Trump assume governo com dificuldades para cumprir promessas de campanha
Empregos e gastos públicos, imigração, política externa e terrorismo são áreas desafiadoras
Internacional|Ana Luísa Vieira Zucchi, do R7

Depois de uma campanha marcada por polêmicas e uma vitória inesperada contra a democrata Hillary Clinton, o empresário do ramo imobiliário Donald Trump assume a presidência dos Estados Unidos nesta sexta-feira (20). Para o futuro do país, o cenário é incerto, já que o novo presidente deve encontrar dificuldades consideráveis para cumprir muitas das promessas populistas que o levaram à eleição.
Segundo especialistas ouvidos pelo R7, Trump deve encontrar obstáculos para tornar realidade muito daquilo que prometeu em relação a temas como geração de empregos, segregação racial, imigrantes, política externa e terrorismo. Por outro lado, ele chega ao cargo mais importante da política internacional com a casa relativamente em ordem no setor econômico. É o que afirma Geraldo Zahran, professor do curso de Relações Internacionais da PUC-SP.
— Ele assume o país em uma situação muito melhor do que o Obama assumiu oito anos atrás. A economia americana se encontra numa situação confortável, com o país criando empregos há vários meses consecutivos e o poder de compra dos trabalhadores aumentando.
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Empregos e gastos públicos
Em relação à geração de empregos, Trump sugere que os impostos no país sejam reduzidos para que as empresas cresçam e contratem mais. Oswaldo Dehon, professor do curso de Relações Internacionais do Ibmec-MG, explica que, para tanto, o presidente eleito teria de apresentar um pacote de incentivos para as companhias. A consequência seria o aumento dos gastos públicos.
— Isso foge daquilo que o próprio Trump andou discutindo em campanha. As empresas não vão, a partir de movimentos nacionalistas, tomar decisões econômicas que andem contra os seus interesses de longo prazo. Elas vão precisar de incentivos.
Fora isso, o empresário se mostra favorável à retomada do emprego industrial — o que, conforme explica Geraldo Zahran, vai na contramão do que vem acontecendo no restante do mundo, com a automação (robôs e máquinas automáticas) ganhando cada vez mais espaço.
Segregação racial e imigração
Trump é conhecido pelo discurso pouco favorável às minorias. Em entrevistas e pronunciamentos públicos, ele já insinuou que o presidente Barack Obama teria nascido no Quênia e estudado em faculdades de elite só por causa da política de cotas. Além disso, ele chamou imigrantes mexicanos de ''criminosos, traficantes e estupradores" e defendeu que os muçulmanos fossem proibidos de entrar nos Estados Unidos. Fora isso, recebeu o polêmico apoio da Ku Klux Klan — grupo supremacista branco mais tradicional do país.
Para Geraldo Zahran, Trump assume em um momento especialmente delicado da história americana no que diz respeito à segregação racial.
— Nós vimos recentemente os assassinatos de jovens negros por policiais, a mobilização em torno disso e o surgimento do movimento Black Lives Matter. Esse tipo de problema vai continuar. Mas, na minha visão, a abordagem que ele propõe vai gerar mais problemas do que soluções.
Oswaldo Dehon, do Ibmec, concorda. E ainda completa que os imigrantes são historicamente importantes para os Estados Unidos — e medidas restritivas a eles poderiam representar dificuldades para os próprios americanos.
— Tirá-los de lá não é coisa simples de se fazer, e muitos estão enraizados nos negócios e mesmo nas atividades econômicas dos Estados Unidos. Além disso, o princípio da reciprocidade existe nas relações internacionais. Medidas restritivas aos imigrantes poderiam significar dificuldades para que os americanos circulem e também obtenham vistos de trabalho em outros lugares do mundo.
Terrorismo
Na cabeça do eleitor americano, o terrorismo é a grande ameaça à estabilidade dos Estados Unidos. Muitos dos que votaram em Trump acreditam que o presidente eleito tomará medidas mais radicais em relação à ameaça terrorista — centralizando boa parte das decisões no país, sem articulações com outros países do mundo. Entretanto, o especialista da Ibmec-MG acredita que, por conta das pressões do Pentágono — sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos —, é difícil que o posicionamento do país em relação ao terrorismo sofra alguma mudança significativa, pelo menos por ora.
— A apresentação de uma agenda muito específica de combate ao terror representaria o retorno ao modo de fazer política de George W. Bush — que resultou nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Uma nova guerra ao terror deveria significar o aumento da inteligência dos Estados Unidos com medidas mais articuladas — junto com parceiros na Europa e na Ásia. E não uma guerra mundial liderada pelos Estados Unidos.
Política externa
Para Lucas Leite, professor de Relações Internacionais nas Faculdades Integradas Rio Branco, ainda é muito difícil afirmar que caminhos tomará a política externa de Donald Trump.
— O Trump fala uma coisa, seu possível secretário de Estado fala outra, o secretário de Defesa diverge... Ainda é muito difícil apontar quais estratégias terá esse governo.
Uma coisa, entretanto, é certa: vai ser difícil passar por cima das políticas adotadas por Obama em seu mandato, a começar por Cuba.
— A posição inicial que nós podemos imaginar é de que o Trump vai retornar ao conservadorismo, ao status quo anterior ao desembargo americano em relação à ilha. Mas é muito difícil ignorar todo o progresso, todas as negociações que já foram feitas e acordadas e todo o interesse estratégico que os Estados Unidos pode ter em Cuba.
Em relação à China, Trump também já declarou que pretende jogar duro — especialmente no que diz respeito às relações comerciais. Colocar o discurso em prática, entretanto, não seria simples — e traria prejuízos incontáveis aos Estados Unidos, conforme explica o especialista das Faculdades Rio Branco.
— No momento atual, de dependência da economia americana em relação aos investimentos chineses, é simplesmente impossível que o governo americano se distancie da China — até pela posição estratégica que a China ocupa nos cenários financeiro, comercial e político. Ela é considerada um dos grandes credores da liquidez da economia internacional e faz parte dos grandes acordos que são e serão firmados em relação ao clima, ao comércio, etc. Então, é impossível esse afastamento completo.
Por fim, a aproximação polêmica de Trump com a Rússia — o presidente eleito já fez elogios a Vladimir Putin e sinalizou interesse em estreitar laços com Moscou — ainda é vista com ressalvas por boa parte dos especialistas em relações internacionais, conforme explica Natália Fingermann, professora de Relações Internacionais da Unisantos e pesquisadora do Neai (Núcleo de Estudos e Análses Internacionais da Unesp).
— Essa relação envolve a questão do dossiê que, supostamente, a Rússia possui contra o Trump. Se for verdade, os russos têm a possibilidade de colocar o presidente eleito em uma saia justa. Fora isso, essa aproximação me parece mais uma tentativa de enfraquecer a relação que a Rússia recentemente estabeleceu com a China. Isso desestabilizaria a relação dos EUA também com a Europa. No mais, acho que existe uma questão de identidade autoritária e pessoal do Trump com o Putin.
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