MG: conselho não vê negligência de dentistas em morte de garoto
Boletim de ocorrência fala em ambulância sem oxigênio, mas prefeitura nega; especialistas explicam riscos da extração dentária
Minas Gerais|Pablo Nascimento, do R7, com Record TV Minas

A presidência do CRO-MG (Conselho Regional de Odontologia de Minas Gerais) não vê, inicialmente, negligência por parte dos dentistas que atenderam o menino de 10 anos que morreu após a extração de um dente em Igarapé, na região metropolitana de Belo Horizonte, na segunda-feira (20).
Mesmo assim, o órgão abriu um processo interno para apurar eventuais erros cometidos pelos profissionais. Caso sejam identificadas irregularidades, os dentistas poderão ser suspensos ou até ter a carteira profissional cassada.
"O conselho vai apurar se houve negligência e imperícia no atendimento, o que é passível de responsabilização ética. No entanto, pelo que a gente entende até o momento, não houve negligência no atendimento e na prestação de primeiros socorros entre todos os profissionais envolvidos", detalha Raphael Castro Mota, diretor do conselho.
Um representante do CRO-MG esteve na clínica nesta terça-feira (21) para recolher documentos relacionados ao tratamento de Antony Bernardo da Silva Souza.
"Agora aguardamos o relatório final do IML (Instituto Médico-Legal) para verificar se havia outro fator envolvido que a família desconhecia que pode não ter sido repassado para os profissionais, como a possibilidade de discrasia sanguínea, uma alteração que impossibilita a coagulação", destaca Mota.
Socorro à vítima
De acordo com o boletim de ocorrência, a dentista de 29 anos que atendia Antony pediu ajuda a uma colega de trabalho ao identificar o sangramento após a extração do dente. Sem sucesso, as duas chamaram um terceiro profissional, especialista em cirurgia, que também não conseguiu conter a hemorragia.
Raphael Castro Mota chama atenção para o fato de que uma testemunha relatou à polícia que a ambulância acionada para socorrer o menino não teria oxigênio.
"Esse terceiro colega é que foi fazendo massagem respiratória e cardíaca e ventilação no paciente até o hospital. O garoto chegou sem vida ao hospital. Quatro médicos o atenderam e tentaram reanimá-lo durante 40 minutos", afirma Mota.
A prefeitura de Igarapé, no entanto, nega a versão. "Todas as ambulâncias do município de Igarapé são equipadas e contam com cilindros de oxigênio, observando o modelo do veículo de remoção, do tipo A. Então, afirma que no momento do atendimento do paciente Antony Bernardo da Silva Souza a ambulância contava, sim, com suporte de oxigênio", destacou a nota do município.
Causa da morte
A causa da morte do menino deve ser indicada em um relatório da Polícia Civil que deve ficar pronto em até dez dias. O diagnóstico médico inicial indica choque hipovolêmico, caracterizado pela perda excessiva de líquido e sangue do corpo humano.
Consultada pela reportagem, a dentista Ludmilla Abi-Saber Toledo, que não tem relação com o caso, avalia que as cirurgias de extração são "relativamente simples", mas exigem atenção e dependem do quadro de saúde do paciente.
"Vamos supor que eu atenda um paciente com hipertensão crônica. A gente afere a pressão. Se estiver normal e o paciente fizer uso da medicação correta, ele não apresentará risco cirúrgico para fazer a extração de dente ou realizar implante. Mas se for um paciente que já teve um infarto, por exemplo, e vai fazer uma cirurgia, é necessário que ele tenha um risco cirúrgico, independentemente do tipo de procedimento que vai ser feito.
Ludmilla também destaca que as crianças precisam ser atendidas por profissionais especializados.
"O clínico geral não tem o conhecimento de toda a parte pediátrica, que é diferente. A questão até da história da criança, se ela foi amamentada, se tomou mamadeira, tudo isso influencia o tratamento odontológico, porque tem influência no crescimento da face como um todo", conclui.
De acordo com o diretor do CRO-MG, inicialmente a família não teria repassado à dentista responsável pelo tratamento informações sobre o histórico de saúde "que instigassem a profissional a pedir exames complementares".
"Não é comum esse tipo de hemorragia, mas os cirurgiões-dentistas são preparados para atuar nesse tipo de intercorrência", conclui Raphael Castro Mota.
Segundo a família, Antony era saudável. Elenilsa Jacinta conta que o filho começou a ter dor de dente na última semana e que a dentista havia indicado um antibiótico para cessar a inflamação. Só depois a profissional iria realizar o tratamento, já que a gengiva de Antony apresentava sangramento.
“Eu não tinha dinheiro para fazer um canal. Eu falei com ela que queria extrair, porque eu estou desempregada. Eu já procurei emprego em todos os lugares e não consigo. Minha única solução era tirar o dente, mas ela é uma profissional. Se não dava para retirar, ela deveria ter falado na quinta-feira”, lamentou Elenilsa durante o velório do filho, nesta terça-feira (21).
A reportagem tenta contato com os dentistas que atenderam Antony Bernardo.















