Internacional Repressão policial causou massacre em protestos na Colômbia

Repressão policial causou massacre em protestos na Colômbia

Segundo relatório divulgado nesta 2ª (13), conduta dos agentes resultou em violência que deixou ao menos 14 mortos em Bogotá

AFP
Colombianos protestaram contra a violência policial em setembro de 2020

Colombianos protestaram contra a violência policial em setembro de 2020

Carlos Ortega/ EFE/ 10.09.2020

A polícia colombiana reprimiu com "violência desproporcional" jovens pobres que protestavam em Bogotá em setembro de 2020 e acabou provocando um "massacre" que resultou em 14 mortos, segundo um relatório independente entregue nesta segunda-feira (13) à prefeita da capital, Claudia López.

Em 9 e 10 de setembro, multidões armadas com paus, pedras e bombas incendiárias dirigiram-se aos postos comunitários da polícia em Bogotá e no município vizinho de Soacha, após o assassinato de Javier Ordóñez, de 43 anos, pelas mãos de dois militares que o submeteram a um violento castigo gravado por celulares.

"A polícia nacional agiu com violência desproporcional contra os jovens que protestavam em setores populares (...) Ou seja, os policiais atacaram as pessoas mais pobres desta cidade, acreditando que por isso podiam matar, ferir e que fazê-lo não teria nenhuma consequência", disse Carlos Negret, ex-defensor do povo e relator da investigação financiada e apoiada "metodologicamente" pelas Nações Unidas.

Ordóñez foi executado em uma sede da polícia e um dos assassinos foi condenado a 20 anos de prisão.

"Noites de terror"

Durante as "noites de terror" que se seguiram à sua morte, a polícia "reagiu de forma desproporcional, ilegal e afastada do princípio de humanidade" e "sua atuação causou um massacre", disse Negret, emocionado durante a exposição do relatório.

Catorze pessoas morreram de forma violenta, onze das quais, entre elas Ordóñez, morreram pelo "uso ilícito da força" de policiais.

Outros 300 civis e 216 policiais também ficaram feridos, e 76 postos policiais foram destruídos. Os investigadores também encontraram evidências de "violência" contra os agentes.

O perfil dos mortos deixou evidente a "criminalização da pobreza de parte da força pública", disse Negret: nenhum tinha formação profissional, eram trabalhadores informais com renda inferior a um salário mínimo (13 casos) e tinham entre 17 e 27 anos (10).

O relatório é "doloroso até a alma, mas necessário para salvaguardar e recompor a nossa democracia", disse, com lágrimas nos olhos, a prefeita de Bogotá durante a apresentação.

Ela clamou por "justiça", pediu perdão "por não ter podido evitar que semelhante tragédia ocorresse" e reivindicou que o presidente Iván Duque atenda às recomendações do relatório e reconheça que houve um "massacre cometido por membros da polícia".

Negret concluiu, ainda, que a "subordinação da polícia às autoridades civis é uma ficção constitucional", pois não obedecem nem a prefeitos, nem a governadores.

Nos últimos três anos, a Colômbia enfrentou protestos maciços inéditos, a maioria convocada contra as polícias. A ONU, governos e ONGs internacionais denunciaram os abusos policiais durante a prolongada convulsão social.

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