Não aguento mais dar notícias de feminicídio
O jornalismo denuncia um comportamento crescente que nenhuma política pública consegue impedir

Acordei hoje com uma dor de cabeça enorme. Como de costume, visualizei os grupos, li os jornais, assisti à televisão.
O assunto era um só: mulheres assassinadas.
Em seguida, fui averiguar as matérias que faremos hoje. Os repórteres da manhã tinham um assunto: velórios de feminicídio. Dois.
Ao menos uma vez por semana, preciso noticiar um caso desses. Já contei histórias horrorosas: um homem que matou a família da ex-companheira para se vingar dela; uma mulher que foi esfaqueada por um “amigo” que ela não quis namorar; uma vítima que morreu em um consultório médico ao lado da filha pequena — o marido é um policial que atirou a sangue frio.
Ele prefere virar um assassino a deixar que ela vá embora e seguir o próprio caminho.
As histórias acontecem de diferentes maneiras. Umas com tiros, outras com facas e marretas. A crueldade dos atos não tem tamanho.
Muitas das vítimas carregam um papel na bolsa chamado medida protetiva. Uma tentativa da Justiça em proteger mulheres, mas temo a efetividade de uma folha impressa em um sulfite contra uma pessoa armada.
Eu vi também outras mudanças ao longo dos últimos anos, como a Lei Maria da Penha, inspirada em uma história horrorosa, que mudou a maneira como o país protege as mulheres.
O aumento da pena de assassinos feminicidas para 40 anos de prisão, as delegacias da mulher, as patrulhas das guardas municipais voltadas à proteção da mulher, os botões do pânico.
Tudo é bem-vindo. Tudo ajuda. Mas nada impede.
Os números estão aí. Ano passado foram 1.568 assassinatos, 12 mulheres a cada 24 horas.
O que fizemos até aqui pode ter amenizado o impacto desse tipo de crime, mas ele continua acontecendo, e o volume assusta.
Muitas das vítimas carregam um papel na bolsa chamado medida protetiva. Uma tentativa da Justiça em proteger mulheres, mas temo a efetividade de uma folha impressa em um sulfite contra uma pessoa armada.
As perguntas que faço foram construídas nesses oito anos de jornalismo. Qual é o motivo que leva um homem a matar uma mulher? O que tira desse homem a razão que bloqueia uma atitude passional como essa?
Esses questionamentos antecedem o ato. São as decisões que o assassino toma diante das possibilidades. E elas são companheiras de outros sinais que também conhecemos: o silenciamento, o afastamento da família, as agressões físicas e psicológicas.
Atitudes que se acoplam à ira de um assassino de mulheres antes do homicídio acontecer.
Todas elas são oportunidades de proteção, de observar e prevenir um feminicídio. É preciso monitorar de perto no primeiro sinal.
Ele chega às autoridades como um boletim de ocorrência, geralmente, ou em uma ligação para o 190.
Outra coisa que me incomoda é a falta de saúde mental. Na grande maioria dos casos, não são homicidas de “carreira”. São homens que mataram por não saber controlar as emoções, o que as pessoas chamam de “perder a cabeça”.
Que calcularam que nada mais valeria a pena, nem o egoísmo da própria liberdade, do que perder a honra de não ser bem-quisto por uma ex-companheira que ele maltratou, humilhou e agrediu. Ele prefere virar um assassino a deixar que ela vá embora e seguir o próprio caminho.
Existe um prejuízo moral imaginário na mente desses homens, algo inafiançável. Um desconforto que é insubstituível, que só é amenizado por outro ainda maior, a vingança.
Eu fico me perguntando: quando vamos ensinar as pessoas a lidar com os desencontros dos sentimentos?
Quando vamos aprender que sentir não muda destino, que ninguém é de ninguém?
Que amanhã você se apaixona de novo, arranja outra?
Que prender uma pessoa não é tê-la, é encarceramento?
Que o amor também é deixar, soltar.
São cálculos elaborados. Eu demorei anos para aprender e nunca tratei desses assuntos na escola. Tive que pagar 500 reais por mês para que um psicólogo me instruísse.
Tudo é bem-vindo. Tudo ajuda. Mas nada impede.
A política pública funciona para contabilizar e mensurar os feminicídios, mas tem pouca efetividade na prevenção, porque tem foco no tratamento do sintoma e quase ou nenhum trabalho voltado à causa.
É triste comemorar o dia 8 de março, meu aniversário e a data mais feminina do ano, sem enxergar esperança de mudança.
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