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Professora de canto que nasceu hermafrodita luta para mudar documentos 

Júlia de Oliveira fez cirurgia há quase dez anos, mas não recebeu nova identidade oficialmente

Minas Gerais|Márcia Costanti, do R7

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Júlia foi registrada e criada como menino pela família
Júlia foi registrada e criada como menino pela família
Casada há 20 anos, ela diz que não se importa com preconceito
Casada há 20 anos, ela diz que não se importa com preconceito

Há dez anos, a professora Júlia Jorge de Oliveira, de 38 anos, abriu os olhos no dia do seu aniversário e sentiu que estava, enfim, “curada de um grande mal”. A mineira de Juiz de Fora, na Zona da Mata, nasceu intersexuada, condição mais conhecida pelo termo “hermafrodita”. Depois de anos de questionamentos sobre seu corpo e um longo processo de autodescobrimento, ela passou por uma cirurgia e pôde se transformar na mulher que desejava ser. Mesmo assim, ainda luta na Justiça para conseguir documentos com a nova assinatura.

Júlia conta que foi registrada e criada como um menino. Como na época a medicina ainda não tinha tantas alternativas, os pais da professora fizeram de tudo para que ela vivesse uma infância normal. No entanto, a chegada da adolescência a colocou em um turbilhão.


—Com as aulas de ciências, que mostravam o corpo humano, eu comecei a me tocar, me ver e questionar: o que eu sou?

Ela ainda investiu em várias alternativas para reforçar suas características femininas: chegou a tomar anticoncepcionais. O diálogo em casa era complicado e, por isso, Júlia manteve um diário durante este período.


—Meus pais sempre foram muito discretos e cuidadosos com isso, eu tinha liberdade com eles, mas era difícil. Sempre foi mais difícil para lidar com a minha mãe, porque ela se culpava por não saber como resolver isso.

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Como menino, ela precisou se alistar para o Exército, mas o médico do quartel notou as diferenças no corpo de Júlia e a orientou sobre sua condição. A partir daí, a professora sentiu ainda mais convicção para mudar a mentalidade e passou a se vestir e portar cada dia mais como mulher.

—Eu já trabalhava em uma escola e sofria pressão naquela época para me assumir. Meus alunos me viam como mulher na rua e lá na instituição eu era o “tio Ju”. Eu ia vestida discretamente para trabalhar, mas já saía feminina para ver meus amigos e meu namorado.


Foi uma de suas alunas, de 80 anos, que contribuiu para que a mudança ocorresse. Comovida com o desabafo de Júlia, ela encaminhou a professora para o Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, , onde Júlia realizou a operação que considerava “um sonho distante”. Feliz e casada há 20 anos, ela se considera sortuda por trabalhar com música, mas espera ansiosa a permissão judicial que vai fechar um ciclo de transformação.

— A música aceita a diversidade de uma forma muito mais fácil e coerente. Meu trabalho sempre me deu força de buscar o meu ideal e resolver a situação, de ser mulher e me assumir. Sempre tive este suporte.

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