IA deixa de ser novidade para ditar como produzirmos e tomamos decisões
Ferramenta se torna o motor invisível da operação, mas o impacto dependerá de quem souber desenhar interfaces eficientes entre pessoas e sistemas
Espaço Prisma|Nicole Grossmann*

Quando penso em 2026, especialmente transitando entre o ecossistema tecnológico dos Estados Unidos e a realidade corporativa brasileira, não enxergo a corrida pela “próxima modinha de modelo”.
O que vejo é uma mudança de camada. Inteligência artificial deixa de ser um produto isolado e passa a funcionar como infraestrutura, reorganizando como produzimos, comunicamos e, cada vez mais, tomamos decisões.
Essa transformação não tem o brilho das grandes estreias tecnológicas. Pelo contrário: é mais humana e mais vertical do que o discurso “100% software” costuma admitir.
Dentro das empresas, essa virada é menos ruidosa do que parece. Nos últimos anos, a atenção pública se concentrou nos chatbots. Só que o verdadeiro ponto de inflexão é outro: a chegada dos agentes. A lógica que antes se limitava a perguntar e responder evolui para delegar tarefas inteiras.
Organizações já utilizam agentes para vasculhar sistemas internos, cruzar dados, gerar relatórios e montar apresentações a partir de um único prompt. A McKinsey estima que atividades de coleta, síntese e formatação consomem cerca de 40% do tempo de profissionais de áreas de conhecimento. É exatamente esse bloco de tarefas que está sendo automatizado agora.
Isso não diminui a necessidade do olhar humano. Pelo contrário. O profissional passa a atuar onde realmente importa: interpretar, validar e decidir. A automação reduz ruído operacional, não capacidade analítica.
Esse mesmo movimento aparece no uso corporativo de vídeo e conteúdo visual. Ainda há quem trate vídeo gerado por IA como curiosidade de laboratório, mas essa visão não resiste ao que já acontece em marketing, educação corporativa e treinamento.

Nos Estados Unidos, empresas como Runway, Pika e Meta impulsionaram um aumento superior a 400% no uso de vídeo sintético entre 2023 e 2025. A lógica é simples: testar dez variações de um conceito custa minutos, não orçamentos inteiros.
Em paralelo, apresentações feitas diretamente por prompt se tornam rotina. Em muitas empresas de tecnologia, já é natural descrever objetivo, público e dados de apoio e receber um rascunho de 70 a 80% pronto.
A narrativa permanece humana, mas a fricção do slide desaparece. Surge uma nova linguagem visual corporativa, mais interativa e veloz, que tende a tornar a apresentação de slides tradicional uma ferramenta de outra era.
Conversando com fundadores e investidores, inclusive dentro da Y Combinator, fica evidente um consenso crescente: software puro virou commodity. E isso é positivo. Obriga empresas a competir não por quem adiciona mais funcionalidades, mas por quem entrega profundidade, operação e contexto real.
Segundo a CB Insights, mais de 60% dos investimentos globais em IA no último ano foram direcionados a soluções verticais, como automação financeira, compliance, saúde, varejo e produção de vídeo.
Não estamos entrando na era da IA generalista onipotente. Estamos entrando na era das soluções híbridas, em que modelos automatizam a base, enquanto camadas de serviço, curadoria humana e especialização setorial definem o verdadeiro valor. É uma sofisticação silenciosa que separa quem escala de quem apenas promete.
Por isso, falar em disrupção imediata distorce o que realmente está em jogo. O ponto central agora é coordenação. A IA se torna o motor invisível da operação, mas o impacto dependerá de quem souber desenhar interfaces eficientes entre pessoas e sistemas.
Empresas que entenderem essa colaboração ganham velocidade. Profissionais que dominarem o uso de agentes, validarem resultados e articularem narrativas estratégicas ganham alavancagem. E quem continuar tratando IA apenas como chatbot vai perceber que ficou preso na fase beta da revolução.
Portanto, 2026 é o ano em que a IA deixa de aparecer para funcionar em segundo plano. E, justamente por operar sem holofotes, torna-se ainda mais transformadora.
*Nicole Grossmann é matemática e economista pela Columbia University, com especialização em inteligência artificial pelo Georgia Tech
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