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Silêncio, o outro legado do genocídio ruandês

Internacional|Do R7

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Desirée García. Kigali, 7 abr (EFE).- Quem derrubou o avião do presidente ruandês Juvénal Habyarimana e desencadeou o genocídio que agora completa 21 anos? Responder de forma errônea a esta pergunta em Ruanda pode acarretar ameaças, prisão e inclusive a morte. A negação do genocídio de 1994 é um dos delitos mais graves que se pode cometer em Ruanda e castiga os que asseguram que os fatos não ocorreram segundo o relato oficial: cerca de 800 mil tutsis e hutus moderados foram assassinados em 100 dias por hutus extremistas. Os genocidas são considerados também responsáveis pelo assassinato do hutu Habyarimana, com a intenção de evitar sua aproximação à Frente Patriótica Ruandesa (RPF, em inglês), dominada por tutsis, e para encontrar uma justificativa ao extermínio. Mas a aeronave, cujos destroços "enfeitam" ainda hoje os jardins da residência presidencial que é ocupada pelo tutsi Paul Kagame há 15 anos, foi derrubada em circunstâncias que constituem um dos maiores mistérios da história africana recente. Além das medidas penais que castigam a negação do genocídio, sua consequência cotidiana é o silêncio: os ruandeses não ousam pronunciar em público as palavras "tutsi" ou "hutu" e as autoridades evitam entrevistas incômodas. E o silêncio foi imposto também aos meios de comunicação que questionam o discurso predominante. "O documentário da 'BBC' fez as coisas ficarem muito difíceis", comentou à Agência Efe um profissional dos meios de comunicação, após detalhar a lista de permissões necessárias para chegar a fontes oficiais. Apenas meses depois de Ruanda exibir perante o mundo as conquistas da reconciliação no 20° aniversário do genocídio, um documentário da televisão britânica colocava em questão a versão oficial. O documentário revisava a história de um país que incitou a admiração global pela gestão da tragédia: a RPF - que tinha Kagame entre seus líderes - teria ordenado a morte de Habyarimana e teria cometido graves abusos contra os hutus. Imediatamente, o governo ruandês cancelou o serviço da "BBC" em kinyarwanda, a língua vernácula, e com isso silenciou "a possível voz mais independente" do país, relatou à Efe o diretor para a África do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), Tom Rhodes. O fechamento foi denunciado pelo próprio Conselho de Meios Ruandeses, mas isso não fez a comissão que investiga as implicações legais do documentário recuar, acusando a "BBC" de incitar o "ódio" ao negar o genocídio. De fato, o governo ruandês não só estuda iniciar ações penais contra a emissora britânica, mas introduzir o controle estatal sobre os meios visando às eleições de 2017 e aa referendo que poderia ser convocado antes para votar na continuidade de Kagame. "Muitos jornalistas acham que o documentário está sendo utilizado para justificar a censura prévia antes das eleições", apontou Rhodes. Enquanto a maioria de jornalistas ruandeses critica um documentário que considera "ofensivo", poucos reconhecem as dificuldades que encontram para trabalhar. "As autoridades ignoram os pedidos de informação. Também é difícil informar sobre coisas que afetam gente que não tem poder porque podem ser detidos", explicou à Efe Emma-Claudie Ntirenganya, membro do Conselho de Meios de Ruanda. Ou ainda pior. Ingabire, um jornalista ruandês fundador do crítico portal "Inyenyeri News", foi baleado em dezembro de 2011 em um bar do subúrbio de Campala, onde havia se exilado. Em Kigali, os cidadãos não dizem nada na frente de uma câmera; os ativistas descrevem um país idílico sem um só caso de violência machista no país; os guias dos memoriais do genocídio reconhecem que não podem falar com jornalistas. "Ruanda não é assim", assegurou uma assessora parlamentar, surpresa com o veto de entrada a vários jornalistas que marcaram uma entrevista com deputadas sobre políticas de gênero, que depois pediu à Efe que redija uma carta a mais - a terceira - detalhando o objetivo de sua reportagem. EFE dgp/ff/rsd

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