Técnica de ‘respiração intestinal’ avança após testes inéditos
Método usa líquido enriquecido com gás para abastecer o sangue, mas eficácia em humanos ainda precisa ser comprovada
Internacional|Do R7
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A busca por alternativas menos invasivas aos ventiladores levou o médico e biólogo Takanori Takebe, do Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, nos Estados Unidos, e da Universidade de Osaka, no Japão, a investigar uma ideia improvável: a possibilidade de pessoas absorverem oxigênio pelo intestino.
A curiosidade surgiu quando o pai do pesquisador desenvolveu pneumonia e precisou ser intubado, procedimento que o deixou impressionado pela agressividade e pelos riscos envolvidos, especialmente em pacientes com função pulmonar comprometida.
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A inspiração ganhou forma após um estudante de pós-graduação levar ao laboratório um livro descrevendo como diferentes espécies conseguem respirar pela pele, pelos genitais ou até pelo sistema digestivo. Foi aí que Takebe começou a alimentar a hipótese de que o intestino humano, repleto de vasos sanguíneos, poderia também permitir a passagem de oxigênio para o corpo, assim como já ocorre com medicamentos administrados por enema.
A partir dessa ideia, a equipe criou um tratamento similar a um enema utilizando perfluorodecalina, um líquido já usado na medicina e capaz de carregar grandes quantidades de oxigênio. Ao ser introduzido pelo reto, o composto libera oxigênio na corrente sanguínea e absorve parte do dióxido de carbono “expelido”. Testes em 2021 mostraram que o método permitiu que camundongos e porcos sobrevivessem a condições de baixa oferta de oxigênio, elevando temporariamente os níveis sanguíneos dos animais. Em porcos, o efeito durou até cerca de 30 minutos.
O impacto visual desses testes marcou Takebe, que recorda a mudança na coloração do sangue dos porcos, de um tom escuro para um vermelho vivo, sinalizando maior oxigenação. A pesquisa acabou recebendo um Ig Nobel em 2024, prêmio concedido a estudos que primeiro despertam risos e depois reflexão. Na cerimônia, Takebe brincou, agradecendo a confiança “no potencial do ânus”.
O passo seguinte foi avaliar a segurança do método em humanos. Vinte e sete voluntários saudáveis no Japão receberam doses de perfluorodecalina sem oxigênio, entre 25 mililitros e 1,5 litro, e permaneceram com o líquido no intestino por uma hora. Embora quatro dos seis homens do grupo de maior volume tenham interrompido o procedimento por dor abdominal, participantes que receberam até 1 litro relataram apenas desconforto leve e inchaço, segundo estudo.
Apesar dos avanços, cientistas divergem sobre o potencial prático da técnica. O pesquisador John Laffey, da Universidade de Galway, é cético e defende que o foco deve permanecer nas terapias tradicionais voltadas ao pulmão, órgão naturalmente projetado para trocar gases. Ele argumenta que a quantidade de oxigênio necessária para manter uma pessoa viva exigiria constantes administrações do líquido, o que tornaria o método pouco viável.
Outros especialistas, porém, veem aplicações pontuais. Kevin Gibbs, médico de cuidados críticos na Wake Forest University, acredita que o procedimento poderia ajudar em momentos de extrema urgência, como durante a intubação de pacientes com níveis perigosamente baixos de oxigênio. Uma dose do líquido carregado poderia fornecer uma “janela de segurança” de alguns minutos, suficiente para concluir intervenções críticas.
Takebe, por sua vez, imagina o uso da técnica como complemento a outras formas de suporte respiratório ou em situações emergenciais, como transferências entre hospitais e atendimentos em ambulâncias. Para isso se tornar realidade, ainda serão necessários anos de testes clínicos e comprovação de eficácia. Enquanto isso, o pai do pesquisador, que inspirou toda a investigação, acompanha o avanço com entusiasmo e bom humor, chegando a se oferecer como voluntário, proposta recusada por evidente conflito de interesse.
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