Blog do Nolasco Relatório produzido pela PM omite falhas na segurança do dia 8 de janeiro

Relatório produzido pela PM omite falhas na segurança do dia 8 de janeiro

Blog teve acesso com exclusividade a relatório do passo a passo da corporação até ocupação das sedes dos Três Poderes

  • Blog do Nolasco | Thiago Nolasco, do R7, em Brasília

Trecho de relatório da PMDF sobre os atos de 8 de janeiro em Brasília

Trecho de relatório da PMDF sobre os atos de 8 de janeiro em Brasília

Reprodução

O Blog teve acesso com exclusividade a relatório do passo a passo da corporação até a ocupação das sedes dos Três Poderes. Documentos complementares revelam que a Polícia Militar do Distrito Federal tentou omitir falhas de planejamento na operação de segurança.

A Polícia Militar do Distrito Federal elaborou um relatório técnico sobre a atuação da corporação durante a manifestação do dia 8 de janeiro, quando extremistas depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. O relatório é a resposta a um pedido de explicações que foi enviado à Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão.

O Blog teve acesso aos documentos que demonstram que a corporação omitiu supostas falhas do Departamento de Operações (DOP) no planejamento do trabalho de segurança para evitar os atos de vandalismo. O órgão não determinou qual efetivo cada batalhão deveria disponibilizar para atuar na manifestação. Mas esse não foi o único erro. A corporação e outros órgãos de segurança avaliaram que a manifestação, que reuniu cerca de 10 mil pessoas, seria menor, mas quando tiveram as informações corretas, houve demora na tomada de decisões.

No dia 6 de janeiro, o chefe em exercício do Departamento de Operações, o coronel Paulo José Ferreira de Souza, assinou eletronicamente o aviso para os comandantes de quatro batalhões (1º CPR, 2º CPR, CPME e CPTRAN) sobre a necessidade de segurança para a realização de possível manifestação nos dias 7, 8 e 9 de janeiro em Brasília, mas o recomendando nessas situações seria o envio de um plano de operações ou ordem de serviço. 

Em outro documento ao qual o Blog teve acesso, o comandante do 1º Comando de Policiamento Regional, coronel Adriano André dos Santos Henriques, deixa clara essa falha. Ele afirma que "para operações de grande monta e complexidade, o planejamento da mesma ocorre em âmbito do Departamento de Operações, por meio de Plano de Operações ou Ordem de Serviço, pois envolve o acionamento de todos os setores operacionais e administrativos da Polícia Militar do Distrito Federal, documento o qual não foi recebido pela administração [do batalhão]".

O comandante do 1º Comando de Policiamento ainda afirma que no dia 8 de janeiro o efetivo de folga estava de sobreaviso por determinação do subcomandante geral da PM. O então subcomandante da PMDF, coronel Klepter Rosa, é hoje o comandante-geral da Polícia Militar, escolhido pelo interventor federal, Ricardo Cappelli. O Blog teve acesso a uma mensagem enviada pelo coronel Klepter no grupo de oficiais. O então responsável pelo subcomando-geral da PM reforça a decisão de deixar a tropa de sobreaviso em casa. O mais adequado, segundo fontes relataram ao Blog, era deixar os homens de prontidão já nos batalhões para emprego imediato, em caso de necessidade.

Os prédios públicos começaram a ser invadidos por volta de 14h45 do dia 8 de janeiro. A PM conseguiu retomar o controle das instalações do Supremo Tribunal Federal apenas três horas depois (17h30), do Palácio do Planalto (17h50) e, por último, do Congresso Nacional (18h30). Todos os documentos obtidos pelo Blog não apontam omissões dos agentes de segurança, mas sim uma série de falhas.

A primeira delas é que os agentes de segurança pública esperavam uma manifestação com "baixa adesão". A PM do Distrito Federal alega que não foi alertada por nenhum órgão de inteligência sobre os riscos provocados pelos manifestantes. "Nenhum documento de inteligência foi recebido por esta Agência via canal técnico oriundo de Agências de Inteligência integrantes do Sistema de Inteligência de Segurança Pública ou do Sistema Brasileiro de Inteligência."

Mas a segurança e o emprego de homens não foram reforçados após a verificação do deslocamento de 132 ônibus e mais de 5.000 pessoas para Brasília. A Polícia Militar teve acesso à informação da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) quatro horas antes dos protestos violentos e da destruição do patrimônio público. No próprio relatório é possível notar a cronologia das informações:

>> no dia 4 de janeiro de 2023 (quarta feira), em contato com ponto focal da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em busca de informações sobre possíveis caravanas oriundas de outros Estados com destino ao Distrito Federal, este Centro foi informado que nenhum veículo havia sido registrado até então.

>> no dia 5 de janeiro de 2023 (quinta feira), nova consulta à ANTT foi feita às 17h30, quando aquela agência informou que ainda não havia registro de veículo com a característica informada no sistema, frisando inclusive que, para o período específico, a quantidade de ônibus circulando estava abaixo do normal para fins de semana.

>> no dia 6 de janeiro de 2023 (sexta feira), às 14h15, a ANTT informou sobre atualização de dados no sistema e que teria sido verificado o registro (autorização de viagem) para 23 ônibus e um total de 797 passageiros; no mesmo dia, às 17h50, houve nova atualização de registros para 43 ônibus com 1.622 passageiros;

>> no dia 7 de janeiro de 2023 (sábado), às 12h, a ANTT informou nova atualização de dados para 105 ônibus e 3.951 passageiros;

>> no dia 8 de janeiro de 2023 (domingo), houve atualização de dados às 9h46, para 133 ônibus e 5.021 passageiros; de 2h do dia 7 de janeiro (sábado) até 20h15 do dia 8 de janeiro (domingo), esta Agência de Inteligência acompanhou e monitorou a chegada dos 132 ônibus ao DF, tendo assessorado os principais órgãos diretamente envolvidos com a operação, conforme Protocolo de Operações Integradas da SSP/DF.

O Blog pediu o posicionamento da Polícia Militar do Distrito Federal e aguarda resposta. 

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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