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Acabar com a escala 6x1 não vai resolver o problema — vai piorar

O trabalhador brasileiro produz menos de um quarto do que o americano por hora trabalhada. Mudar a quantidade de horas sem mudar essa realidade é ilusão

Espaço Prisma|Héctor Farto*, especial para o R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O trabalhador brasileiro tem produtividade inferior à do trabalhador americano, gerando apenas US$ 21,44 por hora trabalhada, comparado a US$ 94,80 nos EUA.
  • A proposta de reduzir a jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais pode resultar em queda do PIB e perda de empregos, sem resolver o problema da baixa produtividade.
  • O Brasil enfrenta desafios estruturais, como falta de tecnologia e infraestrutura deficiente, que precisam ser abordados antes de discutir a jornada de trabalho.
  • Investimentos em tecnologia, educação e desburocratização são essenciais para aumentar a riqueza gerada por hora trabalhada, em vez de apenas mudar a quantidade de horas trabalhadas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Reduzir jornada sem aumentar produtividade é como tentar encher um balde furado Inteligência artificial/Microsoft Copilot

O brasileiro trabalha, em média, 39 horas por semana — uma hora a mais do que o americano. Só que cada hora do trabalhador dos Estados Unidos gera US$ 94,80 de riqueza. A hora do trabalhador brasileiro gera US$ 21,44. Menos de um quarto.

Esses números não são de um blog de opinião: são da Conference Board, consultoria internacional que avaliou 131 países, e da OIT, a Organização Internacional do Trabalho.


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O Brasil ficou em 78º lugar nesse ranking. Atrás de Uruguai, Argentina e Chile. Com uma produtividade equivalente ao que o país tinha há sete décadas. E nos últimos 40 anos, enquanto os EUA aumentaram sua produtividade em 65%, o Brasil avançou apenas 20%. Nos últimos dez anos, praticamente nada.

É nesse cenário que o Congresso Nacional decidiu colocar em pauta a redução da jornada de trabalho — de 44 para 36 horas semanais, sem corte de salário. A CCJ do Senado aprovou a proposta em dezembro de 2025, e ela segue tramitando.


O debate é legítimo. O problema é que virou o centro de tudo, enquanto a questão de fundo — por que o Brasil produz tão pouco por hora trabalhada — permanece sem resposta.

Reduzir jornada sem aumentar produtividade é como tentar encher um balde furado. O FGV/Ibre calculou que a mudança, sem ganhos estruturais de eficiência, pode reduzir o PIB em até 7,4% — impacto semelhante ao da recessão de 2014 a 2016.


O Centro de Liderança Pública estima corte de até 638 mil empregos formais e queda de R$ 88 bilhões na atividade econômica. A Fecomercio-SP aponta que o custo da hora trabalhada subiria 22%, percentual que seria repassado aos preços para o consumidor.

A conta não fecha — e quem paga são justamente os trabalhadores de menor renda e menor escolaridade, exatamente aqueles que a proposta diz querer proteger.


Mas o problema real não é a jornada. É o ambiente em que o trabalhador opera. O Brasil tem apenas 10 robôs por 10 mil trabalhadores, segundo a Federação Internacional de Robótica. A média mundial é 162.

A infraestrutura é precária. A carga tributária sobre empresas é uma das mais altas do mundo. Um empresário gasta tempo e dinheiro enormes em obrigações que não geram um centavo de produto. E o trabalhador que mora na periferia chega ao serviço depois de duas horas de transporte público. Já cansado. Já menos produtivo.

Não é possível modernizar o país com leis que ignoram essa realidade. O que o Brasil precisa não é de decreto — precisa de investimento em tecnologia, educação profissional de qualidade, desburocratização e infraestrutura que funcione. Essas são as alavancas que transformam hora trabalhada em riqueza real.

O debate sobre jornada pode ter seu lugar — em países que já resolveram o problema da produtividade, como Dinamarca e Alemanha. Aqui, ele chegou na hora errada e com as prioridades invertidas. Discutir quanto tempo o trabalhador passa no emprego antes de discutir o que ele produz nesse tempo é, no mínimo, colocar o carro na frente dos bois.

Economia não funciona por decreto. E bem-estar social também não.

* Hector Farto é o pseudônimo de um jornalista formado em São Paulo, com mais de 20 anos de experiência em grandes redações, onde construiu uma leitura própria da atualidade. Nativo da mídia impressa, atua há mais de 15 anos no ambiente online.

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