Um tombo de bicicleta tirou a visão do Flávio; agora ele treina para ver a vida sem os olhos
A história do segurança de carro-forte que voltou a ver a esperança através da cegueira

Conheci o Flávio em uma matéria. Fui visitar uma instituição que ampara pessoas deficientes visuais. Ele é alto, comunicativo, bem apresentável. Conversando com ele, é possível perceber que é uma pessoa desenrolada. Criativa para superar os problemas da vida.
Flávio segurava uma bengala dobrada nas mãos e estava quieto. As mulheres da instituição falavam por ele. Diziam o que fariam, como gravaríamos, o que tinha para mostrar. Eu, em meio a tantas orientações, observava ele. Era o material mais humano do meu trabalho naquela tarde.
Um universo se abriu para ele. Flávio encontrou no Lar das Moças Cegas um local onde vivia a esperança que ele havia perdido.
O lugar era o Lar das Moças Cegas. Instituição quase secular que resiste ao tempo pela necessidade. Ela ensina pessoas que não veem a serem independentes.
Começou amparando mulheres marginalizadas pela deficiência visual e, a partir dos anos 80, não tem distinção com os pacientes. Devolve o brilho da vida com técnicas, adaptações e medicina.
São aulas do uso da bengala, passeios nas ruas, sinais, braile, viagens de ônibus, travessias. O local também oferece fisioterapia, oftalmologia, psicologia… A lista é enorme e o trabalho é encantador. Você vai perceber através da história do Flávio.
Entrevistei-o em outubro. Estava sem a visão havia 2 anos. Ele tinha se afastado do trabalho por uma questão de saúde ocupacional e caiu de bicicleta em um passeio em Santos. Aqui existem muitas bicicletas, muitas mesmo. Um tombo pequeno, viu!
Mas ele bateu a cabeça e isso gerou uma lesão no nervo óptico de um olho, o que lhe causou uma cegueira parcial. Otimista, ele seguiu a vida. Fazia as atividades todas, saía, dirigia.
O tempo foi cruel com ele e o outro olho começou a enfrentar a lesão no nervo óptico também. Correu para um oftalmologista neurológico que conseguiu impedir a cegueira total, ficou com uma porcentagem pequena da visão de um dos olhos.
As mulheres da instituição falavam por ele. Diziam o que fariam, como gravaríamos, o que tinha para mostrar. Eu, em meio a tantas orientações, observava ele em silêncio. Flávio segurava uma bengala dobrada nas mãos e parecia esperar. Era o material mais humano do meu trabalho naquela tarde.
Foram tempos difíceis. Flávio travou a vida. Sem ver, nada mais era interessante. Não podia dirigir, não tinha o desejo e a independência de sair de casa. Vivia se batendo, foi paralisando, assim como o funcionamento da visão. 2 anos nesse sofrimento.
A situação só mudou quando ele buscou o Lar das Moças Cegas. Assim que começou a frequentar, conheceu gente que vivia o mesmo drama que ele sorrindo.
No começo estranhou, mas foi aprendendo a localizar objetos, a se situar sem ver, aprendeu a ler em braile, a usar os sinais em relevo das ruas, escolheu uma bengala.Um universo se abriu para ele. Flávio encontrou no Lar das Moças Cegas um local onde vivia a esperança que ele havia perdido.
Tímido, foi a primeira entrevista que ele deu. Conseguiu porque estava nutrido de autoestima, tinha até de sobra. Ficou falante e, sem saber, me encantou!Nunca mais esqueci essa história. E em todas as vezes que passo na frente do espaço que fica próximo de casa, tenho um sorriso automático. Lembro dele e das pessoas que trabalham criando um mundo possível de ver sem os olhos.
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