Lição de altivez

A injustificável agressão de Doria à mulher que governa Bauru 

  • Augusto Nunes | Do R7

Prefeita de Bauru, Suéllen Rosim esteve em Bauru e se encontrou com Bolsonaro

Prefeita de Bauru, Suéllen Rosim esteve em Bauru e se encontrou com Bolsonaro

Reprodução/Instagram

Durante a campanha que a transformaria em prefeita de Bauru, Suellen Rossin criticou a abrangência e a rigidez das quarentenas impostas à cidade pelo governo estadual desde o começo da pandemia de coronavírus. Sempre recomendando a adoção de medidas que podem evitar o agravamento da crise sanitária, a candidata avisou que, se eleita, tentaria livrar da completa paralisia o comércio e o setor de serviços, fundamentais para a sobrevivência econômica de um município desprovido de indústrias. Coerentemente, procurou cumprir a promessa na última semana do primeiro mês de mandato.

Assim que recebeu o decreto do governador João Doria que, no fim de janeiro, decretou a interrupção do funcionamento de todas as atividades consideradas não essenciais, Suellen retocou o documento para adaptá-lo ao perfil de Bauru. “Se o comércio e os serviços ficassem fechados por muito tempo, não haveria o que reabrir”, explica. Em seguida, saiu em busca de socorro para uma rede hospitalar dramaticamente precária. Viajou para São Paulo, onde se encontrou com o governador e alguns secretários, e voou para Brasília. Ali conversou com integrantes do primeiro escalão, em audiências facilitadas pelo bauruense Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, e foi recebida pelo presidente da República.

Doria não gostou das alterações no seu decreto. Gostou menos ainda da foto que mostra Suellen ao lado de Jair Bolsonaro. E recorreu à Justiça para que Bauru cumprisse todas as normas baixadas pelo governo estadual. No mesmo dia, o Tribunal de Justiça paulista exigiu o completo enquadramento da cidade na fase vermelha do Plano São Paulo. Como não há punições para fotos incômodas, Doria resolveu castigar Suellen verbalmente. No fim da entrevista coletiva desta segunda-feira, acusou a prefeita de “negacionista e afirmou que, ao  conversar com o presidente, “prestara vassalagem a Bolsonaro”.

Suellen respondeu com o vídeo abaixo. Disse que foi ao encontro das autoridades paulistas, dos ministros e de Bolsonaro porque, se fosse necessário para ajudar Bauru, iria até a Lua. “Se eu fosse negacionista, não tentaria melhorar a rede hospitalar da região”, lembrou. “E nunca fui vassala de ninguém. Sou uma mulher independente”.

Encerrou a lição de altivez e elegância exigindo ser tratada com o mesmo respeito que tem por um governador do Estado. Mulher e negra, mas evangélica e conservadora, Suellen não mereceu uma única palavra de solidariedade remetida por movimentos que juram combater a misoginia e o racismo. Homenagens desse tipo são reservadas a militantes antibolsonaristas. Até agora, o governador não se desculpou pela agressão injustificável.

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