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Sexo, morte e traição: filme norte-coreano mostra coisas que o público nunca viu antes

Aprovada pelo Estado, produção rompe tabus cinematográficos de longa data no país

Internacional|Will Ripley, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Filme norte-coreano "Dias e Noites de Confronto" traz cenas de violência e traição, desafiando tabus históricos.
  • Exibido pela primeira vez na televisão estatal, o filme alcançou um público amplo, rompendo com normas cinematográficas tradicionais.
  • A trama envolve um plano de assassinato contra o líder Kim Jong Il, utilizando elementos de thriller moderno e consequências severas para a traição.
  • A produção reflete mudanças na indústria cinematográfica da Coreia do Norte, buscando atrair a atenção de uma audiência mais jovem, sem alterar a ideologia do regime.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Filme 'Dias e Noites' rompe tabus do cinema na Coreia do Norte Ed Jones/AFP/Getty Images via CNN Internacional-

Um filme norte-coreano está cativando o público com cenas e enredos nunca antes vistos em uma produção aprovada pelo Estado.

Em "Dias e Noites de Confronto", um homem é asfixiado com um saco plástico. Uma personagem particularmente azarada é esfaqueada pelo próprio marido, depois fica ferida ao ser atropelada por um carro e, por fim, é assassinada. Um colete suicida aparece em cena, com os fios expostos. Há um caso extraconjugal e até breves cenas de nudez parcial.


Depois de atrair multidões aos cinemas da Coreia do Norte no ano passado, "Dias e Noites" alcançou um público muito maior neste mês, quando foi exibido pela primeira vez na televisão estatal — sinalizando a aprovação oficial de um filme que rompe tabus cinematográficos de longa data na indústria de entretenimento rigidamente controlada do país.

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A identidade do estúdio produtor — o Estúdio Cinematográfico 25 de Abril, responsável pelos filmes ideologicamente mais importantes da Coreia do Norte — torna ainda mais notável a adoção de violência gráfica e de uma narrativa no estilo thriller.


“Um personagem sendo sufocado com um saco plástico… Isso é algo que eu certamente nunca tinha visto em um filme da RPDC”, disse Justin Martell, cineasta americano que participou do Festival Internacional de Cinema de Pyongyang no ano passado, usando a sigla oficial do país.

O conteúdo sexual — embora moderado pelos padrões globais — também é surpreendentemente explícito para a conservadora Coreia do Norte.


“E também houve alguma nudez parcial, algo que eu definitivamente nunca tinha visto em um filme da RPDC”, acrescentou.

Filmes norte-coreanos costumam ser assistidos coletivamente. O público se reúne em cinemas lotados ou em sessões organizadas nos locais de trabalho, em salões culturais, onde as reações são visíveis e compartilhadas.


Risadas, suspiros e aplausos não são incomuns, segundo desertores e visitantes estrangeiros que participaram dessas exibições. Nesse contexto, um filme feito para chocar ganha ainda mais impacto.

A história se passa em meados dos anos 2000 e gira em torno da traição, tanto pessoal quanto política, culminando em um plano para assassinar o então líder norte-coreano Kim Jong Il — pai do atual líder, Kim Jong-un — explodindo seu trem.

Devido ao controle rígido da sociedade norte-coreana, é impossível obter relatos independentes de espectadores comuns. Ainda assim, nada disso teria passado pelos padrões de censura nem mesmo há uma década.

Mesmo assim, "Dias e Noites" foi promovido como uma produção de prestígio e recebeu prêmios de Melhor Ator e Melhores Efeitos Sonoros no festival de cinema de Pyongyang.

O filme é provocativo, mas não subversivo. Ele se encaixa perfeitamente no rígido universo moral do regime: a traição leva à ruína; a lealdade ao Estado é o único refúgio seguro. O que há de novo é a forma de apresentação.

Os valores de produção são mais altos, o ritmo é mais rápido e o estilo é claramente moderno. O filme adota a linguagem visual de thrillers de Hollywood de maneiras que o cinema norte-coreano evitou por muito tempo.

