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A melhor entrevista de uma cobertura jornalística, algumas vezes, é o silêncio

Talvez nunca mais veja as pessoas que perderam familiares na tragédia de Juiz de Fora; mas carrego a certeza de que o melhor naquele momento foi respeitar

Espaço Prisma|Paola Vianna*

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Pietro foi umas das 70 pessoas que morreram soterradas em Juiz de Fora
Pietro foi umas das 70 pessoas que morreram soterradas em Juiz de Fora Reprodução/RECORD

Passavam de 90 horas de buscas por um menininho de apenas 9 anos. Eu pensava no meu filho, quase da mesma idade, o tempo todo. Pietro foi umas das 70 pessoas que morreram soterradas em Juiz de Fora, Minas Gerais, após uma trágica chuva. A casa dele desabou em um dos desmoronamentos de terra. A cidade sofreu consequências devastadoras.

Posicionada para o ao vivo, eu ficava de olho em tudo o que acontecia.


Eram viaturas, cães farejadores, bombeiros, voluntários, homens do exército, sirenes. Uma grande mobilização. Todos corriam.

Parada em frente a câmera, observei algumas pessoas de canto, sem falar nada. Era como se elas não ouvissem o que se passava ali. Só havia espaço para a dor. Muita dor. Tive então a certeza de ser a família da criança. O repórter sabe, eu só chequei.


Repórter Paola Vianna
Repórter Paola Vianna Reprodução/Arquivo pessoal

Envolvida na cobertura, refleti, como me aproximar de pessoas que viviam um sofrimento tão grande? Um dia antes, elas já haviam perdido, também presas ao escombros, outros três parentes, sendo uma delas a irmã de Pietro, Sofia, de 6 anos só.

Cheguei perto deles com o microfone baixo e ouvi, “não queremos falar com você”. É claro que eu queria entrevistá-los, mas não insisti, só fiquei próxima. Logo vieram umas palavras, um desabafo por trás das câmeras sobre o que havia acontecido nos últimos dias e uma foto da criança ainda com vida que eles me autorizaram a divulgar na reportagem.


Meu coração sentiu, mas era necessário manter a concentração para seguir o trabalho. Continuei ali, entrei ao vivo mais algumas vezes e um dos parentes, emocionado, se despediu de mim com um toque no meu ombro acompanhado de um “obrigado”. Entendi o gesto.

Pietro foi achado no dia seguinte sem vida. A última vítima a ser localizada.


Talvez eu nunca mais veja essas pessoas, também não sei como elas vão viver com perdas tão inesperadas. Mas carrego a certeza de que naquele momento o melhor a se fazer foi respeitar o silêncio! O silêncio que tanto fala.

*Paola Vianna é repórter da RECORD

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