Um pintassilgo-do-planalto na primeira classe

Tive de resistir à tentação de oferecer alpiste ao chanceler Celso Amorim

O ex-chanceler do Brasil Celso Amorim, em evento no Palácio do Planalto

O ex-chanceler do Brasil Celso Amorim, em evento no Palácio do Planalto

Valter Campanato/ABr

Corpo miúdo, cabeça pequena, pernas mirradas, os braços magros estendidos para baixo como asas sem serventia, o passageiro que entrou na primeira classe do avião parecia um passarinho. Mas era gente, avisaram o blazer preto bem cortado, a camisa social azul claro, a calça bege e os sapatos pretos de cromo alemão. Mas não gente como a gente, dei-me conta ao reconhecer a figura que acabara de subir a bordo. Aquilo era o chanceler Celso Amorim.

Na noite de 4 de setembro de 2005, dentro do avião estacionado no aeroporto em Paris, eu acabara de ler num jornal que o ministro das Relações Exteriores do governo Lula estava em Bruxelas, na Bélgica (não me lembro mais para quê). Chegou atrasado para a conexão na capital francesa, deduzi pela demora da decolagem, pelo andar apressado e pela expressão de alívio do assessor que o escoltava. Amorim foi direto para o banheiro carregando uma maleta. Saiu cinco minutos mais tarde enfiado num pijama cinza-chumbo, calçando chinelas pretas de vovô, com um tapa-olho pendurado no pescoço e protetores de orelha na mão.

A comissária de bordo aproximou-se do passageiro acomodado uma fileira adiante da minha e murmurou as perguntas de praxe. Revistas, jornais brasileiros do dia? Não, informou Amorim balançando horizontalmente a cabeça. Já examinara o cardápio do jantar? Sim, informou Amorim balançando perpendicularmente a cabeça. Preferia vinho ou champagne? "Quero um copo de leite", piou o chanceler. "E mais um cobertor".

Nenhum país merece isso, pensei na poltrona logo atrás. E a figura não rimava com a obra. Nada a ver com um ministro que ajudara a consolidar a política externa da canalhice. Amorim lembrava um pintassilgo com frio.

Foi por isso que, durante o voo de mais de 10 horas, tive de resistir bravamente à tentação que sempre assaltava Nelson Rodrigues quando topava com o cronista Carlinhos Oliveira, pequeno e franzino, nas ruas do Rio. Quase perguntei a Celso Amorim se queria um pouco de alpiste.

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