Violência no México levanta discussões sobre a segurança durante a Copa do Mundo
Governo mexicano implementará medidas de segurança para proteger turistas durante o evento
Internacional|Rocío Muñoz-Ledo, da CNN Internacional
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A Copa do Mundo será vivida sob a sombra da insegurança que atinge o México.
A menos de três meses de o país voltar a ser sede de uma Copa do Mundo, as dúvidas sobre sua capacidade para garantir a proteção de turistas e jogadores, presentes desde que foi anunciado como um dos países sedes do torneio, persistem após a onda de violência que se desencadeou em distintas regiões depois da queda de Nemesio Oseguera Cervantes, “El Mencho”, líder do Cártel Jalisco Nueva Generación.
As imagens de veículos incendiados, bloqueios de estradas e confrontos em cidades como Guadalajara — uma das sedes mundiais — e destinos turísticos como Puerto Vallarta acenderam os alertas entre os possíveis visitantes.
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Para muitos turistas estrangeiros, a cena reavivou uma preocupação persistente: é seguro viajar para o México?
Apesar do impacto mediático, os indicadores turísticos dos destinos mais populares não refletiram uma queda significativa durante a recente temporada de spring break, uma das mais importantes para o turismo internacional e que ocorreu apenas semanas depois da queda de “El Mencho” e em meio aos preparativos para a Copa do Mundo.
No entanto, a percepção de insegurança foi afetada. O Departamento de Estado dos Estados Unidos atualizou suas recomendações de viagem para esta temporada popular entre os turistas americanos.
O aviso recorda que, embora a violência generalizada vivida após a queda de “El Mencho” tenha diminuído, “persistem riscos de crime e sequestro”.
Além disso, nos dias que se seguiram à queda de “El Mencho”, o medo e a preocupação cresceram entre algumas federações internacionais de futebol que disputarão partidas no México.
Michael Ricketts, presidente da Federação de Futebol da Jamaica, reconheceu que sua equipe estava “muito consciente do que está acontecendo” e que existia “um nível de incerteza” após os fatos em Jalisco, segundo citou o meio esportivo ESPN.
Sua equipe enfrentará a Nova Caledônia na quinta-feira (26) de março em um jogo de repescagem rumo à Copa do Mundo que terá lugar no Estádio Akron de Guadalajara.
A federação boliviana solicitou à Fifa (Federação Internacional de Futebol) clareza sobre a segurança em Monterrey, onde sua equipe enfrentará o Suriname em um jogo de eliminatória rumo à Copa do Mundo.
Enquanto a seleção de Portugal assinalou que avaliaria continuamente sua participação no México, onde tem previsto um jogo amistoso no dia 28 de março no renovado estádio Azteca da Cidade do México.
Especialistas em segurança coincidem que este contraste — entre percepção e realidade — será fundamental rumo à Copa do Mundo.
Francisco Rivas, diretor do Observatorio Nacional Ciudadano, uma organização que monitora políticas públicas, incidência delituosa e justiça no México, assinala em entrevista à CNN Internacional que o risco para os turistas costuma ser muito menor do que se percebe.
“É muito raro que um turista no México seja vítima de um crime violento. Os incidentes mais comuns são roubos sem violência, fraudes ou, em alguns casos, extorsões”.
Nesse sentido, compara a experiência dos visitantes no México com a de outras grandes cidades do mundo: “As situações que um turista pode enfrentar aqui são semelhantes às de Londres, Miami, Milão ou Paris”.
Os especialistas também assinalam que é pouco provável que a violência afete as zonas onde estarão os turistas durante a Copa do Mundo.
Segundo Rivas, a violência dos grupos delituosos serve principalmente para controlar as pessoas que vivem em uma comunidade: “Controlar o turista não serve para absolutamente nada”, acrescenta.
Rodrigo Peña, especialista em segurança do Tecnológico de Monterrey, explica que os cartéis buscam manter controle a longo prazo sobre territórios, pessoas e mercados, e não agem como organizações terroristas.
“À governança criminal não preocupam momentos, preocupam processos muito mais longos e esse enfoque não está necessariamente olhando para as pessoas que possam pensar em não vir. A Copa do Mundo é sim um momento de atenção, mas não está operando na lógica, por exemplo, de um grupo terrorista”, diz o especialista.
