Macron erra aposta, vê extrema-direita virar o jogo e agora só tem uma carta na manga
O presidente francês errou em todas as análises nesse primeiro turno das eleições. Aliás, foi bem pior do que se imaginava

A frase de um analista do americano “Wall Street Journal” resume bem como foram as eleições na França: “Se estiver num casino com Emmanuel Macron, não imite as suas apostas”.
O tiro no pé do presidente francês começou há três semanas, quando ele dissolveu o parlamento e convocou novas eleições. Ele só tinha um objetivo: ganhar fôlego político. Macron ficou assustado com a vitória da extrema-direita na votação no Parlamento Europeu. E tinha certeza que o resultado seria diferente para Assembleia Nacional (o equivalente à Câmara dos Deputados).
Países europeus ficaram assustados com essa decisão. Parecia bem improvável que em 21 dias os eleitores iam “comprar” as ideias do presidente, que vê sua popularidade cair a cada dia.
Para ficar mais fácil de entender: a França tem um sistema semipresidencialista, ou seja, o presidente é eleito pelo voto popular e representa o Estado. Já o primeiro-ministro representa o governo. O nome é escolhido pela maioria do parlamento. O premiê acaba indicado por Macron, mas não pode ser tirado do cargo, a não ser que o presidente convoque novas eleições, o que ocorreu em junho desse ano.
Macron disse que os eleitores precisavam definir um novo futuro e decidiu recorrer às urnas. Ele tinha certeza absoluta que viraria o jogo e ganharia maioria absoluta no parlamento, mas viu sua aliança ficar na modesta terceira posição com 20% dos votos. Ou seja, partido dele encolheu. Macron perdeu até para uma aliança feita de última hora por partidos de esquerda, que ficou com 28% dos votos. O grande vencedor foi o partindo RN, de extrema-direita, que confirmou o favoritismo e ficou com 33% dos votos.
A carta na manga de Macron agora seria fazer uma aliança histórica com a esquerda-centrista e tentar barrar os extremistas ligados à Marine Le Pen no segundo turno das eleições. Mas a situação é bem difícil. O recado foi dado nas urnas. A direita avança de uma forma que não se via desde a retomada do controle do país após derrotar os nazistas na Segunda Guerra Mundial.
Agora, com a maioria na mão, a França vai ver uma situação que só ocorreu três vezes na história: um governo de Coabitação. Isso ocorre quando o presidente e o premiê são de partidos políticos diferentes. Uma situação complexa e que vai paralisar o governo. O primeiro-ministro pode, por exemplo, mexer nos ministros e fica como uma espécie de regente de um “governo provisório”. Macron ficaria como chefe de Estado e cuidaria da política externa. O jogo virou.
Se confirmar o favoritismo no segundo turno, o provável próximo primeiro-ministro vai ser Jordan Bardella, de 28 anos, principal nome do partido RN, de Marine Le Pen, histórica defensora da extrema-direita. Eles já têm três linhas claras a seguir: “combater” o avanço do islamismo no país, controlar severamente a imigração e uma defesa econômica para o que eles chamam de “os verdadeiros franceses”.
Macron tem seis dias para virar o jogo. Mas, como disse o analista do WSJ, melhor não contar com o que ele acredita. As cartas estão cada vez menos na mesa.














