Internacional Para especialistas, guerra entre Rússia e Ucrânia pode descambar para uso de armas nucleares

Para especialistas, guerra entre Rússia e Ucrânia pode descambar para uso de armas nucleares

Especialistas não descartam a possibilidade de que se faça uso delas, mas não acreditam em cenário similar ao da Segunda Guerra Mundial

  • Internacional | Lucas Ferreira, do R7

Armas nucleares chinesas expostas durante desfile militar

Armas nucleares chinesas expostas durante desfile militar

Thomas Peter/Reuters

O conflito entre Rússia e Ucrânia reacendeu o temor de um confronto que envolva arsenais nucleares. Com poucos dias de guerra no leste da Europa, o presidente russo Vladimir Putin pôs as equipes de defesa nuclear de seu país em alerta, temendo uma retaliação do Ocidente.

A Rússia, dona do maior arsenal nuclear do mundo — possui 6.257 ogivas nucleares, enquanto os EUA possuem 5.500 —, chegou a afirmar que a Ucrânia tinha um programa para desenvolvimento de bombas atômicas mais evoluído que o do Irã ou o da Coreia do Norte. A denúncia dos russos também aponta para o conhecimento dos Estados Unidos sobre os planos ucranianos.

Um grupo de especialistas entrevistado pelo R7 não descarta a hipótese de que armas com tecnologia nuclear sejam usadas no futuro, já que na Segunda Guerra Mundial duas bombas atômicas foram jogadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

“Nunca é demais lembrar que os Estados Unidos são o único país a ter usado bombas nucleares em um conflito. Nós temos um precedente, sim. No final da Segunda Guerra Mundial, as bombas norte-americanas foram jogadas em cima de população civil”, relembra o professor James Onnig, da Facamp (Faculdades de Campinas).

O economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena explicou que a forma como o conflito entre Rússia e Ucrânia se escalonou poderá reservar um futuro atômico, caso a guerra entre os dois países não alcance um cessar-fogo em breve.

“Se fosse há um mês, eu nunca estaria falando sobre a utilização de um arsenal atômico. [...] O que imagino hoje, de uma maneira bem pragmática, é a possibilidade de um lançamento nuclear de aviso ou de advertência.”

Especialista em Rússia, o historiador Rodrigo Ianhez afirma que é “evidente” que a utilização do arsenal nuclear mundial é possível, na medida em que as potências militares não encontrem uma forma diplomática de resolver suas questões.

“É claro que é possível que o arsenal nuclear, que não apenas Estados Unidos e Rússia possuem, [...] seja utilizado. Estamos em um momento que a situação está ganhando um caráter tenso, e evidente que as chances de isso ocorrer aumentam.”

Para a professora de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Miriam Saraiva, é importante destacar que nem todas as armas com tecnologia nuclear são bombas atômicas, como as lançadas do céu japonês na década de 1940.

“As armas nucleares têm muitas categorias, digamos. Desde mísseis fortíssimos balísticos, que um joga contra o outro, até armas nucleares menores, se assim podemos dizer. Desde o submarino com propulsão nuclear, que não é uma arma, mas é movido a energia nuclear, até armas nucleares pequenas, localizadas.”

Manifestantes protestam contra bombas atômicas usando máscaras de líderes mundiais

Manifestantes protestam contra bombas atômicas usando máscaras de líderes mundiais

Omar Messinger/EFE-EPA - 01.08.2019

No que se refere à destruição em massa que se imagina quando se fala em arma nuclear, os especialistas entendem que não há espaço para esse tipo de ação hoje. Quando os Estados Unidos usaram a bomba atômica, na Segunda Guerra Mundial, nenhuma outra potência militar possuía tal tecnologia.

Atualmente, grandes potências mundiais, como França, Reino Unido e a própria Rússia, têm acesso a um arsenal nuclear de alto impacto. Dessa forma, a utilização de uma bomba atômica pode significar, basicamente, a autodestruição das nações envolvidas.

“[As grandes potências] podem fazer isso. De fato, seria trágico, e não há nada que impeça que elas façam em algum momento no futuro. Creio eu que não será um contra o outro, pois possuem as grandes armas nucleares e podem usar um contra o outro”, conta Saraiva.

“Hoje eu não acho que estamos vendo um arsenal atômico russo e americano sendo utilizado da maneira hollywoodiana, de que eles encontrariam um local, explodiriam uma bomba atômica e a gente veria aquela nuvem de cogumelo. Mas o que imagino hoje, de uma maneira bem pragmática, é a possibilidade de um lançamento nuclear de aviso ou de advertência”, diz Lucena.

Assim como Putin deixou o arsenal nuclear de seu país em alerta para se defender de ataques, todas as outras nações constroem armas de larga escala com esse objetivo. Ianhez explica que tecnologias desse tipo não são desenvolvidas com a intenção de uso em ações ofensivas, como a que a Rússia exerce na Ucrânia atualmente, por exemplo.

“É muito importante colocar que armas nucleares são feitas para não serem utilizadas. Por mais estranho que isso possa parecer, são armas de dissuasão. Elas existem justamente para dissuadir o inimigo de atacar, de modo que até mesmo Putin ter colocado o arsenal nuclear russo em alerta máximo não significa que ele planeja utilizar esse arsenal.”

Apesar de reconhecer que há o risco de utilização desse tipo de arma, Onnig não vê lados vencedores quando o assunto envolve arsenais nucleares.

“Todos sabemos que não existirão vencedores em um conflito como esse. Perde toda a humanidade, perdem as relações internacionais, e, portanto, estamos diante de uma obrigação que, além de deter o conflito na Ucrânia, o mapa da mina passa também por um grande desarmamento nuclear, sem dúvida alguma”, conclui.

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