A engenharia política do PVC: a inauguração dos quatro canos
Senador petista inaugura comedouro para cachorros e mostra que, na política, até quatro canos de PVC merecem fita e discurso
Espaço Prisma|Marine Salgado, especial para o R7

Se você achava que já tinha visto de tudo na política brasileira, prepare-se. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, acaba de protagonizar um dos episódios mais emblemáticos – e involuntariamente cômicos – do teatro político nacional: a inauguração solene de um comedouro para cães feito com quatro canos de PVC.
Sim, você leu certo. Quatro. Canos. De. PVC.
A cerimônia aconteceu no Porto do Povo, em Santana (AP), com a presença do governador Clécio Luís (União-AP). O espaço ganhou o nome poético de “Espaço Orelha”, em homenagem ao cão brutalmente assassinado em Florianópolis no início deste ano.
A estrutura consiste em tubos de PVC fixados em um muro, com potes para ração e uma pequena cobertura para proteção solar. Simples? Extremamente. Necessário? Provavelmente. Digno de inauguração com senador, governador e toda pompa protocolar? Aí mora a questão.
No vídeo divulgado pelo próprio Randolfe no Instagram – que já ultrapassou as 100 mil visualizações –, o senador aparece orgulhoso e declara: “Um espaço feito com amor, que reforça nosso compromisso com o bem-estar animal.” Internautas chegaram a questionar se o vídeo não seria uma criação de inteligência artificial, tamanha a incredulidade.
Entenda-se: ninguém aqui é contra o bem-estar animal. Alimentar cachorros de rua é um gesto humanitário e necessário. O problema não está na obra em si – modesta, prática e funcional –, mas na espetacularização política de algo que, convenhamos, poderia ter sido feito por qualquer grupo de voluntários numa tarde de sábado com uma visita à loja de materiais de construção.
Nas redes sociais, o vereador paulistano Rubinho Nunes (União-SP) ironizou: o senador “inaugurou uma grande obra, o ápice da engenharia moderna… um comedouro de cachorro feito de cano de PVC!”. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) compartilhou o vídeo com a legenda: “‘Grande obra’ de senador da esquerda viraliza!”.
Internautas comentaram: “R$ 1 milhão só aí. Deve ter gastado milhões nessa obra dos pets” e “Dezesseis anos de senado para inaugurar quatro comedouros feitos de cano PVC”. Não há dados oficiais sobre custos, mas o simbolismo é cristalino: na política brasileira, até o mais simples vira palanque.
O Brasil enfrenta crises de infraestrutura, educação e saúde. O Amapá, especificamente, ainda se recupera do apagão histórico de 2020 que deixou o estado às escuras por semanas. Nesse contexto, ver um senador da República, líder do governo no Congresso, inaugurando quatro canos de PVC como se fossem a Ponte Rio-Niterói beira o surrealismo.
Não se trata de menosprezar ações de proteção animal. Trata-se de questionar a teatralização política de iniciativas que, por sua própria natureza, deveriam ser discretas e desprovidas de holofotes.
O “Espaço Orelha” alimentará alguns cães de rua em Santana. Isso é bom. Mas alimentou também – e muito – o debate sobre a vaidade política que transforma qualquer coisa, por menor que seja, em oportunidade de autopromoção. Na política brasileira, como ficou provado mais uma vez, até o PVC tem sua hora de glória.
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