Logo R7.com
RecordPlus

Barão de Cocais: 661 pessoas não buscaram auxílio de até R$ 85 mil por risco em barragem

Acordo garantiu o benefício para mais de 10 mil moradores afetados por ameaça de rompimento; famílias foram retiradas de casa

Minas Gerais|Pablo Nascimento, do R7

  • Google News
Problemas tanto na área da mina, como na barragem têm gerado dúvidas
Problemas na mina Gongo Soco causou clima de tensão na cidade

Quase 700 pessoas ainda não procuraram a FGV (Fundação Getúlio Vargas) para ter acesso a recursos do PTR (Programa de Transferência de Renda), pago a moradores de Barão de Cocais, a 96 km de Belo Horizonte, em função do impacto causado pelos riscos de rompimento da barragem Sul Superior, da mina Gongo Soco, da mineradora Vale. A fundação pagou a segunda parcela do benefício nesta sexta-feira (18). O repasse total pode chegar a R$ 85 mil.

O projeto é fruto de um acordo entre o poder público e a mineradora Vale, dona do reservatório que chegou ao alerta nível três, com risco iminente de rompimento, no dia 08 de fevereiro de 2019. A situação obrigou 577 pessoas a deixarem suas casas repentinamente. Elas viviam em duas comunidades vizinhas à barragem, que seriam destruídas rapidamente em eventual colapso da estrutura.


“Esse acontecimento causou prejuízos à população local, ao comércio e à economia da cidade. Por conta disso, foi feito um aporte de reparação, entre a empresa, as instituições de Justiça e a Prefeitura. Parte do acordo virou um programa de transferência de renda”, detalhou André Andrade, gerente executivo da FGV Projetos.

Ao todo, 10.700 pessoas estão aptas a ter acesso ao programa. Elas fazem parte de três grupos que incluem até mesmo quem não morava aos pés da barragem. O acordo prevê o pagamento em três parcelas. Além dos repasses de hoje e do último mês de agosto, haverá um depósito em janeiro de 2025.


“Ainda não temos dados sobre Barão de Cocais, mas temos sobre Brumadinho, onde a fundação também atua. As pesquisas mostram que o pagamento da transferência de renda, em boa parte, reverte-se para o comércio local, com o aumento do consumo das famílias. Então temos mais compras em supermercados, de bens duráveis para casa e tudo isso tende a refletir no comércio local “, detalha Andrade sobre o impacto almejado com o projeto.

Veja quem são os grupos aptos a receber e o valor indicado a cada um deles:


  1. Pessoas que moravam na ZAS (Zona de Autossavalmento), área à jusante da barragem e onde não haveria tempo de intervenção das autoridades em caso de rompimento. São 445 pessoas nessa situação. O pagamento previsto para cada uma delas são três parcelas de R$28.638,50, totalizando R$ 85.915,50.
  2. Pessoas que moravam na ZSS (Zona de Segurança Secundária), ou seja, toda área constante no mapa de inundação, mas que não está definida como ZAS. De acordo com a FGV, são 132 possíveis beneficiados neste critério. Para eles, o repasse é de três parcelas de R$ 14.619,83, que somam R$ 43.859,49.
  3. Moradores da cidade classificados em situação de vulnerabilidade social e registrados no CadÚnico (Cadastro Único), do Governo Federal. Elas não precisam ser moradoras de áreas próximas à barragem. São 10.123 pessoas enquadradas neste critério. Para o grupo, o repasse é de três parcelas de R$ 2.846,54, chegando a R$ 8.539,62.

Unindo todos os grupos, o PTR pode chegar a 34% dos 30.778 moradores de Barão de Cocais. A lista foi montada pela Justiça com base em dados do poder público e do cadastro de atingidos pelos risco de rompimento. Apesar da boa adesão, André Andrade alerta que 661 pessoas ainda não procuraram a FGV para ter acesso ao dinheiro. Dentre elas, três têm direito aos R$ 85 mil, seis aos R$ 43 mil e 665 aos R$ 8,5 mil.

“Nós acreditamos que essas pessoas já não moram mais na cidade, porque já rodamos todo o município procurando por elas ou por parentes e não as encontramos. Por isso, acreditamos que elas deixaram a cidade após o evento [o alerta da barragem] e não deixaram contato”, avalia o especialista.


