Mercado da bola busca se readequar para frear desvalorização

Com estimativa de queda em valores de transferência e até salário, setor precisará encontrar novos rumos a fim de evitar achatamento ainda maior no Brasil

Com estimativa de queda em valores de transferência e até salário, setor precisará encontrar novos rumos a fim de evitar achatamento ainda maior no Brasil

Com estimativa de queda em valores de transferência e até salário, setor precisará encontrar novos rumos a fim de evitar achatamento ainda maior no Brasil

Folha de Pernambuco

A pandemia da Covid-19 vai deixar sequelas em diversos segmentos da sociedade. O cenário atual, porém, ainda não nos dá a real dimensão dos impactos provocados. No futebol, atividade econômica e cultural fundamental para o Brasil, as consequências foram imediatas: diminuição de salários, suspensão de contratos e aprofundamento de crises em alguns clubes. Por isso, é inevitável a discussão sobre a possível retração do valor de mercado na modalidade. Diante dessa conjuntura, a Folha de Pernambuco analisou estudos e repercutiu o futuro econômico do esporte mais popular do País com empresários e dirigentes, personagens que lidam diariamente com negociações.

“O que mais se comenta no mundo é sobre esse colapso que nos acometeu. Ninguém tem uma mensagem muito clara do que vai acontecer posteriormente. O que nós podemos imaginar, ao menos no cenário do futebol, são dois cenários: um é ruim, com clubes pequenos fechando e as montanhas de dívidas sendo acumuladas. O outro é uma reinvenção do futebol, de uma maneira mais simples e econômica”, disse Ytalo Pontes, empresário de jogadores conhecidos do futebol pernambucano, como Wallace Pernambucano, Charles, Tiago Cardoso e Jhonnatan.

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Também é incerto como atletas vão reagir a essas condições. Caso a tendência se confirme, é provável que o patamar salarial sofra uma queda. Segundo um estudo publicado pela consultoria KPMG, o valor de mercado dos jogadores pode cair cerca de 20%. Os mais novos e promissores, obviamente, serão menos acometidos pela crise, mas isso não quer dizer que a diminuição não chegará neles.

Um estudo da EY, inclusive, trouxe a informação que os 20 clubes mais bem colocados no ranking da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sofrerão perdas somadas de pelo menos R$ 2 bilhões em 2020. O relatório aponta que, com a pandemia, as 20 agremiações, que faturaram R$ 6 bilhões ao todo em 2019, terão uma retração de 22% (R$ 1,34 bilhão) a 32% (R$ 1,92 bilhão). Isso as fará regredirem para o patamar de receitas de 2016.

Essa tendência de queda é estrutural e não vem apenas na diminuição de receitas no futebol. O mercado financeiro em geral também foi severamente afetado. “Essa situação vai desvalorizar tudo, o que precisamos é nos adaptar. Estava falando com o pessoal da Alemanha e está tudo indefinido lá também. É muito difícil cravar algo hoje, criar algum conceito. A única coisa que eu tenho certeza é que não vai ser como era antes”, afirmou Sandro Zardo, empresário de Victor Rangel.

A visão do diretor de futebol do Santa Cruz, Nei Pandolfo, vai ao encontro do que disseram os empresários e foi apontado nos estudos mencionados. Segundo o dirigente, a oferta de jogadores será maior, o que deve gerar uma diminuição nos valores pedidos por eles. Levando em consideração que muitas equipes não estão conseguindo honrar seus compromissos e os jogadores sendo dispensados, a projeção do dirigente tricolor pode se tornar uma realidade em breve.

Isso, inclusive, pode surtir efeito nas transferências de jogadores. Com menos recursos e diminuição no valor dos atletas, as equipes estarão mais cautelosas em fazer negócios. A baixa estimada para as transferências gira em torno de 40%, significando uma retração de cerca de R$ 627 milhões em 2020. O relatório da EY, porém, ressalta que a desvalorização do real poderá mitigar parte dessas perdas, já que os valores de transações para o exterior são fixados em dólar ou euro. Outro possível trunfo é que as equipes estrangeiras, com limitações de investimentos, poderão direcionar suas negociações para os mercados emergentes, como o brasileiro.

Este momento, no entanto, é visto como passageiro pelo empresário Rodrigo Gomes. “O ano de 2020 realmente será difícil. O mercado está parado e a redução salarial sendo aplicada em praticamente todos os clubes. Porém, eu acredito que em 2021 haverá uma normalização. Os clubes pequenos podem até sentir mais dificuldade, mas muitos deles já vinham as enfrentando antes da pandemia”, afirmou o representante do treinador Dado Cavalcanti.