O domador de tempestades

O que faria Tancredo Neves para interromper o Fla-Flu que começou com a chegada das primeiras caravelas?

  • Augusto Nunes | Do R7

Sergio Borges/Estadão Conteúdo - 12.3.1985

Nasci numa cidade dividida entre janistas e ademaristas. Tornei-me adulto e amadureci num país dividido entre partidários do regime militar e militantes da resistência democrática. Envelheço num Brasil que Lula dividiu entre “eles” e “nós” e continua dividido pelo coronavírus entre simpatizantes e inimigos do uso da cloroquina no combate à pandemia. Com a chegada da primeira caravela, muitos séculos antes da invenção do futebol, índios cor de cobre e brancos europeus inauguraram o Fla-Flu que nunca mais terminou. Os períodos de trégua foram tecidos pelos poucos líderes políticos que souberam desde o útero que não há democracia consistente sem o convívio dos contrários. Uma dessas raridades foi Tancredo de Almeida Neves.

O que faria Tancredo?, pergunto-me quando as coisas, sempre difíceis por aqui, ficam especialmente complicadas. Era nesses momentos que os mais ferozes desafetos entendiam que chegara a hora de chamar o doutor Tancredo. “Nunca me convidam para um banquete”, ouço a voz do conciliador vocacional, em dezembro de 1983, na mesa do restaurante em Belo Horizonte. “Só se lembram de mim na hora da tempestade”. Ele enrola e desenrola a gravata azul antes da ressalva:

“A conciliação só pode ser feita em torno de princípios. É por isso que uma vitória eleitoral é mais fácil do que conseguir um acordo entre antigos adversários.”

O domador de tempestades teve um desempenho luminoso na crise provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. Recolhido ao casarão em São João del Rey, onde nasceu, convalescia desde outubro do ano anterior da derrota para Magalhães Pinto na disputa pelo governo de Minas Gerais. E examinava a ideia de encerrar a carreira política quando o destino o encarregou de abortar o temporal em gestação.

Decolou para Brasília a pedido do general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do governo que, formalmente presidido pelo deputado Ranieri Mazzili, estava sob a tutela dos ministros do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. A trinca, contou-lhe Geisel, não admitia a entrega do gabinete abruptamente desocupado ao vice João Goulart, em viagem oficial à China. Como o governador Leonel Brizola, entrincheirado no Palácio Piratini e apoiado pelas tropas aquarteladas no Rio Grande do Sul, exigia a posse de Jango, as dimensões e a tonalidade das nuvens anunciavam a tempestade que prenuncia a guerra civil.

É coisa para o doutor Tancredo, concordaram os comandantes militares e os aliados de Jango. Era mesmo. Cinco dias e incontáveis sussurros depois, estava costurado o mais improvável dos acordos. O vice tornou-se presidente, mas com poderes reduzidos pela adoção do regime parlamentarista. A escolha do nome do primeiro-ministro foi feita sem disputas, debates ou dúvidas. Só podia ser Tancredo Neves.

Mais de vinte anos depois, de novo só podia ser Tancredo o candidato da mais multifacetada aliança política da história republicana.

Nenhum outro líder juntaria no mesmo balaio todos os “autênticos” e “moderados” do PMDB, todos os partidos de oposição (com a exceção previsível do PT, que optou pela abstenção no Colégio Eleitoral e expulsou três deputados que discordaram da ordem de Lula). Nenhum outro candidato atrairia tantos governistas dissidentes sem tornar inevitável o veto ostensivo de oficiais inconformados. Se não existisse um Tancredo, o Brasil teria de esperar sabe-se lá quanto tempo ainda pela ressurreição da democracia.

Ele está em boa forma, equivoco-me ao ouvi-lo pedir um licor depois da sobremesa. É provável que já estivesse suportando as dores que esconderia até 14 de março, quando o país pronto para festejar a posse do eleito foi abalado pela notícia da primeira cirurgia. Escondeu-as por achar que o presidente João Figueiredo não aceitaria passar a faixa presidencial a José Sarney, vice-presidente eleito, ou ao deputado Ulysses Guimarães, presidente da Câmara.

— Vejo o senhor em Brasília — despeço-me na calçada em Belo Horizonte.

É um sorriso cansado, noto enquanto me deseja boa viagem.

— Vejo o senhor no Palácio do Planalto — ainda me ouço dizendo em 15 de janeiro, depois de emocionar-me com o discurso retocado pela caneta que o jovem ministro da Justiça de Getúlio Vargas ganhou do presidente suicida. “Com o êxtase e o terror de haver sido o escolhido, como diria Verlaine, entrego-me hoje ao serviço da nação”, dissera o presidente eleito.

Achei ainda mais cansado o sorriso de Tancredo ao reiterar a data do reencontro:

— Até o dia da posse — despedi-me.

Não voltei a vê-lo vivo.

O Brasil que foi dormir com Tancredo Neves acordou dividido por José Sarney.

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