Em outras palavras, embora o risco não desapareça, a forma como operam os grupos criminosos torna menos provável que a Copa do Mundo se torne um alvo direto de violência.
Embora o spring break sirva como termômetro parcial, os especialistas consideram que a verdadeira prova para os dispositivos de segurança será a série de partidas prévias à Copa do Mundo e os eventos massivos nas cidades-sede.
“Não é a mesma coisa proteger zonas turísticas que operar um dispositivo de segurança em estádios, praças públicas ou eventos multitudinários”, assinala Peña. “Aí é onde realmente será testada a capacidade do Estado”.
O desafio não é pequeno. O governo mexicano anunciou o chamado Operativo Kukulkán, que contempla o destacamento de mais de 100.000 elementos de segurança, incluindo forças federais, Guarda Nacional e Exército, bem como tecnologia avançada como sistemas antidrones e vigilância aérea.
Além disso, o plano inclui coordenação com agências de inteligência dos Estados Unidos, em meio a um contexto global marcado por novas ameaças.
Um antecedente recente poderia ser o operativo implantado em Querétaro durante o jogo amistoso em que a seleção mexicana enfrentou a Islândia. O encontro contou com um dispositivo de segurança de aproximadamente 3.000 elementos e se desenvolveu sem incidentes, segundo informou a Federação Mexicana de Futebol em um comunicado, no qual além disso agradeceu a coordenação entre os três níveis de governo.
Embora tenha sido um evento de menor escala diante do que implicará a Copa do Mundo, ofereceu um primeiro sinal sobre a capacidade das autoridades para implementar operativos em eventos massivos.
Além dos riscos específicos vinculados a crimes comuns, os especialistas em viagens destacam que a percepção de insegurança entre os turistas é um fator-chave.
Michael Johnson, presidente da Ensemble Travel, comentou à agência AP (Associated Press) que é compreensível que os visitantes se sintam preocupados, mas que os perigos variam significativamente segundo o destino, os meios de transporte e as atividades planejadas.
“Viajar sempre implica que algo pode surgir”, disse Johnson, e recomendou que os turistas não tomem uma decisão definitiva de ir ou não, mas que avaliem sua viagem passo a passo, permaneçam atentos às condições locais e sigam as atualizações das autoridades.
Os especialistas advertem sobre riscos específicos que poderiam afetar a experiência dos visitantes:
- Delitos comuns como roubos e fraudes.
- Extorsões, especialmente em contextos de vida noturna.
- Riscos em vias de comunicação, como estradas ou transporte público.
- Zonas periféricas fora dos corredores turísticos.
“A maior vulnerabilidade está fora das áreas protegidas”, adverte Peña. “Os corredores turísticos, estádios e zonas-chave estarão altamente resguardados, mas não ocorre o mesmo em todas as zonas urbanas”.
A grande incógnita segue sendo se o México poderá garantir condições de segurança adequadas durante a Copa do Mundo.
O governo da presidente Claudia Sheinbaum reiterou em várias oportunidades que a segurança para o evento está garantida.
“É seguro que venham ao nosso país, a qualquer uma das três cidades onde se desenvolverão as partidas ou às outras cidades que estão incorporadas pela Fifa ou a qualquer cidade do país. Podem vir com segurança e certeza. Vão passar muito bem”, disse pontualmente nesta sexta-feira (20) em sua conferência de imprensa matinal.
Para Rivas, além do evento, o desafio é estrutural: “O país deve fortalecer o Estado de Direito, combater a corrupção e desarticular as redes criminosas. Não é apenas pela Copa do Mundo, mas por sua própria população”.
Peña concorda que o país avançou no planejamento, mas adverte: “Se algo falhar, seria especialmente preocupante, porque há sim preparação. Não seria por improvisação”.
A violência após a queda de “El Mencho” dificilmente terá um impacto direto na Copa do Mundo, coincidem os especialistas.
No entanto, seu efeito na percepção entre os viajantes internacionais poderia ser mais duradouro.
O México enfrenta assim uma prova dupla: garantir a segurança de milhões de visitantes e, ao mesmo tempo, projetar uma imagem confiável como anfitrião do evento esportivo mais importante do mundo.
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