Ar-condicionado em 17 °C: conforto climático ou atentado tropical?
A guerra silenciosa da temperatura divide famílias, colegas de trabalho e casais — e a ciência já tem opinião formada sobre quem está exagerando
Espaço Prisma|Héctor Farto, especial para o R7
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Poucas coisas unem tanto os brasileiros quanto reclamar do calor. Mas poucas coisas também nos separam com tanta eficiência quanto o ar-condicionado ajustado em 17 graus.
Ele chega sem aviso, transforma ambientes em polos quase antárticos e cria um dos conflitos mais recorrentes da vida moderna: quem manda no controle remoto. A cena é universal. Um entra no ambiente e solta um suspiro de alívio: “Nossa, que delícia!”.
Outro, já arrepiado, cruza os braços, procura um casaco que não trouxe e pensa seriamente se ainda está no Brasil ou se foi teleportado para uma câmara frigorífica.
A pergunta, então, se impõe: 17 °C é conforto ou exagero?
A ciência não sente frio — mas tem resposta.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a faixa de conforto térmico para ambientes fechados fica, em média, entre 20 °C e 24 °C, variando conforme umidade, ventilação e tipo de atividade realizada no local.
No Brasil, a Anvisa reforça essa orientação e recomenda que ambientes climatizados — especialmente os de uso coletivo — não operem abaixo de 20 °C.
A razão é simples: temperaturas muito baixas forçam o organismo a trabalhar mais para manter o equilíbrio térmico. Traduzindo: 17 °C não é ilegal, mas está claramente fora do acordo coletivo da biologia humana.
O choque térmico existe — e cobra seu preço
Sair de um ambiente externo a 30 °C e entrar em outro a 17 °C significa submeter o corpo a um choque de 13 graus em poucos segundos. Para o sistema respiratório, isso não é detalhe. Dados da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia indicam aumento significativo de:
- Crises de rinite e sinusite
- Irritações na garganta
- Ressecamento das vias aéreas
- Piora de quadros alérgicos
Não é drama, é estatística. Mas então por que tanta gente ama o frio extremo?
Porque o ar-condicionado deixou de ser só conforto térmico e virou símbolo psicológico. Pesquisas de comportamento mostram que ambientes mais frios são associados a:
- Sensação de limpeza
- Modernidade
- Eficiência
- “Lugar bem cuidado”
Além disso, estudos conduzidos pela Universidade de Cornell apontam que, para parte das pessoas, temperaturas mais baixas aumentam a sensação de foco — especialmente em tarefas rápidas e repetitivas.
O problema começa quando o foco vira congelamento e a produtividade passa a disputar espaço com o tremor involuntário.
A conta de luz entra na conversa
Segundo dados do setor elétrico, cada grau abaixo de 23 °C pode elevar o consumo do ar-condicionado em até 10%.
Na prática:
- 23 °C: consumo equilibrado
- 20 °C: até 30% a mais
- 17 °C: a conta chega antes do salário
Campanhas de eficiência energética da Eletrobras e de concessionárias recomendam manter o aparelho entre 23 °C e 24 °C como ponto ideal entre conforto e economia. Sim: existe um número que agrada ao corpo e ao bolso.
A verdadeira divisão do Brasil
No fim das contas, o debate não é técnico. É cultural.
O país se divide claramente entre:
- o time que leva casaco para o shopping
- o time que acha que “tá abafado” com 21 °C
- E nenhum dos dois acredita estar errado.
Talvez o consenso esteja em 22 °C — uma temperatura civilizada, democrática e capaz de evitar conflitos familiares, processos trabalhistas informais e discussões passivo-agressivas no escritório.
Exagero ou conforto?
A ciência é clara: 17 °C é exagero.
O coração de muitos brasileiros insiste: é felicidade pura. Como quase tudo na convivência humana, o segredo não está no controle remoto, mas na capacidade de negociar.
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