Política externa de Trump abala ordem global e aprofunda disputa entre potências
Ameaças à Groenlândia e ao Canadá, por exemplo, marcam a destruição de arranjo que vigorava desde o pós-Segunda Guerra
Internacional|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
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O uso não convencional de meios econômicos e militares na política externa americana para enriquecer corporações, elevar subsídios estatais e fortalecer a segurança nacional tem causado uma erosão na ordem internacional. Para a comunidade diplomática, as ameaças do presidente Donald Trump à Groenlândia, ao Canadá e à Venezuela, por exemplo, marcam a destruição do arranjo que vigorava desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
O período era baseado, sobretudo, em instituições, diplomacia e confiança mútua. O governo Trump tem sido marcado por críticas à ONU (Organização das Nações Unidas) e a outras instituições internacionais.
Apesar das queixas, existe um comprometimento com a relevância da organização no enfrentamento de crises globais — estas causadas, principalmente, pelo enfraquecimento do multilateralismo, por questões orçamentárias e impasses políticos e ideológicos.
📝Ordem global é o conjunto de regras, relações de poder, instituições e acordos que organizam o funcionamento do mundo entre os países.
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Para João Alfredo Lopes Nyegray, coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, a “nova ordem” não é apenas uma mudança na política externa, mas no “princípio organizador”. Ou seja, os EUA deixam para trás uma ordem em que buscavam liderar por regras para adotar uma prática em que poder, acesso e coerção se tornam a linguagem normal do sistema.
Como exemplo, podem-se citar as ameaças do uso militar por Trump na Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca. Segundo o presidente americano, a ilha é essencial para a construção de um sistema de defesa contra a Rússia e a China.
“É por isso que textos recentes falam em ‘new old world order’: a ideia de que a administração estaria tentando recuperar algo mais parecido com o mundo pré-1914, de competição entre potências e hierarquias explícitas, em vez do pós-1945, de institucionalização (imperfeita) da contenção”, anaisa Nyegray.
‘Vácuo de regras’
O especialista em relações internacionais Guilherme Frizzera entende que Trump não está propriamente construindo uma ordem alternativa, mas suas ações aceleraram o colapso da estrutura que conhecíamos.
“Essa ordem já vinha enfraquecida, e a política externa de Trump acelera esse colapso sem apresentar um projeto consistente para substituí-la. O resultado é um período de transição, marcado por um vácuo de regras, no qual a diplomacia perde espaço, e a força, a coerção e a barganha de poder voltam a ocupar o centro das relações internacionais, mais do que compromissos estáveis ou normas compartilhadas”, pontua.
Esferas de influência
Para os especialistas, a lógica de Trump é que a América Latina, o Caribe e os espaços estratégicos no Atlântico Norte e no Ártico, como a Groenlândia, devem ser tratados como regiões às quais Washington tem direito.
“Ao mesmo tempo, Trump parece enxergar um mundo dividido em grandes blocos de poder, no qual a negociação ocorre entre líderes fortes: os EUA no seu entorno hemisférico, a Rússia com predominância sobre o espaço euroasiático pós-soviético e sua zona de pressão sobre a Europa Oriental, e a China exercendo centralidade no Leste Asiático e no Indo-Pacífico. A diplomacia, nesse modelo, não desaparece, mas passa a operar dentro dessas esferas, quase sempre sob condições favoráveis à potência dominante em cada região”, explica Frizzera.
João Alfredo Nyegray acrescenta que países mais dependentes dos americanos tendem a sofrer maior pressão, enquanto territórios com posição estratégica e recursos críticos tornam-se alvos de maior cobiça.
“É por isso que Canadá e Panamá aparecem recorrentemente no debate público como casos-teste do que significa ‘zona de influência’ na prática. E porque aliados europeus, pela primeira vez em décadas, parecem discutir integridade territorial e coerção econômica como risco real dentro do próprio bloco ocidental”, analisa.
‘Convivência tensa’
Além dos EUA, as outras duas maiores potencias mundiais (China e Rússia) buscam revisar a ordem internacional pós-Segundo Guerra, mas não necessariamente sob os mesmos termos de Trump.
Segundo Guilherme Frizzera, a Rússia atua de forma mais direta e voltada à segurança, buscando garantir controle e reconhecimento sobre seu entorno estratégico imediato, enquanto a China aposta em uma estratégia mais gradual, combinando poder econômico, tecnológico e institucional para ampliar sua influência.
“Ambas podem confrontar os Estados Unidos em pontos específicos, mas tendem a evitar um choque frontal permanente. O cenário mais provável é uma convivência tensa, marcada por disputas localizadas, negociações pontuais e tentativas de redefinir limites de influência em um sistema cada vez mais fragmentado e baseado em força”, observa.
Nova ordem global
Recentemente, o último tratado de desarmamento nuclear entre EUA e Rússia venceu, abrindo brecha para que os países aumentem seus arsenais. No contexto da “nova ordem global”, o fim do acordo remove um dos últimos travamentos institucionais que ainda produziam previsibilidade estratégica entre as duas maiores potências nucleares.
Com a expiração do tratado, organizações internacionais alertaram para um “grave momento”, o que aumenta a incerteza, reduz a transparência e tende a reabrir incentivos para a corrida armamentista e para barganhas de segurança.
Segundo Nyegray, o caso está diretamente ligado ao debate sobre “nova ordem”. “Quando o componente nuclear perde constrangimentos verificáveis, o mundo fica mais sensível a blefes, a erros de cálculo e a coerção — exatamente o tipo de ambiente em que uma política externa mais transacional e mais ‘de força’ encontra menos freios”.
O especialista aponta que o resultado desse impasse estrutural — formado pela tendência de rejeição chinesa e pela não renovação entre russos e americanos — é o aumento da desconfiança sistêmica. Toda a movimentação pode afetar não só o comércio, mas as alianças, e desencadear crises regionais.
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