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El Niño: o que é evidência científica e o que é especulação sobre o próximo fenômeno

É quase certo que teremos o El Niño este ano, mas ainda é cedo para dizer qual será sua intensidade

The Conversation|Regina Célia dos Santos Alvalá

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A NOAA aponta 60% de chance do El Niño se desenvolver entre maio e julho, com probabilidade acima de 90% na primavera.
  • Expectativas sobre um El Niño forte em 2026-2027 carecem de confiabilidade e geram especulações sem base científica.
  • O fenômeno pode causar impactos climáticos no Brasil, como chuvas no sul e secas no norte.
  • Previsões mais precisas sobre intensidade e impactos só estarão disponíveis após o inverno deste ano.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O El Niño causa chuvas intensas no sul do Brasil e secas na Amazônia e Nordeste Reprodução/Pexels/Dương Nhân

O El Niño é um fenômeno amplamente estudado e cada vez mais associado a impactos no clima e no meio ambiente em diversas áreas.

Para este ano, a NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), uma das principais referências mundiais no diagnóstico e prognóstico do fenômeno, aponta uma probabilidade de 60% de desenvolvimento do “El Niño” para o trimestre maio-junho-julho, chances que se elevam a mais de 90% a partir da próxima primavera, em setembro.


Em outras palavras, é praticamente certo que o fenômeno se desenvolverá na segunda metade do ano.

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Atualmente vários jornais vêm noticiando a previsão de um El Niño de forte intensidade para o período 2026-2027. Mas é possível prever a intensidade do fenômeno com tanta antecedência?


A verdade é que a previsão da intensidade do El Niño para a próxima primavera de 2026, atualmente, é motivo de especulações e, às vezes, de informações sensacionalistas.

Os modelos acoplados de última geração permitem prever a evolução do El Niño com meses de antecedência, estimando as anomalias na temperatura do ar e seus possíveis impactos, o que possibilita a adoção de ações preventivas em áreas estratégicas.


Por outro lado, modelos complexos que simulam o oceano e a atmosfera permitem prever, com antecedência de 1 a 3 meses, os possíveis impactos com precisão.

Mas previsões com prazos maiores podem apresentar mais incertezas e levar a prognósticos incorretos.


Primeiras observações do El Niño

No século 19, pescadores do norte do Peru e do Equador observaram, em algumas ocasiões próximas ao Natal, que um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial impactava a pesca, o que foi interpretado como um “sinal” para deixar de trabalhar e celebrar o nascimento do “El Niño” Jesus, dando, assim, nome ao fenômeno.

Mais tarde, na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker (1868-1958) identificou que este fenômeno estava associado a diferenças na pressão atmosférica observadas entre regiões do Oceano Pacífico, bem como a mudanças na velocidade dos ventos na região equatorial, que, por sua vez, alteravam as correntes oceânicas que regulam a temperatura do mar.

A partir da década de 1980, o fenômeno passou a ser extensamente estudado, após o El Niño intenso de 1982-83.

O que é El Niño?

El Niño é um fenômeno climático-oceânico que ocorre no Oceano Pacífico tropical, quando as águas da região equatorial centro-leste do oceano ficam mais quentes do que o normal.

Ele faz parte de um ciclo natural chamado ENOS (El Niño – Oscilação Sul) e pode afetar o clima em todo o mundo.

Neste ciclo ENOS, o oposto do El Niño é a La Niña, que consiste no resfriamento das águas superficiais no centro-leste do Oceano Pacífico tropical.

Na América do Sul, o ENSO também causa alterações na precipitação e na temperatura, embora de forma distinta em cada região.

Entre os vários impactos do El Niño, destacam-se o aumento das chuvas no sul do Brasil e ao longo do litoral do Peru e do Equador; secas na Amazônia e no Nordeste brasileiro; maior frequência de ondas de calor no centro do Brasil; menor frequência de furacões no Atlântico Norte; e aumento das temperaturas globais.

Grandes secas na Amazônia ocorreram durante anos de El Niño: 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24.

No entanto, secas também ocorreram na ausência do El Niño, como em 1963 e 2005 na região amazônica e em 2012 no Nordeste do Brasil, estas relacionadas à variabilidade da TSM (Temperatura da Superfície do Mar) no Atlântico Tropical Norte.

Estudos conduzidos na década de 1990 precisam ser atualizados, considerando o El Niño e a nova realidade das mudanças climáticas.

Além disso, o monitoramento contínuo torna-se fundamental para compreender o que está acontecendo no presente e, portanto, o que pode acontecer no futuro.

El Niño e desastres relacionados ao clima

O El Niño não causa desastres climáticos diretamente, mas aumenta ou reduz a probabilidade de eventos extremos no Brasil, o que permite subsidiar a elaboração de previsões de risco com antecedência.

Chuvas intensas ou ondas de calor podem ocorrer com ou sem atuação do El Niño, embora o estabelecimento deste fenômeno possa aumentar as chances e os impactos, como aconteceu em 2023 e 2024, quando eventos combinados de calor e seca intensificaram a quantidade de incêndios de vegetação na Amazônia e no Pantanal, e quando mais de 200 botos-cor-de-rosa morreram devido ao estresse térmico.

No Sul do Brasil, inundações generalizadas impactaram o estado do Rio Grande do Sul na primavera de 2023 e no outono de 2024.

Ressalta-se que os riscos de desastres dependem não somente da ameaça de fatores climáticos extremos, mas também da exposição e da vulnerabilidade da população, bem como da capacidade de proteção e das ações de mitigação.

El Niño em 2026-2027

Atualmente, a previsão indica que haverá a atuação de um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Mas, no momento, as previsões sobre a sua intensidade ainda carecem de confiabilidade.

Segundo fontes oficiais e autorizadas, atualmente há 25% de chance de ocorrer um El Niño de intensidade forte e outros 25% de probabilidade de se configurar um fenômeno de intensidade muito forte, o que ocorre quando a temperatura na porção central do Oceano Pacífico supera em mais de 2°C o valor normal.

Contudo, o IRI (Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade), outro dos institutos internacionais mais renomados no tema, destaca que as previsões feitas nesta época do ano apresentam alta incerteza quanto à intensidade do ENOS.

Desta forma, será necessário aguardar até o próximo inverno para dispor de previsões mais precisas sobre a intensidade e os possíveis impactos do El Niño em desenvolvimento.

Finalmente, é importante ressaltar que a previsão climática sazonal para o trimestre de maio a julho não indica uma influência clara do El Niño nas precipitações no Brasil.

Outro aspecto relevante é que não há relação direta entre a intensidade do fenômeno e a gravidade de seus impactos, embora, normalmente, durante episódios mais intensos, a influência do El Niño (aumento da chuva no sul e diminuição no norte do Brasil) se torne mais evidente.

Algumas notícias recentemente divulgadas apontam secas severas na Amazônia e no Nordeste brasileiro, assim como chuvas com potencial catastrófico na Região Sul.

Mas não estão sustentadas por dados científicos confiáveis e, em muitas ocasiões, resultam de meras especulações.

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Regina Célia dos Santos Alvalá não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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