PF indicia irmã de Aécio por acesso ilegal a depoimento de Joesley

Investigação que apurou vazamento de dados indica envolvimento da jornalista, de um empresário, dois advogados e dois escrivães da polícia

PF achou documentos sigilosos na casa da jornalista

PF achou documentos sigilosos na casa da jornalista

Paulo Fonseca / EFE

A jornalista Andrea Neves, irmã do deputado federal Aécio Neves (PSDB), foi indiciada pela Polícia Federal, nesta quarta-feira (10), por obstrução de Justiça. Segundo a corporação, investigadores encontraram documetnos sigilosos da Justiça na casa dela. Entre eles, um interrogatório do empresário Joesley Batista, dono da J&F.

Além da irmã do político mineiro, outras cinco pessoas foram indiciadas no âmbito da Operação Escobar por crimes como obstrução de Justiça, corrupção passiva, ativa, violação de sigilo profissional e organização criminosa.

Desencadeada em junho do ano passado, a Escobar teve como foco principal o suposto esquema de vazamentos de inquéritos sigilosos armazenados na sede da corporação na capital, mas acabou descobrindo indícios de desvios de dinheiro do Cruzeiro.

Segundo a investigação, durante uma busca da PF na residência de Andrea Neves, em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, foram encontradas várias cópias de inquéritos que tramitam em segredo de Justiça. Entre eles, um interrogatório do empresário Joesley Batista, dono da J&F, e principal delator de Aécio na Lava Jato.

Andrea foi enquadrada na Operação Escobar por embaraçar investigação de infração penal que envolva organização criminosa. Dois escrivães da PF, dois advogados e um empresário do setor varejista estão entre os outros indiciados pela Escobar, que foi conduzida pelo delegado Rodrigo Morais Fernandes.

Gravidade e estranheza

Para a PF, o fato de ter encontrado documentos reservados na casa de Andrea causou estranheza e demonstrou gravidade pois nem ela e nem Aécio foram investigados pela Capitu. Dessa forma, não poderiam ter acesso aos documentos, mesmo que tivessem sido obtidos por advogados cadastrados legalmente. Ainda segundo a investigação, as cópias encontradas na casa de Andrea não estavam assinadas ou numeradas, ou seja, não foram retiradas do processo, o que significa que teriam sido acessadas no computador da polícia.

Segundo a investigação, quem acessou o depoimento de Joesley Batista foi o escrivão da PF, Márcio Antônio Camillozzi Marra, que teve prisão preventivamente decretada pela Justiça e depois foi solto. Marra foi nomeado conselheiro do Cruzeiro Esporte Clube pelo advogado Ildeu da Cunha Pereira, que também foi indiciado pela Escobar. O cargo no Cruzeiro seria uma compensação pelos vazamentos ilegais.

Delegado Rodrigo Morais cuidou das investigações

Delegado Rodrigo Morais cuidou das investigações

Arquivo Pessoal / Rodrigo Morais

Ildeu morreu em fevereiro deste ano vítima de um infarto. O caso relativo ao Cruzeiro foi encaminhado pela PF para a Polícia Civil dar prosseguimento as investigações tendo em vista que não foi encontrado indícios de crimes contra a União. De acordo com a PF, Ildeu vazou documentos da Operação Capitu para o empresário Pedro Lourenço, dono do Supermercados BH, que foi indiciado por obstrução de Justiça na Escobar.

Desencadeada em 2018, a Capitu desarticulou um suposto esquema de desvios de verbas no Ministério da Agricultura durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Na época, Joesley e o ex-vice-governador de Minas Antônio Andrade (MDB) foram presos.

De acordo com o inquérito conclusivo da Escobar, Andrea obteve as informações privilegiadas pelo advogado Carlos Alberto Arges, que também foi indiciado, com o propósito propósito de impedir ou embaraçar apurações que envolviam a organização criminosa sob investigação da Capitu, bem como outras que tangenciavam seus interesses e de Aécio.

Outro lado

A defesa de Pedro Lourenço disse que não teve acesso ao inquérito, mas afirmou que o cliente “não recebeu nem se beneficiou de qualquer informação privilegiada sobre inquéritos policiais, não conhece e jamais se relacionou com os policiais federais investigados, sendo certo, ainda, que o advogado Ildeu da Cunha jamais o representou em qualquer procedimento criminal”.

Já o advogado Carlos Alberto Arges Júnior disse que diferente do que foi relatado pela autoridade policial, “não existem quaisquer elementos e provas para o injusto e infundado indiciamento”. Arges Júnior destacou, ainda, que por ser advogado constituído nos inquéritos, “teria livre acesso aos documentos tidos como sigilosos e cópias que inclusive já eram de conhecimento público”.

Veja a íntegra da nota de Andrea Neves: 

"A defesa de Andrea Neves manifesta a sua perplexidade com a finalização precipitada da investigação feita pela autoridade policial que contraria, inclusive, as provas obtidas no próprio inquérito.

Andrea Neves foi chamada a prestar depoimento em julho do ano passado, tendo ficado acertado que prestaria seus esclarecimentos assim que, como determina a Lei, tivesse acesso à integralidade dos documentos relacionados à investigação. Essa nova intimação jamais ocorreu.

As investigações demonstram que Andrea nunca solicitou qualquer documento a quem quer que seja e nunca teve contato com qualquer agente público.
Os documentos que se encontravam em sua residência já tinham o seu conteúdo amplamente divulgado pela imprensa, sendo, portanto, estapafúrdia a hipótese de que poderiam ser usados para qualquer ato de obstrução de justiça.

É preocupante que a autoridade policial faça uma ilação dessa gravidade sem apontar qualquer ato praticado por Andrea que pudesse ser interpretado como obstrução de justiça.

No mais, registre-se a ironia de que um inquérito instaurado para apurar vazamento tenha tido a sua conclusão vazada antes que as partes pudessem ter conhecimento de seu conteúdo."

Veja a íntegra da nota do advogado de Pedro Lourenço:

"Diferentemente da imprensa, a Defesa de Pedro Lourenço de Oliveira ainda não teve acesso ao relatório elaborado pela autoridade policial nos autos do IPL n. 504/2019 (Operação Escobar).

Não obstante, a Defesa afirma que o indiciamento de Pedro Lourenço por suposta “obstrução de justiça” divulgado pela imprensa é fruto de equivocada interpretação de mensagens telefônicas totalmente estéreis de um dos advogados investigados.

Pedro Lourenço não recebeu nem se beneficiou de qualquer informação privilegiada sobre inquéritos policiais, não conhece e jamais se relacionou com os policiais federais investigados, sendo certo, ainda, que o advogado Ildeu da Cunha jamais o representou em qualquer procedimento criminal.

A Defesa tem convicção de que a avaliação isenta do inquérito pelo Ministério Público Federal levará ao arquivamento da investigação em relação a Pedro Lourenço de Oliveira.