Como ter acesso ao dinheiro

Quem ainda não fez o cadastro para o pagamento poderá ter acesso ao dinheiro. Segundo André Andrade, da FGV, o morador terá direito a receber todo o montante. Os interessados têm dois meios para se cadastrar. São eles:

1 - Presencialmente no Posto de Atendimento do PRT

Endereço: Rua Moura Monteiro, 116, bairro Vila Regina, Barão de Cocais - MG

Horário: de terça-feira a sábado, das 08h às 17h

2 - Pela internet, no Portal PTR Cocais

Site: www.ptr.fgv.br/cocais

“A gente vai cadastrar até a véspera do pagamento de janeiro, mas é bom a pessoa correr para se cadastrar logo e evitar ter surpresas ou eventual perda do direito por não ter se cadastrado”, alerta Andrade.

Histórico da barragem

A mineradora Vale elevou o nível de alerta da barragem Sul Superior, da Mina Gongo Soco, em Barão de Cocais, 14 dias após o rompimento da barragem da mineradora em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte.

A decisão aconteceu em meio a uma mobilização da ANM (Agência Nacional de Mineração) para fazer um pente-fino nos reservatórios de rejeito, em função da tragédia que matou 270 pessoas.

Com o acionamento do fator 3 de emergência, a Vale acionou as sirenes de alerta da mina Gongo Soco durante a madrugada e retirou mais de 500 pessoas de casa. As famílias não foram autorizadas a retornar aos imóveis até hoje e, segundo a FGV, já receberam indenização para a compra de imóveis em outras regiões.

Veja a comparação da barragem de Brumadinho com a Sul Superior Arte / R7

Em maio do mesmo ano, o deslizamento de um talude da mina, que poderia impactar a barragem Sul Superior, voltou a deixar a comunidade em alerta. Na época, a mineradora chegou a construir um muro de 36 metros de altura e 330 metros de comprimento para reduzir o impacto do rejeito na cidade em eventual colapso do reservatório.

A barragem Sul Superior armazenava 6 bilhões de litros de rejeito de minério, o equivalente a 2.500 piscinas olímpicas. A estrutura está em processo de desmanche. Em agosto deste ano, o nível de emergência da estrutura foi reduzido de 3 para 2.

“A redução foi possível devido à realização de novas investigações geotécnicas, ampliação dos instrumentos de monitoramento e evolução de estudos que permitiram maior conhecimento da real condição de estabilidade da estrutura. Além disso, contribuiu para o aumento da segurança da estrutura, o avanço das obras de descaracterização com a remoção de até o momento de cerca de 900 mil metros cúbicos, o que corresponde a cerca de 13% do total a ser retirado, bem como melhorias na drenagem superficial do seu reservatório e a redução do aporte de água para a barragem”, informou a Vale.

Imagens de drone mostram a mina Gongo Soco:

Reparação de desastres

A FGV foi escolhida para administrar os pagamentos com o objetivo de garantir segurança às partes do acordo. A Fundação traz experiência de outras tragédias. A instituição forneceu trabalho de perícia ao Ministério Público apurando o valor dos danos causados pelo rompimento da barragem da Samarco, em novembro de 2015.

Já em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, a FGV gerencia o repasse mensal de até um salário-mínimo por pessoa, criado em função do rompimento da barragem B1, da mineradora Vale. A tragédia aconteceu no dia 25 de janeiro de 2019 e a fundação faz os repasses desde novembro de 2021. O benefício chega a cerca de 150 mil pessoas que, na data da tragédia, viviam em Brumadinho ou a uma distância de até 1 km da calha do rio Paraopeba e do Lago de Três Marias. A operação já movimentou R$ 3,2 bilhões e vai durar até abril de 2026.

“A FGV traz segurança para todas as pessoas envolvidas. É a certeza do destinatário do recurso de que esse dinheiro está bem guardado, bem aplicado e que ela vai recebê-lo com certeza. É a certeza das instituições de Justiça de que as pessoas vão ser bem atendidas e pagas no dia certo”, avalia.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.