Pior que ser refugiado é ser refugiada. Mulheres contam suas dificuldades de viver no Brasil
Exposição fotográfica Vidas refugiadas está em exibição na FNAC Paulista até o fim de março
Internacional|Diego Junqueira, do R7

“Existe o estereótipo de que a pessoa que solicita o refúgio é uma pessoa criminosa. Mas existe também o estereótipo de que a mulher que solicita o refúgio, além de criminosa, é bem provável que seja uma prostituta”.
A opinião é da antropóloga, historiadora e ativista cubana Maria Ileana Faguaga, de 52 anos. Ela aguarda há dois anos por uma resposta do governo brasileiro para seu pedido de refúgio — feito após ela sofrer perseguições políticas em seu país. Mais difícil do que ser um refugiado, diz, é ser uma refugiada.
— Sim, passamos mais dificuldades. Tem muitas mulheres que solicitam refúgio e que têm crianças, estão grávidas, ou que chegam com crianças e grávidas.
Esse é o caso da advogada Silvye Mutiene, de 33 anos, que é reconhecida como refugiada pelo governo brasileiro desde 2014. Ela chegou ao País com os dois filhos pequenos, mas sem o marido e sem a filha mais velha, que tinham ficado na República Democrática do Congo.
Além de chegar a um país desconhecido e sem falar o idioma, ter as crianças para cuidar foi e ainda é uma dificuldade a mais para Silvye em seu processo de integração no Brasil.
— Os homens se jogam [no mercado de trabalho]. Mas a mulher tem muita dificuldade de arrumar trabalho, porque têm medo de entrar no mundo do trabalho. E tem mulher que chega aqui com criança, e com criança você não consegue trabalho mesmo.
Silvye deu sorte, como ela mesma diz, e arrumou emprego na escola de seus filhos como auxiliar de limpeza, o que facilitou também seu trabalho extra de cuidar das crianças (que agora são quatro).
— Tem as meninas que estão em casa porque têm filhos e não conseguem trabalhar, pelo horário de deixar filho na escola, pegar filho na escola. É muito difícil porque a gente não tem família aqui.
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Vidas Refugiadas
Para mostrar o cotidiano das mulheres refugiadas no Brasil, Maria, Silvye e outras seis mulheres se uniram ao projeto Vidas Refugiadas, da advogada brasileira Gabriela Cunha Ferraz, que é especialista em migrações e refúgio.
O projeto busca dar visibilidade ao tema no Brasil, mas a partir da perspectiva feminina.
“Quando a gente acompanha o assunto em relatórios, na mídia e em telejornais, a gente sempre acompanha o refúgio e a migração desde a perspectiva masculina. O rosto que é dado na matéria é sempre o rosto do homem”, diz Gabriela.
— A gente quer chamar atenção que existe 30% do universo de 8.600 pessoas que são mulheres e que estão precisando de apoio. São essas mulheres que a gente quer dar visibilidade.
O número de refugiados e solicitantes de refúgio não para de crescer no Brasil — e as mulheres são a menor parte.
Segundo o Ministério da Justiça, o País tinha pouco mais de 4.000 refugiados reconhecidos em 2011. Hoje eles já são 8.530, sendo 7.888 reconhecidos pelo governo brasileiro e os demais são os chamados “refugiados reassentados” (que foram reconhecidos em outros países, mas que posteriormente vieram ao Brasil).
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Dos 7.888 refugiados reconhecidos pelo Brasil, 1.929 são mulheres (24%). O Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) ainda precisa julgar 16.841 solicitações, sendo 2.488 (14%) de mulheres.
De acordo com o secretário Nacional de Justiça e presidente do Conare, Beto Vasconcelos, as mulheres enfrentam uma vulnerabilidade maior tanto em seus países de origem como nos países de acolhida.
— Chegam, muitas vezes, com seus filhos, muitas vezes, descoladas de qualquer renda de seus países de origem. Muitas vezes, culturalmente, não haviam trabalhado em seus países e têm uma dificuldade maior de integração no Brasil.
Segundo Gabriela, muitas dessas mulheres são capacitadas profissionalmente, mas não conseguem desenvolver suas atividades por aqui.
— O trabalho continua sendo um dos grandes obstáculos para essa integração, porque elas mesmas dizem que a primeira palavra que aprendem em português é “limpeza”. Então, a gente entende bem qual o espaço, qual o mercado de trabalho que vem sendo reservado para mulheres migrantes e refugiadas.
O Vidas Refugiadas lançou na segunda-feira (7), na véspera do Dia Internacional das Mulheres, uma exposição fotográfica na livraria FNAC Paulista, em São Paulo. São 16 imagens assinadas pelo fotógrafo Victor Moriyama.
A exposição mostra o cotidiano das oito mulheres que participam do projeto, como a nigeriana Nkechinyere Jonathan, professora de inglês de 44 anos.
Ela conta que, apesar de o refugiado ter garantido o acesso à saúde e educação pública brasileiras, as pessoas ainda não estão preparadas para atender os refugiados no dia a dia.
— Quando você vai a um hospital e mostra o RNE (Registro Nacional de Refugiado), as pessoas não sabem o que é isso.
Durante a abertura da exposição, Jonathan fez um apelo para que sejam oferecidas oportunidades de trabalho “para quem não fala português”.
— [Não falar o idioma] não significa que não sejam qualificadas.
Segundo Gabriela, “a exposição traz mulheres capacitadas, como advogadas, antropólogas e pedagogas”.
— Mas elas ainda ocupam cargos de trabalho de base, onde não falam, não aparecem e não se destacam. A gente quer que elas ocupem cargos e profissões dentro da sua área de especialização.
Durante a abertura da exposição, o secretário Nacional de Justiça afirmou que é “essencial o refugiado gerar renda para se sustentar e sustentar a sua família”.
Ele afirmou ainda que o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) vai oferecer um curso de empreendedorismo para refugiados, em São Paulo, sobre “como montar, obter financiamento e gerir” o próprio negócio.
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Serviço
Exposição Fotográfica Vidas Refugiadas
FNAC Paulista
Avenida Paulista, 901. São Paulo
10h - 22h
Até o fim de março
O beijo dos nigerianos Ibrahim e Shauna John simbolizou o fim de uma dor superior à da vivência da guerra: a dor da separação. O casal, que havia planejado se casar em uma aldeia no nordeste da Nigéria, foi separado após o ataque do grupo terrorista is...
O beijo dos nigerianos Ibrahim e Shauna John simbolizou o fim de uma dor superior à da vivência da guerra: a dor da separação. O casal, que havia planejado se casar em uma aldeia no nordeste da Nigéria, foi separado após o ataque do grupo terrorista islâmico Boko Haram, que atua no país. No início de 2015, eles se reencontraram em um campo de refugiados em Camarões — onde se casaram meses depois. O campo onde Ibrahim e Shauna pretendem construir uma família abriga mais de 50 mil refugiados que fugiram dos ataques do Boko Haram. Segundo o portal de notícias americano The World Post, a Unicef disponibilizou fotos que retratam como situações singelas podem gerar felicidade mesmo em meio a um ambiente de medos e incertezas


















