Manifestações na Paulista

Nas manchetes, até uma Belo Horizonte já coube na avenida

Manifestantes em ato do MBL no último domingo (12)

Manifestantes em ato do MBL no último domingo (12)

ADRIANO MACHADO/REUTERS - 12.09.2021

Com 2.800 metros de extensão e duas pistas com 12,60 metros cada uma, separadas por um canteiro central com 2,40 metros de largura, a Avenida Paulista não comporta mais de 700.000 pessoas aglomeradas ao mesmo tempo em seus 130.000 metros quadrados. Esse limite é respeitado até demais pelos cálculos da Policia Militar, que sempre vê menos gente do que há, e despudoradamente ignorado por organizadores de eventos, para os quais qualquer número abaixo de 1 milhão é coisa de comício de lugarejo. A virada do ano, por exemplo, sempre superou essa marca. E a parada gay já juntou 2,5 milhões de participantes. Como é essa a população de Belo Horizonte, ao menos na primeira página da Folha a Avenida Paulista é capaz de abrigar todos os moradores da capital mineira.

Ou era. As cifras anabolizadas pela imaginação vigarista foram  encampadas pelos jornais até  7 de setembro, quando as impressionantes manifestações a favor do  governo induziram a imprensa convencional a redescobrir as estimativas da Polícia Militar. Como atestam vídeos honestos e fotos sinceras, havia na Paulista pelo menos 300.000 pessoas. Os redatores das primeiras páginas decidiram que não passavam de 130.000. E acrescentaram que se tratava de um número decepcionante para os organizadores da manifestação, que esperavam — segundo os jornalistas  — impossíveis 2 milhões de viventes.

A situação tornou-se mais esquisita com a realização do ato oposicionista, convocado pelo PT e pelo Psol, que juntou no Vale do Anhangabaú 15.000 pessoas — segundo a Polícia Militar. A Folha ressalvou que — segundo os organizadores — havia ali 50.000 militantes atraídos pela oratória de Fernando Haddad e Guilherme Boulos. Quase metade da portentosa manifestação governista  — de “raiz golpista”, segundo a Folha.

Em 12 de setembro, um ato público liderado pelo MBL, concebido para exigir o impeachment de Bolsonaro,  naufragou em meras — segundo a Policia Militar — 6000 cabeças. Passaram pelo palanque na Paulista cinco presidenciáveis: Ciro Gomes, João Dória, Alessandro Vieira, Simone Tebet e Henrique Mandetta. Muito cacique e  pouco índio. Nos anos 50, para zombar das raquíticas plateias atraídas pelos adversários, Jânio Quadros jurava que juntaria 5000 pessoas no Viaduto do Chá caso sentasse  no meio-fio e ficasse batendo numa lata por três minutos.

Segundo o Datafolha e outros institutos, Lula tem 60% dos votos nas pesquisas eleitorais. Em homenagem à imprensa engajada, por que seus devotos não descem das porcentagens, dão as caras nas ruas e garantem números que os jornais por enquanto têm de inventar? Só assim será afastada a suspeita de que seu amplo favoritismo é tão real quanto a manchete que celebrou aquela parada gay em que cabia uma Belo Horizonte.

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