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Afonso Paciléo

Caso de Itumbiara: tragédias não nascem do nada, mas a culpa nunca é da vítima

Precisamos falar com mais seriedade sobre responsabilidade emocional

Empreendendo Direito|Afonso PacileoOpens in new window

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Thales Machado, secretário do governo de Itumbiara, que atirou nos filhos e se matou Reprodução/Record Goiás

O caso ocorrido em Itumbiara, no estado de Goiás, choca, revolta e exige reflexão. Um homem, secretário municipal, atirou nos próprios filhos e depois tirou a própria vida. Não há atenuantes. Não há justificativa. O que houve ali foi um crime brutal cometido por alguém que perdeu completamente qualquer referência moral, emocional e racional.

Ponto final.


Mas parar na indignação é pouco. Tragédias dessa magnitude exigem mais do que manchetes. Exigem consciência social.

Segundo as informações divulgadas, o autor teria recebido vídeos que indicariam uma traição conjugal. Um casamento em crise. Um rompimento emocional profundo. Nada disso explica o crime. Nada. Traição não mata filhos. Frustração não autoriza violência. Dor emocional não transforma ninguém em juiz da vida alheia.


A responsabilidade é exclusivamente de quem comete o ato.

Ainda assim, existe um debate necessário e desconfortável que não pode ser evitado. Ações humanas geram reações humanas. E nem todas as reações são racionais, equilibradas ou previsíveis.


Dizer isso não é culpar a mulher, não é relativizar o crime e não é justificar o injustificável. É reconhecer um dado básico da convivência humana. Ninguém controla como o outro vai reagir às suas ações, especialmente quando o outro está emocionalmente fragilizado, adoecido ou sem suporte psicológico.

O que ocorreu em Itumbiara é, sim, uma reação absolutamente errada, criminosa e deslocada a uma ação anterior. Uma reação translocada, desproporcional, patológica. E é justamente por isso que esse debate precisa ser levado a sério. Ações têm consequências, e nem sempre conseguimos prever a gravidade das reações que despertamos.


O erro fatal desse homem não foi ter sofrido uma traição. Foi não buscar ajuda, não aceitar o fim, não suportar a frustração e transformar dor em violência extrema. Isso é doença emocional não tratada. Isso é colapso psíquico. Isso é falha individual e também social.

Esse tipo de tragédia não nasce no dia do crime. Ela é precedida por sinais claros. Controle excessivo, dependência emocional, ciúme patológico, discurso de posse, dificuldade extrema de lidar com perdas. Sinais que muitas vezes são ignorados, normalizados ou romantizados em nome de um amor que, na prática, já virou risco.

É aqui que entra a reflexão coletiva.

Precisamos falar com mais seriedade sobre responsabilidade emocional. Não para vigiar comportamentos alheios, mas para entender que nossas escolhas impactam pessoas reais, com limites reais. Não temos controle sobre as reações dos outros, mas temos, ou deveríamos ter, consciência sobre o potencial impacto das nossas ações.

A mensagem final é dura, mas necessária. Ninguém é responsável pela violência do outro. O crime é sempre de quem o comete. Mas ignorar a dimensão humana das ações é fechar os olhos para riscos reais.

O que aconteceu foi monstruoso. As vítimas são inocentes. O autor errou de forma absoluta.

Mas se essa tragédia servir para reforçar a importância da saúde mental, do diálogo, da prevenção e da responsabilidade emocional, talvez reste algum aprendizado em meio ao horror.

Porque tragédias não se explicam. Mas algumas podem, e devem, ser evitadas.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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