Dormir é o novo bloco: um manifesto bem-humorado a favor da Quarta-Feira de Cinzas
Entre trios elétricos, filas de banheiro químico e BOs, há quem prefira trocar o confete por um travesseiro — e os dados mostram que escolha pode ser mais sensata
Espaço Prisma|Héctor Farto, especial para o R7

Há uma decisão que divide o Brasil mais do que axé versus samba: pular Carnaval ou simplesmente… dormir. Sim, dormir. Fechar os olhos na sexta-feira à noite e só reaparecer na Quarta-Feira de Cinzas, hidratado, com a coluna alinhada e a dignidade intacta. Enquanto milhões saem às ruas atrás do bloco, há um grupo silencioso — e cada vez maior — que escolhe o bloco do pijama. E, curiosamente, os números estão do lado deles.
Comecemos pelos fatos, porque até o descanso merece embasamento. Dados recorrentes das secretarias de segurança mostram que o Carnaval é, historicamente, um período de aumento expressivo de ocorrências policiais nas grandes cidades. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, os registros de furtos e roubos durante o feriado costumam crescer de 20% a 40% em relação a semanas comuns. Celular, carteira, documento, cartão — tudo entra no ritmo do “perdeu”. Não é azar, é estatística.
Some a isso os episódios de violência. Brigas generalizadas, agressões físicas e até crimes mais graves costumam se concentrar nos dias de folia. O álcool corre solto, o calor ajuda pouco e a paciência coletiva evapora mais rápido do que o gelo do isopor. Hospitais registram aumento de atendimentos por quedas, traumas e intoxicação alcoólica. O corpo humano, ao que tudo indica, não foi projetado para sobreviver a quatro dias seguidos de sol, multidão e latinha quente.
E há um tema que já não cabe mais debaixo do tapete colorido: o assédio. Campanhas educativas se multiplicam justamente porque o problema é real. Pesquisas indicam que uma parcela significativa das mulheres relata ter sofrido algum tipo de assédio durante o Carnaval, do verbal ao físico. Fantasia não é convite, mas infelizmente ainda há quem confunda purpurina com autorização. Para muita gente, isso transforma a festa em um território de alerta permanente, não de alegria.
Agora, olhemos para o outro lado da avenida: o quarto escuro, o ar-condicionado em modo “Antártida” e o despertador desligado. Dormir bem não é só prazer — é saúde pública. Estudos mostram que a privação de sono afeta o humor, a memória, a imunidade e até o sistema cardiovascular. Dormir mal aumenta o risco de acidentes, decisões ruins e irritação gratuita (inclusive com quem ama Carnaval). Colocar o sono em dia reduz o estresse, melhora a concentração e dá aquela sensação rara de acordar sem negociar com a própria consciência.
Enquanto alguns voltam do feriado precisando de férias do feriado, quem dormiu chega à Quarta-Feira de Cinzas quase zen. Sem ressaca moral, sem dor no joelho, sem histórias que começam com “eu não lembro direito, mas…”. Chega com pele melhor, humor melhor e, ousadia máxima, com energia para trabalhar. É o verdadeiro renascimento — sem cinzas, só café.
Nada disso é um ataque ao Carnaval. A festa é parte da identidade brasileira, movimenta bilhões na economia, gera empregos e alegria genuína para milhões de pessoas. Ótimo. Que exista, que seja linda, diversa e cada vez mais segura. Mas também é legítimo dizer: não é para todo mundo, todo ano, o tempo todo. E tudo bem.
Escolher dormir no Carnaval não é ser antissocial, é ser estratégico. É entender que felicidade também pode vir em forma de oito horas seguidas de sono, maratona de séries sem culpa, leitura atrasada e refeições que não cabem num palito de churrasco. É trocar o bloco do “empurra-empurra” pelo bloco do “não me acorde”.
No fim das contas, o Brasil precisa de foliões — e de gente descansada. Se você é do time que acorda na Quarta-Feira de Cinzas sem saber que dia é, parabéns. Você pulou o Carnaval mais radical de todos: aquele em que ninguém te roubou, ninguém te assediou, seu fígado agradeceu e seu travesseiro virou o verdadeiro rei da festa.
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