Logo R7.com
RecordPlus

Ele foi atropelado por um caminhão da polícia torcendo pelo time do coração

A história do jogador Acarajé, que perdeu a dignidade para as drogas, mas nunca o sorriso

Bloco de Notas com Gabriel Graciano|Gabriel GracianoOpens in new window

  • Google News

Certa vez, um homem com uma muleta me parou, não me lembro a data.

— Oooh, Record! Oi, repórter! Deixa eu te mostrar minhas ideias!


Eu ouvi! Se tem uma coisa que me orgulho nessa jornada de reportagens é poder dar ouvidos a quem se interessa em dividir comigo alguma palavra. É minha caridade às vezes.

Estava sempre de terno, gravata e camisa, não importava o calor. Era sempre sorridente e tinha uma esperança esquisita no olhar. Me peguei imaginando quais eram os sonhos dele. Foto reprodução instagram/ @galeriasantista

O cara que é taxado de louco por muitos ganha comigo cinco minutos de importância. O repórter da Record o ouviu, o tratou com respeito e humanidade.


O homem deixou a muleta pendurada, arrancou um papel do bolso e me deu três ou quatro ideias de coisas que realmente saíam da “casinha”, mas, para olhares mais profundos, mostravam a inocência daquele rapaz. Ele queria passar recados:

Estava sempre de terno, gravata e camisa, não importava o calor. Era sempre sorridente e tinha uma esperança esquisita no olhar. Me peguei imaginando os sonhos dele.


As ideias, meio maluquinhas, eram desenhadas.

Acarajé morreu. Estava dormindo ao lado do estádio do Corinthians. Foi esmagado por um caminhão do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Sonhava em ver os agentes usando os uniformes que ele desenhou.

Um time de futebol para a Polícia Militar, algumas ideias de programas de TV que não vou me lembrar, outro uniforme de time para o Balanço Geral do Gotino. Todas elas à venda por 15 ou 20 mil reais, que, nas palavras dele, era um dinheiro que lhe mudaria a vida.


Nos poucos minutos que eu tive em contato com ele, me cativei. Foram uns quatro ou cinco encontros em anos.

— Que ideia ótima! Vou repassar lá para a TV, viu! E você tá morando onde?

Era sempre um canto qualquer em alguma rua qualquer, todas sem um pingo de dignidade. Perguntei dos vícios, nunca assumiu nenhum.

Na última vez que o vi, lhe encontrei ao lado do estádio do Santos. Era tempo de repercutir o Neymar e a vinda dele, o rapaz estava lá também e muito bem vestido, na comparação com os demais. Comprei três refrigerantes e dividimos: eu, o cinegrafista e ele. Nunca soube o nome do idealista, mas sempre vi alma naquele rapaz.

Um dia, meu amigo e repórter, Paulo Moreira, me mandou uma matéria antiga de outro canal. Era o rapaz de rua que conhecíamos. Durante uma fase da vida, foi jogador profissional. Em 2014, estava há um ano e meio sem usar drogas e disputava o Campeonato Baiano pelo Galícia, depois de se internar em uma clínica de reabilitação na Bahia. Foi lá que ele ganhou o apelido de Acarajé, gostava muito da iguaria.

Essa história tem um hiato, ela acaba nos quatro minutos e pouco da reportagem e recomeça nas histórias do início do texto. Perguntas ficam no ar…

Nunca soube o nome do idealista, mas sempre vi alma naquele rapaz. Durante uma fase da vida foi jogador profissional. Em outra, virou apenas mais um homem invisível nas ruas

Onde ele machucou a perna? Foi algum vírus? Alguma enfermidade?

Acho que ele deve ter me contado. Lembro de ouvir que ele recebia uma aposentadoria mensal que talvez explicasse o motivo de ele nunca me pedir dinheiro.

O Acarajé teve um fim triste. Não nos vimos no último semestre de 2025. O encontrei no Instagram. Era um vídeo dele segurando um pedaço de madeira ao lado de uma viatura da polícia.

Eu ri, achei divertido e surpreendente. Era um vídeo gravado em São Paulo, bem longe de Santos, onde nos encontrávamos.

Onde ele estava dormindo?

Como vivia?

Soube no dia seguinte! Acarajé morreu. Estava dormindo ao lado do estádio do Corinthians. Foi esmagado por um caminhão do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Um acidente. Era um amigo da corporação. Sonhava em ver os agentes usando os uniformes que ele desenhou.

O dia da morte? Um jogo do Santos e Bragantino, num domingo de placar zero a zero.

Vou torcer para que a dignidade o encontre onde estiver

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.