O último beijo do gordo

A televisão, a comunicação, o jornalismo, a arte, tudo vai perdendo a graça. Vai perdendo força, inteligência, intelectualidade. 

Jô Soares morreu hoje, aos 84 anos, em São Paulo

Jô Soares morreu hoje, aos 84 anos, em São Paulo

Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo - 22.11.2017

Quando alguém com a genialidade de Jô Soares morre, penso que o mundo, aos poucos, vai morrendo também. A nova geração, da qual faço parte, não me parece pronta pra "tocar o barco". Não falo em ter que substituir quem é insubstituível na história. Falo em continuar a história com a mesma maestria.

Passei inúmeras madrugadas vendo Jô entrevistando as mais diversas personalidades e, para cada uma delas, o tom das conversas era sempre na medida. Como um bom comunicador, Jô Soares sabia a hora certa de ser engraçado, cômico, ácido, sério. Sabia, como poucos, explorar os múltiplos talentos.

Eu conheci o Jô Soares da televisão. O Jô Soares do talk show. O bom entrevistador. Mas ele era muito mais do que isso. Era ator, escritor, jornalista, diretor, humorista. Era "o Jô Soares".

Ele soube sair de cena. Saiu dos holofotes quando considerou ser o momento certo de deixar saudades. Adoraria ter o conhecido. Adoraria ter tomado um único café com ele pra enchê-lo de perguntas, pra ter a aula que faculdade nenhuma me daria.

A televisão, a comunicação, o jornalismo, a arte, tudo vai perdendo a graça. Vai perdendo força, inteligência, intelectualidade. Não existirão outros Jô Soares, Silvio Santos (que desejo vida longa), Gugu, Hebe Camargo, Ricardo Boechat e tantos outros nomes insubstituíveis, sim. Mas precisamos ter quem seja capaz de honrar o legado desse pessoal que construiu a história usando, apenas, o talento. Sem tecnologia, sem tik tok, YouTube...

Jô Soares vai e esvazia um pouco mais nossas referências. Por ora, elas vão ficando vivas, apenas, na nossa memória.

Um último beijo, gordo!

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