Talibãs atacam uma das províncias mais seguras do Afeganistão

O ataque na província de Panjshir é simbólico porque é o berço do guerrilheiro afegão Ahmad Shah Massoud, líder da luta contra os talibãs 

Zalmay Khalilzad da delegação dos EUA e o líder talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar

Zalmay Khalilzad da delegação dos EUA e o líder talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar

Ibraheem al Omari/ Reuters/ 08.09.2020

Os talibãs atacaram nesta terça-feira (8) a província de Panjshir, uma das mais seguras do Afeganistão e símbolo da resistência contra os rebeldes, em meio à expectativa de que as negociações de paz entre as partes afegãs comecem em breve.

Segundo o governador provincial, Mansour Unabi, o ataque começou nesta manhã no distrito de Abshar, mas, "após os esforços das forças de segurança e dos cidadãos locais, o inimigo fugiu, sofrendo baixas importantes".

Unabi disse que o contra-ataque continua e negou que os talibãs tenham feito reféns ou causado baixas entre as forças governamentais.

O principal porta-voz rebelde, Zabihullah Mujahid, afirmou no Twitter que o ataque resultou na "invasão de todos os postos de controle inimigos" na área de Ghulghulah, no distrito de Abshar.

Os talibãs também relataram "múltiplos pistoleiros feridos ou mortos e sete detidos", reconhecendo ao mesmo tempo um ferido entre as forças do grupo.

Simbolismo do ataque

Este último ataque dos talibãs vem carregado de várias camadas simbólicas, tanto por causa da província e do dia escolhido, como devido ao clima de expectativa no Afeganistão para o possível início das negociações de paz.

Panjshir é o berço do guerrilheiro afegão e líder da luta contra os talibãs Ahmad Shah Massoud, elevado ao altar dos heróis afegãos pelo governo de Cabul, além de estar próxima da capital do país asiático e de ser uma das províncias mais seguras.

O Afeganistão recorda, precisamente nesta terça-feira, o 19º aniversário da morte do "Leão de Panjshir" por dois supostos jornalistas de origem árabe que detonaram um explosivo escondido em uma câmera falsa, atentado que foi relacionado à Al Qaeda.

Políticos e integranes do governo marcaram a morte em evento com honras militares em Cabul, onde o presidente do Alto Conselho de Reconciliação Nacional do governo, Abdullah Abdullah, enviou uma mensagem conciliatória aos talibãs.

"A solução para resolver as diferenças no país não é nem guerra nem conflito, por isso queremos fechar a página da inimizade com os talibãs", disse Abdullah, que lutou nas fileiras de Massoud, de acordo com uma declaração do seu gabinete.

O negociador principal acrescentou, no mesmo tom moderado, que as partes podem ter "opiniões diferentes e, em muitas questões, essas diferenças atingem pontos sensíveis, mas ter opiniões diferentes não significa inimizade".

Embora pareça que o início definitivo das negociações de paz esteja próximo, com ambos os lados prontos para se sentarem à mesa no Catar, os talibãs deixaram claro que uma questão ainda está pendente: a controversa libertação dos prisioneiros rebeldes.

O governo afegão libertou a maioria dos últimos 400 insurgentes da lista acordada de 5.000 na semana passada, segundo o acordo entre Washington e os talibãs assinado em fevereiro, em Doha, mas alguns ainda estão devido a pressões diplomáticas.