Análise: conflito EUA-Irã eleva petróleo e amplia volatilidade nos mercados globais
Podemos assistir a um choque energético com repercussões inflacionárias globais e revisões no crescimento econômico
Espaço Prisma|Cesar Queiroz, especial para o R7

O que estamos vivendo neste momento com o conflito entre Estados Unidos e Irã vai muito além de uma tensão diplomática localizada. Trata-se de um episódio geopolítico em uma das regiões mais sensíveis do mundo quando o assunto é energia.
O Golfo Pérsico concentra parte relevante da produção e do escoamento global de petróleo, e qualquer escalada militar ali tem reflexo imediato no mercado internacional.
O barril já reagiu, ultrapassando a casa dos US$ 80, e enquanto houver incerteza sobre a extensão do conflito, a tendência é de manutenção da pressão altista.
Petróleo é uma commodity global, precificada em dólar, e o Brasil, embora seja um grande produtor, exporta majoritariamente petróleo bruto e importa derivados. Isso significa que não estamos blindados da volatilidade externa.
Num primeiro momento, é possível sim que vejamos impactos no preço-base das refinarias. Ainda que haja particularidades na política de preços interna, o mercado internacional acaba influenciando. E, quando o combustível sobe, o efeito é em cascata.
Transporte e logística sentem imediatamente por conta do diesel, pressionando fretes e distribuição. O agronegócio sofre duplamente: pelo aumento dos combustíveis nas operações de plantio e colheita e pela alta dos fertilizantes, muitos ligados à cadeia do petróleo.
A indústria química e de plásticos também é diretamente impactada pela elevação da nafta, enquanto a aviação enfrenta aumento no custo do querosene.
Há ainda um ponto estratégico importante: o Irã é historicamente comprador de commodities agrícolas brasileiras, como milho e soja, e um conflito prolongado pode comprometer essa relação comercial no curto prazo, seja por entraves logísticos, financeiros ou diplomáticos.
Nos mercados financeiros, o cenário é de volatilidade extrema. Estamos vendo bolsas internacionais reagindo de forma intensa, algumas inclusive acionando mecanismos de proteção, enquanto o dólar ganha força em movimento ascendente.
O Ibovespa sofre, porque apesar de empresas ligadas ao setor de petróleo se beneficiarem com a alta do barril, o índice é composto por diversos setores que serão pressionados pelo aumento de custos, pela desvalorização cambial e pela aversão global ao risco. O dólar mais forte encarece importações, pressiona a inflação e complica o ambiente para economias emergentes.
O maior risco agora não é apenas o preço do petróleo em si, mas a possibilidade de ampliação do conflito, envolvendo outras nações e impactando rotas estratégicas de fornecimento.
Se houver interrupção relevante na oferta, podemos assistir a um choque energético com repercussões inflacionárias globais e revisões no crescimento econômico. Até que haja sinais claros de desescalada diplomática, o mercado continuará operando sob tensão, e a palavra que define o momento é volatilidade.
*Cesar Queiroz é especialista do mercado financeiro e CEO
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