Copinha, criatividade e o risco de podar o futebol que queremos ver
Campeonato sub-20 é uma vitrine gigantesca, que deve preservar o maior patrimônio do futebol brasileiro: a liberdade de jogar
Espaço Prisma|Ilsinho, ex-jogador e comentarista da RECORD

A primeira fase da Copa São Paulo de Futebol Júnior passou como costuma passar: grandes clubes confirmando favoritismo, algumas surpresas aparecendo pelo caminho e vários jovens chamando atenção. Até aí, tudo dentro do roteiro que faz da Copinha o torneio mais charmoso do futebol de base no Brasil.
Mas, em meio aos resultados, um lance específico chamou mais atenção do que qualquer placar. Na estreia da Ponte Preta, Kaio, o jovem camisa 11 da Macaca, tentou uma embaixadinha em campo. Um gesto técnico, ousado, típico de quem tem recurso e personalidade. A resposta veio rápida: falta dura do adversário. Faz parte do jogo. Futebol também é choque, disputa, imposição.
O problema veio depois. O árbitro puniu o garoto com cartão amarelo pelo gesto. E é aí que mora a reflexão.
Há anos se repete o discurso de que o futebol brasileiro perdeu criatividade, que os jogadores de hoje são “robóticos”, que faltam dribles, ousadia e improviso. Mas quando um jovem tenta algo diferente, quando arrisca um lance plástico, técnico, que faz parte da essência do nosso futebol, ele é punido. Como cobrar arte se a arte é coibida?
A Copinha é, acima de tudo, formação. É o palco onde a futura geração aprende a se expressar, a tomar decisões e a entender o jogo. Punir um garoto por tentar uma embaixadinha, uma caneta ou uma carretilha é enviar a mensagem errada: a de que criar é proibido, de que ousar é excesso, de que jogar bonito é desrespeito.
O futebol brasileiro sempre se construiu em cima do drible, da irreverência e da coragem. O recurso técnico não é provocação, é ferramenta. Quem tem, precisa mostrar. Se vai tomar uma chegada depois, se vai perder a bola ou se vai decidir o jogo, isso faz parte do aprendizado. Cabe ao jogador escolher como usar seu talento, não ao árbitro impedir que ele exista.
Quando se tira do jovem a liberdade de criar, o futebol perde. E perde cedo. Se a base deixa de permitir o drible, o grande lance e a alegria, o resultado aparece lá na frente: seleções previsíveis, jogadores travados e um jogo cada vez mais distante daquilo que nos fez referência mundial.
A Copinha segue, a segunda rodada já está aí, e o torneio continua sendo uma vitrine gigantesca. Que ela siga revelando talentos, mas que também preserve aquilo que sempre foi o maior patrimônio do futebol brasileiro: a liberdade de jogar.
Porque, no fim das contas, se o menino não puder ser feliz com a bola no pé, algo está muito errado.
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