Ele contou todos os segredos dela na rede social por ciúme
Mais um caso de violência contra a mulher que ilustra, passo a passo, o início de um relacionamento abusivo

O ano era 2018. A pandemia ainda não havia sido notada, vivíamos em paz, harmonizados pela esperança do futuro, e eu estava repleto de planos. Minha memória falha ao tentar lembrar como essa mulher, que vamos chamar de Kátia, me procurou. Lembro que ela era mineira, tinha um sotaque forte. Era bonita e muito corajosa. Enfrentou bastante até chegar à televisão.
A história dela é complicada. Executiva no ramo de planos de saúde, foi transferida para São José dos Campos. Trabalhava lá, tinha um bom salário e muitas chances de prosperar. Vivia em um bom bairro, em um bom apartamento. Uma vida que muita gente sonha, mas faltava algo: o amor.
Ela, como eu e você, buscava aquela coceirinha na boca do estômago. Uma reviravoltazinha na vida que chacoalhasse o que estava perfeito e deixasse tudo mais especial. A paz é chata!
Kátia encontrou o que buscava. Era um homem de meia-idade, empresário. Tinha um carro que chamava a atenção, era bem-vestido, pagava a conta, abria a porta do carro. Bastou pouco para que ela criasse uma conexão com ele, que alimentou o maior desejo que a executiva desejava: um borboletário na barriga.
Foram encontros ótimos! Ele era perfeito, gentil, engraçado, atencioso. Ela começou a levá-lo para o santo lar. Dividiu a vida e pensou que, naquela altura, havia encontrado o amor que pouca gente acha.
Uma crise de ciúmes aqui, um descontentamento com um decote ali. Ela acreditou ser excesso de cuidado.
A vida é surpreendente e atira para lados diferentes.
Kátia e o namorado viviam se confessando. Um contava ao outro as histórias que viviam. A executiva dizia de quem gostava ou não no trabalho, as fofocas de bastidor, o que corria na “rádio peão”, os relacionamentos extraconjugais. Fez um dossiê completo. Os dois riam e debatiam as questões, como bons fofoqueiros que eram.
Era o relacionamento dos sonhos, até os primeiros sinais.
Uma crise de ciúmes aqui, um descontentamento com um decote ali. Ela acreditou ser excesso de cuidado. Achou que controlava a situação se impondo.
O namorado começou a levá-la ao trabalho e buscá-la. Isso incomodou, mas ele insistiu. As poucas amigas foram ficando distantes. A vida social passou a ser resumida entre ele e ela. Até a família virava um problema.
Ela ativou um alerta. Inteligente que era, sabia que não era um comportamento saudável, mas talvez fosse tarde demais.
Ela, como eu e você, buscava uma coceirinha na boca do estômago. Uma reviravoltazinha na vida que chacoalhasse o que estava perfeito e deixasse tudo mais especial. A paz é chata!
Kátia pensou, repensou e, em uma crise de ciúmes intensa — quando ele a expulsou do carro e a seguiu até chegar em casa, mesmo ela caminhando pela rua — a executiva chegou ao limite. Comunicou que não queria mais.
O homem conhecia a então ex-namorada. Sabia que ela era uma mulher de palavra forte. E foi aí que o caos foi instaurado!
Kátia tentou seguir a vida, mas teve o prédio invadido por ele. O porteiro teve que intervir, e a fofoca correu o condomínio inteiro, no Jardim Aquarius. A classe média do bairro sabia da história.

O empresário rondava a madrugada toda, para ter certeza de que era notado. Buzinava em altas horas da manhã. Kátia deixou de dormir tranquila, passou a conviver com a insônia. Circulava menos pela cidade, saía de carro para o trabalho e voltava em horários alternados para não ser seguida. Pensou que duraria apenas um tempo, que ele iria desencanar.
Um dia, foi alertada por uma amiga sobre um golpe do qual ela nunca mais se recuperaria. Um perfil no Instagram, criado pelo infeliz. Ele seguiu toda a diretoria do plano de saúde e, dia após dia, publicava textos revelando as fofocas que Kátia lhe contava para entreter o então namorado. No maior ato traiçoeiro, não só publicava, como marcava o @ da pessoa que tinha a história revelada. Dizia saber de tudo por meio de Kátia. Desamores foram expostos, traições reveladas, pessoas de quem ela reclamava, quem ela não gostava…
A executiva passou de alta eficiência a um problema institucional. Foi demitida sumariamente, por justa causa.
Uma crise de ciúmes aqui, um descontentamento com um decote ali. Ela acreditou ser excesso de cuidado.
Kátia não tinha mais razão para permanecer em São José. Tornou-se uma pedra no sapato de muita gente. Ela poderia ter voltado para Minas Gerais, mas decidiu lutar. Buscou ajuda jurídica e passou a montar uma ação contra o homem. Descobriu que não era a única. Ele tinha passagem pela polícia por agredir uma ex-companheira.
Em um ato de valentia, Kátia procurou a televisão e revelou, detalhe por detalhe, cada ação do homem, expondo toda a desgraça que ele promoveu em sua vida. Deixou claro para milhões de pessoas como um relacionamento abusivo começa — e já sabemos como ele termina quando não é interrompido.
Se você passa por algo parecido, busque ajuda. O telefone 180 é a Central de Atendimento à Mulher do governo federal. Além de seguro, você não precisa se identificar.
Uma boa semana!
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