura prodigiosa, com a austeridade no retrovisor

"Portugal é um país mais otimista, mas não se esqueceu do período da austeridade, cujas marcas continuam muito presentes", disse à Agência Efe Carlos Jalali, professor de Ciências Políticas da Universidade de Aveiro.

O otimismo se deve a uma evolução desde que o país aderiu ao programa de resgate financeiro da troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), em 2011: desemprego em mínimos históricos, déficit próximo a zero, primeira vitória no Festival Eurovision, primeiro título da Eurocopa, prêmio de melhor destino turístico europeu, presidência do Eurogrupo e até secretaria-geral da ONU. Tudo isso nos últimos quatro anos.

Apesar das conquistas, também há um outro lado. Se o desemprego teve uma queda de 6,3%, isso se deve aos empregos do turismo e da construção, com salários próximos ao mínimo (600 euros). Se o déficit está em 0,4% do PIB, é parcialmente por conta de uma política de gastos limitados que impacta a saúde pública, entre outros fatores.

De resto, nas mãos do cantor Salvador Sobral e do jogador Cristiano Ronaldo, foram conquistas "simbólicas" que, na opinião de Jalali, não bastam para que os eleitores concedam a Costa uma maioria absoluta.

Diante dos muitos elogios internacionais, com até Madonna escolhendo morar em Lisboa, a realidade é outra nas ruas, e com interesses em temas mais prosaicos: emprego e moradia, agora uma obsessão nacional.

Cerca de 41% dos imóveis do centro de Lisboa já são apartamentos turísticos, os quais a Câmara Municipal precisou limitar para evitar que bairros históricos como Alfama se tornassem um parque temático.

Enquanto isso, o terminal de cruzeiros chega a abrigar três navios simultaneamente durante dias, lojas tradicionais fecham e é impossível alugar um quitinete por menos de 700 euros na capital, sendo que o salário mínimo nacional está em 600 euros.

"Houve algumas mudanças sociais interessantes", afirmou Carlos Jalali, ao ressaltar que a "transformação do mercado imobiliário" não ocorreu apenas nas grandes cidades.

As medidas para aliviar a situação são lentas e geram apatia e descrédito entre os jovens que não emigraram, e variam entre votar em partidos pequenos - com poucas possibilidades de chegarem ao Parlamento -, em branco ou a abstenção, o caminho escolhido por 44% dos eleitores em 2015.

"A maior parte das pessoas que conheço nem vai votar. Acredito que votar em branco é mostrar que já não acreditamos no sistema. Vale a pena ir votar, mesmo sendo para mostrar a nossa insatisfação", relatou Vasco Rosa, um produtor de cinema de 30 anos que votará em branco.

A estudante Mariana Taborda, que recentemente completou 18 anos, votará pela primeira vez e disse preferir apoiar um partido minoritário.

"Nós nos sentimos como minoria, pois sempre escolhemos votar em partidos menores, que não entram no Parlamento", confessou a eleitora, que se interessa por propostas ambientalistas.

Sobreviventes do êxodo rural

Enquanto isso, o interior do país observa com falta de interesse a campanha eleitoral, ao mesmo tempo em que pede uma solução que evite seu esvaziamento definitivo devido ao êxodo não apenas para o litoral, tradicionalmente mais próspero, mas também para os polos urbanos de Lisboa e Porto, cada vez maiores.

"Os políticos falam muito bem, mas o interior, para eles, só serve quando há necessidade. Quando não precisam, não existe", lamentou António, dono de um restaurante perto da famosa Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Aos 71 anos, ele permanece no comando de um estabelecimento que simboliza uma carreira iniciada há 57 anos, quando deixou a terra natal, a serra de Beira Alta, e chegou a Lisboa.

Quando volta para a sua cidade, reencontra "amigos que dizem não ter como ganhar dinheiro", "idosos que passam o dia sentados na taverna" e que não veem futuro para os jovens, em um país com uma população cuja idade média supera 44 anos.

Ele observa um cenário similar na terra da esposa, natural de Alentejo, e é muito cético quando perguntado se realmente acredita que "Portugal está na moda".

"Não, são fases. É evidente que se fôssemos olhar o governo anterior, quando só se falava de austeridade, agora está melhor. Se no futuro for assim... Acredito que estamos no caminho certo, mas não acredito muito nisso, não sei", acrescentpi.

Ele votará no domingo, mas já avisa com antecedência que não estará muito confiante: "Não acredito nos políticos, são uma farsa", criticou.

Essa opinião se assemelha com as dos moradores de Vilar Formoso, onde Fátima Teixeira, de 62 anos, viu as duas filhas irem embora da região.

"O interior é uma miséria. Falta emprego, os jovens estão indo embora, não querem nada com isto. Isto é um deserto", explicou.

Os habitantes se sentem abandonados na região, onde cobram investimentos em transporte e indústria para que sejam convencidps de que não precisam ir para a capital para construírem um futuro. Para eles, esse seria o "milagre" português.