Essa mudança pode refletir uma percepção, dentro do governo de Kim Jong-un, sobre quem seu público está se tornando — e o que agora é necessário para prender a atenção dos mais jovens.

Mudança na indústria cinematográfica norte-coreana

Martell afirmou que a indústria cinematográfica e televisiva doméstica da Coreia do Norte mudou pouco ao longo de décadas.

“A produção interna de filmes e programas de TV em grande parte se baseou em enredos familiares e abordagens tradicionais”, explicou.

Segundo ele, a indústria enfrentou uma aparente estagnação nos últimos 20 anos, período em que predominou a produção de material modesto e de baixo orçamento, em vez de grandes longas-metragens.

“Nos últimos anos, o governo se envolveu muito mais e investiu bastante dinheiro nessas novas produções”, disse Martell.

O enredo de "Dias e Noites" ecoa de perto uma explosão real ocorrida em 2004 na estação ferroviária de Ryongchon, perto da fronteira com a China. Na época, as autoridades norte-coreanas descreveram o episódio como um acidente.

Fora do país, espalhou-se a especulação de que poderia ter sido uma tentativa de assassinato. Dentro da Coreia do Norte, o assunto permaneceu em grande parte sem discussão pública.

“Até onde sei, o governo nunca reconheceu o desastre de Ryongchon como algo além de um acidente”, disse Martell.

“Todo mundo sempre soube disso como um rumor. Então ver isso transformado em um enredo oficial de um filme norte-coreano é extremamente interessante — e definitivamente algo inédito.”

No ato final, o plano de assassinato fracassa. Os conspiradores falham, e o personagem principal é preso — reforçando a lição central do filme de que a traição ao Estado sempre é punida.

História dos filmes norte-coreanos

Dos anos 1960 aos anos 1980, os filmes norte-coreanos tendiam a se encaixar em três categorias: épicos de guerra revolucionária, melodramas sobre pureza ideológica e alegorias históricas que glorificavam a família Kim.

Um dos filmes mais famosos do país, "A Florista", conta a história de uma camponesa brutalizada durante o domínio colonial japonês. Seu sofrimento é extremo, mas em grande parte simbólico.

A violência é sugerida, não mostrada, e o excesso emocional substitui a brutalidade física. A salvação chega não pelo suspense ou pelo choque, mas pelo despertar revolucionário.

Mesmo quando os filmes retratavam inimigos, eles geralmente eram externos e simplificados. Em épicos da Guerra da Coreia como "Ilha Wolmi", os vilões são estrangeiros e evidentes, enquanto os personagens norte-coreanos permanecem ideologicamente puros.

Produções posteriores passaram a experimentar com cautela cenários domésticos. "O Diário da Estudante", lançado em 2006, focava em tensões familiares e expectativas sociais, mas seus conflitos eram resolvidos por correção moral, não por destruição. Personagens que se desviavam eram reconduzidos ao caminho correto, não eliminados violentamente.

Em contraste, "Dias e Noites" coloca a traição no centro da narrativa e se recusa a suavizar suas consequências. O vilão não é um invasor estrangeiro ou um inimigo de classe caricatural, mas alguém de dentro — um promotor, um marido, um cidadão inserido na sociedade.

O filme adota a estrutura dos thrillers modernos: um protagonista moralmente comprometido, riscos pessoais crescentes, sequências de ação dinâmicas e um desfecho implacável.

O Estúdio Cinematográfico 25 de Abril foi fundado nos anos seguintes à Guerra da Coreia e por muito tempo se especializou em épicos nacionalistas e dramas revolucionários. Durante décadas, sua produção seguiu uma fórmula rígida, mesmo com a evolução do cinema mundial ao redor.

Cultura e o governo Kim Jong-un

Isso começou a mudar sob Kim Jong-un, cujo governo pressionou instituições culturais a modernizar a apresentação sem alterar a ideologia. A mídia estatal elogiou "Dias e Noites" por atrair o público com “tensão e emoção”.

