Rússia x Ucrânia

Internacional Presença de neonazistas na Ucrânia não justifica invasão russa, dizem especialistas

Presença de neonazistas na Ucrânia não justifica invasão russa, dizem especialistas

Presidente Putin usou um argumento frágil para justificar a guerra por ignorar a atuação de radicais também na Rússia

  • Internacional | Lucas Ferreira, do R7

Vladimir Putin é retratado com bigode do líder nazista Adolf Hitler em cartaz

Vladimir Putin é retratado com bigode do líder nazista Adolf Hitler em cartaz

Jack Guez/AFP - 26.2.2022

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, no final de fevereiro, o presidente Vladimir Putin usa como justificativa a presença de células neonazistas no outro lado da fronteira. O mandatário da Rússia chegou a comentar a participação de fascistas em diferentes níveis hierárquicos no governo de Volodmir Zelenski.

O R7 ouviu especialistas que classificaram esse argumento de Putin de "hipócrita", já que o governo russo tem traços fascistas, como leis que atacam minorias e privam a imprensa de exercer um trabalho livre.

O professor do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo) Kai Enni Lehmann destaca que Zelenski é judeu e o mundo “nem deve dar ouvidos” aos argumentos de Putin para justificar a invasão da Ucrânia.

“Putin está mentindo o tempo todo, basicamente. É verdade que existem grupos neonazistas na Ucrânia, como existem na Rússia também. Então, isso é mentira, e pronto. Zelenski é judeu, perdeu parentes durante o Holocausto. A gente nem deve dar ouvidos a isso.”

O historiador e professor de relações internacionais da PUC-Rio João Daniel segue a mesma linha de raciocínio de Lehmann e explica o frágil argumento do presidente russo para a guerra.

“Existe, sim, um grupo neofascista forte na Ucrânia, não é uma mentira absoluta do Putin. Porém, isso é uma hipocrisia porque também existe na Rússia. [...] Dizer que há fascismo ou nazismo na Ucrânia é não olhar para o próprio umbigo.”

Lehmann afirma que é difícil cravar o grau de força que grupos neofascistas têm tanto na Rússia como na Ucrânia. O professor da USP ressalta o importante papel da imprensa na construção das histórias para atingir de maneira negativa a reputação dos seguidores de Putin ou Zelenski.

“O grau de força que os neonazistas têm em ambos os países é muito discutido. O que está público nesse sentido, que temos de informação neste momento, é pouco confiável, a meu ver. Depende de quem está lendo o quê e de quem quer acreditar em qual fonte.”

Euromaidan e o distanciamento entre os dois países

Milhões protestaram em manifestações que ficaram conhecidas como Euromaidan

Milhões protestaram em manifestações que ficaram conhecidas como Euromaidan

Mehdi Chebil/Hans Lucas via Reuters Connect - 6.12.2013

Entre os anos 2013 e 2014, a Ucrânia passou por uma série de protestos de cunho político chamados de Euromaidan ou Primavera Ucraniana. Os manifestantes nas ruas pediam a saída do presidente Viktor Yanukóvytch, que tinha ligações estreitas com o governo de Putin.

Os confrontos entre forças de segurança pública e manifestantes eram comuns, o que trouxe de volta à luz grupos neofascistas dispostos a ficar na linha de frente dos protestos para lutar, literalmente, contra os policiais ucranianos.

Para o historiador João Daniel, os indivíduos que confrontavam as forças de segurança gostavam da violência, andavam armados e tinham um histórico em brigas entre torcidas organizadas.

“Uma parte significativa desse pessoal é neonazista. E eles ganharam muita moral, muito prestígio. O pessoal do Dynamo Kiev, que é um time de futebol, ganhou muita popularidade. A partir daí, esses grupos começaram a ganhar força, começaram a se armar, começaram a ganhar popularidade. Viraram, inclusive, batalhões paramilitarizados.”

A ação desses grupos com características neofascistas inspirou o deputado federal Daniel Silveira, acusado em 2021 pelo STF (Supremo Tribunal Federal) de atos antidemocráticos. O parlamentar usou sua extinta conta no Twitter para dizer que era necessário “ucranizar” o Brasil, em alusão aos movimentos políticos que sucederam ao Euromaidan.

Nos anos seguintes, figuras relevantes da história da União Soviética, como Lenin, tiveram estátuas e outros símbolos atacados por grupos neofascistas ucranianos.

Após a queda de Yanukóvytch, em 2014, Petro Poroshenko foi eleito presidente pelo povo ucraniano e teve um governo que se afastou ao máximo da Rússia e de símbolos ligados à União Soviética ou ao comunismo.

Neonazistas lutam pelos russos e ucranianos?

Batalhão de Azov é considerado grupo terrorista pelos Estados Unidos

Batalhão de Azov é considerado grupo terrorista pelos Estados Unidos

Sergey Bobok/AFP - 11.3.2022

Os protestos populares que forçaram a queda de Yanukóvytch e o afastamento político da Rússia e da Ucrânia também iniciaram um processo de distanciamento entre russos e ucranianos. Apesar de vizinhos e de dividirem boa parte de sua história, células de ódio nos dois países começaram a se formar.

Na Ucrânia, neofascistas criaram o conhecido Batalhão de Azov — grupo paramilitar que atua, em sua maioria, nos territórios separatistas de Donestk e Lugansk, próximo à fronteira com a Rússia. Esse núcleo extremista, inclusive, possui um partido político, chamado Corpo Nacional.

Entretanto, essas figuras neofascistas e neonazistas não se encontram só do lado ucraniano, mas também do lado russo. O professor da PUC-Rio alerta para o símbolo Z, um dos símbolos da invasão russa da Ucrânia e que identificam veículos, aeronaves e equipamentos do Exército da Rússia.

“Não há mentira, mas as coisas não são claras. Putin usa isso como propaganda ideológica para invadir [a Ucrânia] sem olhar que na Rússia, hoje em dia, as pessoas que usam o Z também são fascistas, defendem o fascismo.”

O professor Lehmann ressalta ainda a gravidade da presença de grupos extremistas na Europa. Entretanto, não acredita que a existência de neofascistas em um país justificaria sua invasão.

“Temos neonazistas lutando na Ucrânia contra a Rússia? Temos. Sem a menor dúvida. Temos neofascistas russos lutando contra a Ucrânia? Sem dúvida, temos. Então não vejo isso como uma excepcionalidade. Evidentemente preocupante, como a existência de grupos neonazistas em qualquer país é muito preocupante e deve ser enfrentado. Isso em nenhuma circunstância, hipótese, justifica uma invasão”, conclui Lehmann.

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