Crime da mala: ele sufocou a mulher e tentou enviar o corpo para a França
Conheça um dos casos mais chocantes da história do Brasil

O tempo esfria os fatos. Isso os torna menos interessantes para um jornal que precisa ser preenchido pelo que acontece no dia. Independentemente disso, eu, repórter que sou, conheço casos tão curiosos que gostaria de tê-los coberto, mesmo que trágicos. Situações que colocam em xeque a crença de que somos a espécie mais promissora dos animais da Terra.
Aqui em Santos, há quase 100 anos, uma história que envolve o porto, a colônia italiana e a cidade parou o país. Uma mala com um corpo foi encontrada por acaso durante o embarque em um navio que seguia para a França.
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Um problema no guindaste que içava as bagagens danificou algumas, que acabaram batendo no casco. Uma delas rachou e vazou um líquido escuro; o mau cheiro também saltou ao nariz de quem estava lá.
Quando foram verificar, tratava-se de uma mulher morta, com as pernas serradas e o pescoço quebrado. A frieza, apesar do tempo, ainda é possível sentir.
Na delegacia, confessou o crime e tentou alegar que matou a mulher porque ela o havia traído, usando a chamada “lei da defesa da honra”, algo aceito na época. As testemunhas o desmentiram e relataram a história da carta.
O ano era 1928. A vítima: Maria Mercedes Féa, que tinha jovens 21 anos e estava grávida de seis meses. Ela nasceu em 1907, na Itália, na região da Ligúria. Foi lá que conheceu seu algoz, Giuseppe Pistone, em 1927. Eles se casaram. O marido já havia vivido um tempo no Brasil e a convenceu a se mudar para a terra conhecida pela prosperidade.
Desembarcaram no porto de Santos em 1928. Maria e Giuseppe vieram de mala e cuia e se fixaram em um apartamento na Rua da Consolação, em São Paulo. Supostamente, Giuseppe trabalharia na área do comércio.
A vida era dura para Maria. Mal falava português, apenas italiano. Não tinha amigos e estava começando a vida no Brasil. Vivia reclusa, até ter a companhia da gravidez.
Como boa italiana, tinha personalidade e valores bem definidos. Convivendo com o marido, percebeu algo estranho no comportamento de Giuseppe e, ao investigar, soube que o companheiro pretendia aplicar um golpe financeiro em um primo que vivia na Argentina.
Maria tentou intervir, impedir que isso acontecesse. Sem sucesso, teve um plano audacioso: enviar uma carta à sogra, na Itália, para pedir orientações e conselhos. Acreditou que essa ajuda impediria o marido de agir dessa maneira.

Maria errou: cutucou a onça com vara curta. Claro que Giuseppe descobriu. Ficou tão furioso que discutiu e sufocou a própria esposa com um travesseiro. O ato foi letal. Maria caiu morta e, junto com ela, a prole do casal.
O corpo ficou na casa por três dias. Friamente, Giuseppe tentou apagar o que fez e decidiu despachar a esposa em um trem para Santos e, em seguida, enviá-la para a França.
Pensou em cada detalhe de maneira meticulosamente cruel. Quebrou as duas pernas da esposa para que coubessem na mala, assim como o pescoço. Para disfarçar o cheiro, usou pó de arroz e perfumes. Sabia que isso geraria um odor tão forte que levantaria suspeitas e faria com que a mala fosse aberta.
A artimanha criminosa deu certo por um tempo. A mala foi enviada usando um nome falso e viajou no trem que fez esse mesmo trajeto até o fim do século XX. O plano só deu errado por causa de um pequeno acidente.
A polícia investigou o caso na época, e a imprensa levou o assunto aos quatro cantos do Brasil.

A crueldade do crime e o fato de Maria estar grávida comoveram a nação. A mala, por mais que estivesse preparada para não deixar vestígios nem odores, guardava rastros. Uma etiqueta mostrou que ela foi despachada da Estação da Luz, em São Paulo.
O delegado Armando Ferreira da Costa usou os dados para encontrar o caminhoneiro que a transportou. Em seguida, visitou lojas até descobrir onde a mala foi comprada e, por meio do vendedor que trabalhava na Avenida São João, identificou o cliente.
A polícia também encontrou o endereço onde o casal morava: Rua da Consolação, n.º 34, na época. O local estava vazio, tudo havia sido vendido, e havia manchas de sangue no chão e na parede. Isso confirmou a suspeita de que o marido havia matado a própria esposa.

Giuseppe foi localizado por meio de amigos que receberam visitas de investigadores. Foi pego de surpresa ao chegar em um carro.
Na delegacia, confessou o crime e tentou alegar que matou a mulher porque ela o havia traído, usando a chamada “lei da defesa da honra”, algo aceito na época.
As testemunhas o desmentiram e relataram a história da carta. Giuseppe foi condenado a 31 anos de prisão, mas cumpriu 16. Tornou-se o preso mais famoso do país naquele período e terminou a vida casado com uma alemã, na cidade de Taubaté, em 1952.
O túmulo de Maria Féa é visitado até hoje e está sempre repleto de flores e homenagens. Giuseppe foi esquecido, junto ao passado terrível que ele mesmo cavou.
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