“Cineastas com quem falei atribuíram diretamente esse renascimento a Kim Jong-un, assim como seu pai, Kim Jong Il, havia investido dinheiro, recursos e orientação pessoal na indústria cinematográfica do país”, disse Martell.

A Coreia do Norte sempre levou o cinema a sério — talvez mais do que qualquer outro Estado autoritário.

O líder da segunda geração, Kim Jong Il, não apenas supervisionava a indústria cinematográfica; ele a dirigia pessoalmente como chefe do setor de artes do Departamento de Propaganda e Agitação.

Ele se envolvia em roteiros, edição e decisões de elenco e, segundo relatos, mantinha uma biblioteca particular com mais de 15 mil filmes, incluindo produções de Hollywood proibidas para exibição pública.

Sequestros

Frustrado com os limites do cinema nacional, Kim recorreu a uma tática extrema e conhecida de sua era: o sequestro.

Em 1978, a atriz sul-coreana Choi Eun-hee foi sequestrada em Hong Kong e levada a Pyongyang. Meses depois, seu ex-marido, o aclamado diretor Shin Sang-ok (também conhecido como Sheen Sang Ok), foi sequestrado em uma operação semelhante.

Após tentativas fracassadas de fuga e prisão, os dois foram reunidos e obrigados a se casar novamente e a produzir filmes para o Estado.

Eles acabariam produzindo 17 filmes para a Coreia do Norte. Entre os mais notáveis está "Pulgasari" (1985), um épico de monstros vagamente inspirado em "Godzilla", supervisionado pessoalmente por Kim Jong Il como uma alegoria revolucionária.

Promovido internamente como uma história de revolta camponesa, o filme mais tarde se tornou uma curiosidade cult no exterior, muitas vezes ridicularizado pelos efeitos especiais, mas reconhecido como uma das produções tecnicamente mais ambiciosas do país.

Shin também dirigiu "Sal" (1985), um drama duro ambientado no período colonial, estrelado por Choi, que enfatizava o sofrimento pessoal em vez do espetáculo e lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival Internacional de Cinema de Moscou — um raro reconhecimento internacional para o cinema norte-coreano.

O que Kim Jong Il não previu foi que Shin e Choi estavam gravando secretamente suas conversas com ele. As fitas, posteriormente contrabandeadas para fora do país, capturaram críticas surpreendentemente francas de Kim aos próprios filmes.

“As pessoas nem querem nada novo”, disse ele em uma das gravações.

“Por que insistem em filmar apenas pessoas chorando em todas as cenas, como se tivesse havido uma morte na família?”, reclamou.

Os cineastas conseguiram escapar durante uma viagem autorizada à Europa em 1986 e acabaram se estabelecendo nos Estados Unidos. Décadas depois, as gravações se tornariam a base do documentário "Os Amantes e o Déspota" (2016).

Kim Jong Il compreendia uma verdade que ainda molda a propaganda norte-coreana hoje: ela só funciona se as pessoas assistirem.

Como é a Coreia do Norte hoje?

Na Coreia do Norte atual, os smartphones estão se tornando mais comuns. Aplicativos aprovados pelo Estado oferecem música, jogos, livros e vídeos. Um serviço interno de streaming imita plataformas globais, enquanto censura rigidamente o conteúdo.

Ao mesmo tempo, dramas sul-coreanos, música pop e filmes ilegais continuam circulando em pen drives e cartões de memória, oferecendo aos jovens norte-coreanos uma visão concorrente da vida moderna.

As punições pelo consumo desse material tornaram-se mais severas. Adolescentes já foram condenados publicamente a longos períodos de trabalhos forçados por assistir ou distribuir mídia sul-coreana. Uma lei de 2020 formalizou penalidades duras para o consumo cultural considerado desleal.

Mas a repressão, por si só, já não é suficiente. Também é preciso conquistar a atenção. "Dias e Noites" faz parte desse esforço — mais rápido, mais sombrio e mais visceral do que os filmes de propaganda anteriores, vestido com a linguagem do entretenimento moderno, mas transmitindo uma mensagem antiga e familiar: conspirar contra o líder termina em desastre.

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