Lula precisa entender que o crime não respeita fronteiras estaduais. A eleição, também não
Segurança pública é responsabilidade dos governadores. Mas quem vai pagar a conta eleitoral é o presidente
Espaço Prisma|Marine Salgado, especial para o R7

28 de outubro de 2025. Polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro entram nos complexos da Penha e do Alemão com 2.500 agentes, blindados e helicópteros. Quando a operação acaba, há 121 mortos. A maior operação policial da história do país.
Governador Cláudio Castro declara sucesso. A ONU pede investigação. O Brasil inteiro para assistir. E, em Brasília, nos gabinetes do Planalto, todos entenderam a mesma coisa: a segurança pública vai decidir quem ocupa a presidência em outubro de 2026.
O número que importa
41%. É a porcentagem de brasileiros que apontam crime e violência como a maior preocupação do país, segundo pesquisa do Ipsos divulgada em 2 de fevereiro de 2026. Saúde fica em segundo, com 36%. Corrupção, em terceiro, com 33%.
Não é surpresa. Em 2025, pela primeira vez desde pelo menos 2014, a segurança pública superou a saúde como problema número um na cabeça do brasileiro. E 70% dos entrevistados em um levantamento de março daquele ano disseram que a violência é um problema nacional, não estadual.
Esse último dado é o mais importante. Porque, na Constituição, a segurança pública é responsabilidade dos governadores.
Por que a Constituição não importa para o eleitor
Os estados nomeiam, financiam e comandam as polícias. Eles gastam 85% dos recursos de segurança pública no país. A União repassa apenas uma fração. Isso é claro no texto da lei.
Mas o crime não lê a Constituição. O Ministério da Justiça mapeou 88 facções criminosas ativas no Brasil em 2024, um salto em relação aos 70 do ano anterior.
O PCC está presente em 24 estados e atua em 28 países. O Comando Vermelho, em 22 estados. A Abin afirmou, em novembro de 2025, que não existe uma guerra de facções no Brasil que não envolva o CV.
Entre 2020 e 2024, o PCC movimentou cerca de US$ 10 bilhões, segundo dados da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal. Uma organização desse tamanho não pode ser combatida por uma polícia estadual sozinha. O brasileiro sabe disso. Mesmo sem ter os dados.
O que aconteceu depois da Operação Contenção
A operação no Rio dividiu a opinião. 55,2% dos brasileiros aprovaram a ação, segundo pesquisa da AtlasIntel realizada logo depois. 57% dos moradores do Rio consideraram a operação um sucesso, segundo levantamento do Datafolha. Mas 42% dos entrevistados na pesquisa nacional disseram ver motivação política nos bastidores.
O resultado foi imediato: segurança pública voltou ao centro da agenda política com força nunca vista. E os governadores que mais criticam o governo federal nessa área são exatamente os que vão disputar a presidência. Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado usaram as audiências sobre a PEC da Segurança Pública na Câmara como tribuna eleitoral.
Tarcísio chamou a proposta do governo de “cosmética”. Caiado afirmou que o governo federal “nunca teve uma atuação de enfrentamento com as facções criminosas”.
A tentativa que está travada
O governo não ficou parado. A PEC 18/25, enviada ao Congresso em abril de 2025, propõe ampliar o papel da União na segurança pública e dar à Polícia Federal mais competência contra crime organizado e milícias. O raciocínio é simples: um problema que cruza todas as fronteiras estaduais precisa de uma resposta que também cruze.
Mas a PEC está travada. O relator da comissão especial já adiantou que vai trocar a palavra “coordenação” por “cooperação”, esvaziando o texto. Os governadores de direita se opõem. Sem a PEC, o governo fica sem argumento concreto para mostrar que está atuando no tema que mais preocupa o brasileiro.
Por que Lula precisa perder o sono com isso
Em 2024, o Brasil aplicou R$ 153 bilhões em segurança pública. As mortes violentas intencionais caíram 5,4%. São números que o governo pode apresentar na campanha.
Mas a pesquisa do IREE ouviu 2.000 brasileiros e constatou que apenas 4% consideram que a segurança pública melhorou. A sensação de insegurança não caiu junto com os números.
Na eleição, quem ganha não é quem apresenta estatísticas. É quem parece estar resolvendo o problema. Até agora, os governadores estão na frente dessa narrativa. Lula precisa estar também. Porque a segurança pública não é formalmente competência do presidente.
Mas a reeleição é.
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