Conselho Mundial de Saúde pediu a paralisação da vacinação?
Mensagens divulgam decisão da entidade, que afirma que as vacinas contra Covid-19 seriam experimentais e estariam provocando mortes
MonitoR7|Do R7

Uma mensagem que anuncia que o "Conselho Mundial de Saúde" pediu uma parada imediata das vacinas "experimentais" contra a Covid-19 está bombando em grupos de aplicativos. A publicação é especialmente popular em grupos de mensagens que são contrários às vacinas contra Covid-19 e às exigências de comprovante de vacinação.
Leitores do MonitoR7 nos encaminharam essa mensagem, para checagem do seu conteúdo. As publicações, geralmente, são acompanhadas de um link para um texto do site brasileiro "Tribuna Nacional", que já foi alvo de checagens do MonitoR7.
De fato, o grupo que se autodenomina "Conselho Mundial de Saúde" solicitou a paralisação imediata da aplicação das vacinas contra Covid-19, que são chamadas de "experimentais". Em 15 de dezembro de 2021, a entidade divulgou o comunicado com esse pedido.
No texto, a entidade afirma que naquele momento já havia "evidência mais que suficiente de que as vacinas são inseguras para uso em humanos". Como parte das evidências citadas, o texto afirma que existiriam "milhões de reações adversas às vacinas experimentais, incluindo lesões severas e até mortes".
Segundo o próprio site da entidade, ela foi criada em 2021 e é uma iniciativa sem fins lucrativos, que é apoiada pela EbMCsquaredCIC. Esta, por sua vez, seria uma companhia, também sem fins lucrativos, que promove uma pesquisa chamada "Clube da Aprovação da Ivermectina".
A principal executiva da EbMCsquaredCIC é a médica Tess Lawrie, que também integra o "Conselho Mundial de Saúde". O conselho afirma ter uma coalizão de 130 organizações parceiras, em mais de 40 países, com mais de dez comitês ou grupos de trabalho.
Além de Tess Lawrie, defensora da ivermectina, cuja ineficácia contra Covid-19 já foi comprovada cientificamente, a direção do "Conselho Mundial de Saúde" inclui outros nomes, como Anna de Buisseret, que disse que as vacinas contra Covid-19 são armas biológicas usadas como parte de um “programa de eugenia”; Zac Cox, dentista homeopata; e Robert Malone, que disse que as vacinas de RNA mensageiro levam à produção de proteínas tóxicas em crianças e que também já figurou em artigo aqui, no MonitoR7.
Esclarecido que essa entidade realmente fez o pedido para que todos os países suspendessem a aplicação das vacinas contra Covid-19, vamos analisar os argumentos apresentados por ela. Em primeiro lugar, a alegação de que essas vacinas são experimentais e inseguras.
Segundo comunicado divulgado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 30 de setembro de 2021, as vacinas em uso no Brasil não são experimentais. Os imunizantes tiveram seus dados de eficácia e segurança avaliados e aprovados pela agência reguladora, com o uso dentro das indicações aprovadas. "Todas as vacinas em uso no Brasil tiveram condução de estudo de fase 3 de pesquisa clínica e já encerraram essa etapa", afirma o comunicado.
Todas as vacinas seguiram o "padrão-ouro" científico, compreendendo três fases que foram randomizadas, controladas por placebo e cegas. Isso significa que milhares de pessoas foram alocadas aleatoriamente para receber uma vacina ou um placebo. Os indivíduos eram “cegos”, o que significa que não sabiam se haviam recebido a vacina ou o placebo.
Agora, vamos considerar o argumento de que há registro de "milhões de reações adversas, incluindo lesões severas e até mortes". A Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e a Administração de Drogas e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) negam o registro de milhares de mortes pelas vacinas. As agências de saúde, que são as mais respeitadas internacionalmente, afirmam que a maior parte dos efeitos adversos é leve e de curta duração e os casos graves são raros.
Os argumentos usados pela entidade que se autointitula Conselho Mundial de Saúde, portanto, não são válidos. Mas e se fossem? A manifestação da entidade tem algum valor regulatório? Os países são obrigados a obedecer ao posicionamento ou ao menos responder a ele?
Muitas pessoas que distribuem a mensagem com a informação sobre o pronunciamento do Conselho Mundial de Saúde acreditam, até pelo nome da entidade, que essa opinião possa gerar alguma reação dos países ou das autoridades de saúde. Talvez o nome da entidade faça as pessoas acreditarem que esse conselho possa ser um contraponto, por exemplo, à Organização Mundial da Saúde (OMS). Não é o caso.
A OMS é a agência mundial de saúde, criada em 1948 e vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). Trata-se de uma das agências originais da ONU e é constituída por 193 Estados-membros. Isso inclui todos os países vinculados à ONU (exceto Liechtenstein) e dois países que não integram a organização. Ou seja, a OMS tem um Estado-membro a mais que a própria ONU.
Orientações e publicações da OMS são consideradas referências na saúde mundial. Por exemplo, um mal só é classificado oficialmente como doença se passa a integrar a Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), definida pela entidade. A OMS, assim como as demais agências da ONU, não tem poder de interferir nas decisões de seus Estados-membros. Todos os países são soberanos e estabelecem as próprias políticas internas, incluive na área de saúde.
As orientações da OMS, no entanto, costumam embasar as políticas internas da maior parte dos países, porque são previamente discutidas e aprovadas após discussão entre representantes dos Estados-membros. Um país que adote políticas contrárias às orientações da OMS certamente receberá contestações de cientistas e especialistas e terá que justificar publicamente sua posição.
Já o Conselho Mundial de Saúde, apesar do nome pomposo, não tem representação oficial, não tem reconhecimento de governos de países ou entidades científicas de renome. É uma entidade privada, sem fins lucrativos, segundo seus integrantes.
O pedido de paralisação da vacinação contra Covid-19 foi feito pela entidade em dezembro último. Até agora, passados quase três meses, não recebeu nenhum tipo de resposta oficial de nenhum governo ou sequer atenção de alguma entidade científica ou sanitária de renome. Isso talvez seja o melhor indicativo da representantividade desse pedido.
Como toda organização ou entidade privada, criada para defender determinado ponto de vista, o Conselho Mundial de Saúde tem todo o direito de existir e se manifestar. O problema é que, para isso, a entidade tem se baseado em informações falsas e distorções da verdade — assim como vários dos seus dirigentes.
No ano passado, integrantes do Conselho Mundial de Saúde divulgaram que as vacinas contra Covid-19 estariam causando uma nova “síndrome inflamatória multissistêmica complexa”. Uma doença que não teve descrição elaborada por nenhum órgão de saúde oficial e cuja existência foi desmentida por agências de checagem internacionais.
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