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Reduto de ricos e paraíso fiscal, Bélgica é terreno perfeito para o terrorismo, diz especialista

Autoridades e polícia continuavam, à noite, na busca de suspeitos de atentados em Bruxelas

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Respostas sobre ação terrorista ainda não foram encontradas
Respostas sobre ação terrorista ainda não foram encontradas

Após os atentados desta terça-feira (22) em Bruxelas, a população local, enquanto se consumia em momentos de terror, também se perguntava por que um país que já foi o centro de glamour na Europa se transformou em um núcleo de terrorismo. E, em vez de espalhar a culinária, o futebol e a diversidade, tem se caracterizado também por proliferar o terrorismo no continente.

As autoridades e a polícia belgas continuavam, à noite, na busca de suspeitos de terem participado da série de ataques ocorridos pela manhã, que deixaram pelo menos 34 mortos, segundo a imprensa local. O suspeito que se vestia com cores claras, visto em imagens no aeroporto, também tinha paradeiro desconhecido. Um luto oficial de três dias foi decretado pelo governo do primeiro-ministro Charles Michel.


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As respostas sobre como os terroristas agiram ainda não haviam sido encontradas. Mas um dos maiores especialistas em políticas públicas e governança no mundo, Yann Duzert, professor da USC (Universidade do Sul da Califórnia) e da FGV (Fundação Getúlio Vargas), tinha explicações sobre por que eles agiram. E as expôs ao R7.


— Uma das razões é que existe uma solidariedade comunitária forte (no bairro de Molenbeek), uma espécie de máfia que se protege e fica difícil de se encontrar membros dessas células. A segunda razão é que a Bélgica é uma república que reduz muitos impostos. Tornou-se um tipo de paraíso fiscal, uma espécie de Mônaco, onde o neoliberalismo dita suas regras e o Estado ficou enfraquecido, tanto pelo poder das polícias como do próprio governo. Há zonas sem Direito nessa república e, sem generalizar, dentro dessas zonas há uma comunidade que vive como se fosse uma comunidade mafiosa.

Duzert observou que o país se tornou um palco natural para que este tipo de crime se desenvolva. Daí as razões de um bairro pobre de Bruxelas se transformar em um caldeirão de fúria e frieza que assusta o mundo. As soluções militares, segundo ele, podem ser utilizadas de maneira pontual, mas não resolvem se não forem acompanhadas de soluções mais consistentes.


Ele cita como exemplo o caso do terrorista Salah Abdeslam, capturado pelas autoridades belgas na última sexta-feira (18) sob a acusação de ter sido um dos mentores dos atentados de novembro último em Paris, que deixaram 130 mortos. Duzert conta que o pai de Abdeslam era motorista de ônibus e não tinha condições de pagar por uma educação de qualidade para o filho, criado em um ambiente de exclusão que contribuiu para que aderisse ao EI (Estado Islâmico).

— O caso da Bélgica vale também para o mundo todo. Temos de repensar o capitalismo moderno. O Estado que não quer usar mais impostos, como na Bélgica, acaba fazendo os ricos ficarem muito ricos e o ensino público, a saúde e os valores republicanos ficarem fracos. A Bélgica, assim, é um terreno perfeito para ter essa miséria moral e esse terrorismo repugnante. 


Tráfico e identidade

Outra questão que explica a atração desses grupos, muitos ligados ao EI, pela Bélgica é o fato dela ser vizinha da Holanda, um país onde o comércio de várias drogas é legalizado, conforme lembrou o especialista. 

— Muitos marroquinos usaram a Holanda e o Marrocos para criar plataformas de importação de drogas para a França e Alemanha. Isso proliferou o número de pequenos traficantes na região. Aquele que foi preso (Abdeslam) era um deste tipo, um pequeno delinquente vendedor de maconha. Esse tipo de extremismo é formado por pequenos negociantes de drogas que não conseguiram entrar no grande banditismo e viram heroísmo em ações terroristas do islamismo revolucionário e radical.

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E pelo fato de o islamismo predominar no Marrocos, o aumento da quantidade de marroquinos na Bélgica fez o número de seguidores muçulmanos aumentar no país. Inclusive porque, diferentemente da França, a Bélgica permite que rituais e vestimentas, como a burca, sejam utilizados em público. 

— É necessária uma ampla abertura ao diálogo. E perguntar: como você se sente como belga e como os belgas fazem você se sentir se não consideram você belga, por ter origem marroquina? Qual é sua identidade? Reconhecer a diversidade é fundamental. 

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Por outro lado, segundo Duzert, o islamismo precisa ser interpretado de uma maneira compatível com valores democráticos no século 21.

— Bill Clinton (ex-presidente americano) me falou um dia que todos os conflitos que ele enfrentou na vida começaram e acabaram no problema da identidade. É preciso entender a identidade e valorizar um islã que permite que mulheres sejam tratadas por médicos homens, que elas possam nadar em piscinas públicas, que opções de sexualidade sejam aceitas, assim como a comida e os hábitos do outro. Essa capacidade moderna é "Newgotiation", em lugar da negação do outro na velha negociação. Lidar com isso é o desafio da Bélgica, do Brasil e do mundo. 

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