Os berlinenses não acreditam em lockdowns

Uma brasileira conta que é olhada com estranheza por usar máscara também ao ar livre 

Angela Merkel, chanceler alemã

Angela Merkel, chanceler alemã

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A Alemanha fez bonito na primeira onda da pandemia. Enquanto espalhava o pânico por quase toda a Europa, no país governado por Angela Merkel a COVID-19 teve de duelar com o sistema hospitalar mais avançado do mundo e com a germânica disciplina no cumprimento das normas baixadas pela primeira-ministra. Em junho, quando o verão chegou, os moradores de Berlim imaginaram que os tempos de isolamento social haviam passado. “Eles não conseguem ficar em casa quando chegam os meses ensolarados”, constata a brasileira Carol Michelon. Diretora de arte e ilustradora, 32 anos, ela vive em Berlim há quase três.

A segunda onda encontrou uma cidade cansada de lockdown e habitada por gente pouco disposta a ficar em casa — mesmo no inverno. “Depois de muitos anos, nevou em Berlim",  conta Carol. “Todo mundo saiu às ruas para divertir-se com bolas e bonecos de neve". Nos meses seguintes, a aversão a quarentenas cresceu. “Os alemães continuam  traumatizados com o que ocorreu nos tempos do nazismo”, diz Carol. “Isso dificulta bastante a aceitação de proibições e restrições".

Nesta semana, pressionada por autoridades envolvidas no combate ao coronavírus, Angela Merkel voltou a ensaiar o lockdown de duas semanas que desistiu de decretar pouco antes da Páscoa. “Vai ser complicado “, prevê Carol. “O povo vem agindo como se a pandemia já não fosse perigosa”. Os berlinenses, por exemplo, desconfiam de algumas vacinas compradas pela União Européia”. Sem pressa, esperam por alguma que considerem eficaz. E já se dispensam de proteções faciais quando estão ao ar livre. “Como uso máscaras também nas ruas, agora sou olhada com estranheza por gente com o rosto descoberto”, surpreende-se Carol. “Eles parecem ter decidido conviver com o vírus”.

Se Angela Merkel vencer a resistência popular e implantar outro lockdown, será provavelmente o derradeiro isolamento dos berlinenses. Eles já não acreditam em quarentenas. E só faltam pouco mais de dois meses para a chegada do verão de 2021.

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