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Lulinha precisa se explicar

Mensagens interceptadas, viagens em primeira classe e uma testemunha-chave. O filho do presidente acumulou um acervo de indícios que não se resolve com silêncio

Espaço Prisma|Marine Salgado, especial para o R7

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Homem, conhecido como Lulinha, sentado em cadeira assiste a uma palestra com olhar desconfiado
Lulinha não é investigado formalmente, mas deve explicação em prol da transparência Juca Varella/Estadão Conteúdo – 16.02.2008

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, não é investigado formalmente. Isso é verdade. Mas é uma verdade que, cada vez mais, cobra uma explicação que ele ainda não deu — não à Justiça, não à CPMI, não à opinião pública. O silêncio diante de um conjunto crescente de indícios deixou de ser uma estratégia defensável.

O ponto de partida é a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que investigou o esquema bilionário de descontos ilegais nos benefícios do INSS. O principal alvo foi Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso desde setembro de 2025. Durante a apuração, o nome de Lulinha emergiu em pelo menos três contextos distintos: depoimentos, celulares apreendidos e passagens aéreas.


O que a investigação revelou

O primeiro indício vem de um depoimento dado à PF pelo empresário Edson Claro, ex-sócio do Careca do INSS. Segundo Claro, Antônio Camilo afirmou diversas vezes que “Fábio Lula” era seu sócio em projetos de cannabis medicinal. Claro ainda declarou que o Careca lhe informou ter enviado dinheiro a Fábio Lula — cerca de R$ 25 milhões — e que realizava pagamentos mensais de R$ 300 mil, por ele chamados de “mesada”.

O segundo conjunto de indícios vem de mensagens interceptadas pela PF. Quando questionado sobre um pagamento de R$ 300 mil para a empresa de Roberta Luchsinger, o Careca do INSS respondeu que o valor era para “o filho do rapaz” — referência que a PF interpreta como direta a Lulinha.


O terceiro elemento são os registros de viagens. A PF identificou passagens aéreas de Lulinha e Roberta compradas sob o mesmo código localizador, com seis deslocamentos conjuntos. Entre eles, um voo de primeira classe entre Guarulhos e Lisboa, em 8 de novembro de 2024 — no qual o Careca do INSS também viajou. Os ingressos custam entre R$ 14 mil e R$ 25 mil cada. Quem pagou não foi identificado.

O papel de Roberta Luchsinger

Roberta Luchsinger é o fio que conecta todos os fatos. A PF identificou repasses de R$ 1,5 milhão à sua empresa, oriundos da Brasília Consultoria — empresa de fachada, segundo a CPMI. Após a Operação Sem Desconto, ela enviou ao Careca: “Some com esses telefones.” A PF encontrou ainda anotação à mão: “Mínimas informações possíveis. CPF — Fábio (filho Lula)”.


A defesa afirmou que Lulinha é amigo de Roberta, mas negou envolvimento nas fraudes.

A blindagem na CPMI

Lulinha teve suas convocações rejeitadas duas vezes — em outubro e em dezembro de 2025 — após articulação da base governista. Na votação de 4 de dezembro, foram 19 votos contra e 12 a favor. A quebra do sigilo de Roberta foi barrada na mesma sessão. O Congresso foi impedido de ouvi-lo diretamente — e isso é, por definição, um problema de transparência.


O requerimento de fevereiro

Em 2 de fevereiro de 2026, o relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), protocolou novo requerimento pedindo a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026. A votação está prevista para esta quinta-feira.

O que resta

Não há denúncia formal contra Lulinha. A PF não o indiciou. Mas há mensagens que o citam, um depoimento que o nomeia, viagens que o colocam junto aos investigados e tentativas de destruição de provas que protegem seu nome.

É justo reconhecer que o presidente Lula se pronunciou sobre o tema de forma direta. Em 18 de dezembro, ao ser questionado sobre a situação do filho, Lula afirmou: “Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado.” Isso é positivo. É exatamente o posicionamento que se espera de um presidente. O problema não está no que Lula disse — está no que aconteceu depois: duas convocações bloqueadas, tentativas de quebra de sigilo barradas e um filho que manteve silêncio absoluto.

O Brasil merece uma explicação direta, com nome e sobrenome, feita por Fábio Luís Lula da Silva sobre cada um desses fatos. Isso não é exigência da oposição. É uma exigência básica de transparência.

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